4. Até a unanimidade
Efésios 4 nos fala de duas unidades: a do Espírito (Ef 4:3) e a da fé (Ef 4:13). A primeira é a unidade possível hoje. Somos exortados a preservá-la, pois já a possuímos. Porém, o outro versículo ordena buscarmos também a unidade da fé, que ainda não possuímos. Portanto, a unidade da fé é futura.
Que significam essas duas unidades? A do Espírito é a que pertence a ele e só ele pode produzir, embora a sua preservação dependa do nosso esforço, como o primeiro versículo diz: “Esforçando-vos diligentemente para preservar a unidade do Espírito”. Mas a outra unidade, da fé, envolve tanto a fé vital como convicções secundárias (Rm 14:22), a exemplo de o que comer, que dias guardar e coisas semelhantes.
Efésios 4:13 fala-nos da unidade da fé nesse sentido amplo. Refere-se à unidade da fé primária e também secundária. A primeira é a fé que conduz à salvação, a fé que "de uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Se ela nos foi entregue, já a possuímos. Temos também a unidade que se dá em torno dela. Porém, com a unidade da fé (primária e também secundária) se passa o contrário. Ainda não a possuímos, pois essa fé integral não terminou de nos ser revelada.
Não nos enganemos, esperando que a fé de cada um possa, à força de autoritarismos, chegar a ser idêntica. Não é possível saltar a etapa atual da unidade do Espírito, que nos faz um enquanto ainda mantemos divergências em matérias de fé secundária. A unidade do Espírito envolve conformidade na fé e diversidade em matéria de opinião. Claro que, por isso, a negação do direito à opinião e à sua expressão constitui um furto de liberdade, uma escravização do cristão, que por sua natureza é livre.
Assim, o limite óbvio para a divergência entre os cristãos, hoje, é o plano de Deus, no qual está calcada a fé que opera para salvação. No original de 1ª a Timóteo 1:3-4, a conformidade do ensino à dispensação ou economia de Deus é exigida: “Roguei que permanecesses ainda em Éfeso para admoestares a certas pessoas a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que antes promovem discussões do que o serviço [economia] de Deus na fé”.
Ensinar outras doutrinas é afastar-se da economia, isto é, do plano de salvação de Deus. Fábulas e genealogias sem fim, como as introduzidas pelos gnósticos, negam esse plano de salvação, que se direciona a um só fim e não a vários. Por isso, são proibidas na igreja. Do que também se conclui que a diversidade ajustada ao plano divino não pode ser combatida, mas a que não se ajusta deve ser eliminada.
Outra distinção importante é a que se pode traçar entre unidade e unanimidade. Esta é a unidade de opiniões, sentimentos, pontos de vista. É a unidade total da alma. Por seu caráter perfeito, a unanimidade é uma flor delicada, que não cresce em qualquer clima, nem em qualquer solo.
Sob inspiração do Espírito, o escritor de Atos usou muitas vezes os termos unânimes, unanimidade e outros semelhantes. Porém, só o fez no início do seu livro, o que sugere que a unanimidade estava presente, naquele tempo, mas não em épocas posteriores. Isso é confirmado nas epístolas, em que Paulo exorta seus leitores a buscarem a unanimidade: “Completai a minha alegria de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento” (Fp 2:2) e “Rogo a Evódia, e rogo a Síntique pensem concordemente no Senhor” (Fp 4:2). Vemos que a unidade estava presente em Filipos, mas a unanimidade não. Não era diferente na maioria das outras igrejas da época.
Porém, ainda quando não está presente, a unidade total de alma ou unanimidade deve continuar a ser nossa meta. Devemos trabalhar continuamente com vistas a ela. Só não adianta nos iludirmos. Não adianta forjarmos a unanimidade com a ferramenta do autoritarismo. Esse método é inteiramente humano. Não pertence ao Espírito. E, por não pertencer, por meio dele, só alcançaremos a unanimidade humana, jamais a do Espírito. Devemos, sim, exortar, conciliar e trabalhar de vários modos pela unanimidade dos que creem, mas não usar o esforço desassistido da graça para obtê-la.
A divisão é um erro grave, um descontrole no seio da diversidade. Nas relações familiares, encontramos bons exemplos de como ela opera. Por mais que haja desentendimentos entre os membros de uma família, o amor costuma ser mais forte que tudo. A família não se mantém unida pela ausência de diversidade ou de desavenças, mas pela presença do amor. Por isso também, a perda da unidade, na família, é uma verdadeira aberração.
Da mesma forma, as divisões existentes na igreja, são um sério problema. Por elas, a família de Deus é rompida, a realidade da vida familiar é perdida, e a unanimidade se torna uma meta inviável. Isso não é menos que uma aberração. Para usarmos a metáfora de Cipriano, é como se os raios do disco solar se desconectassem dele.
Infelizmente, nem a unidade do Espírito parece muito presente, na igreja de Deus, hoje. Atraímos vergonha para o evangelho, dividindo-nos e nos mantendo divididos do modo mais cruel e radical.
[Cabe inserir, aqui, um comentário. De 1991, quando A unidade da igreja foi escrito, até hoje, uma ação especial do Espírito Santo fez aumentar bastante a compreensão entre cristãos das mais variadas confissões. Oposições tradicionais como a católico-protestante, a católico-ortodoxa, a wesleyana-calvinista e a histórico-pentecostal continuaram a sofrer desgastes impostos pela nova consciência. Não cabe comentar, aqui, os fatores desse desgaste, mas é importante afirmá-lo, para que o diagnóstico sobre as divisões, apresentado no texto, não seja interpretado como historicamente imutável. As divisões cristãs não são inalteráveis. Embora constituam um problema persistente, elas mudam em intensidade e até em natureza, ao longo do tempo. Foi o que se deu, ainda mais intensamente que antes, nas últimas décadas].
Por isso, somos chamados a restaurar a unidade bíblica, a unidade do Espírito, rumo à unanimidade, não à unidade do homem, da carne ou do sangue. Nessa senda, o que excede os princípios da unidade deve ser objeto de tolerância e de transação por parte dos cristãos. Não se trata de saber se uma prática originou-se aqui ou ali, se Fulano ou Beltrano a propôs. Se quem a traz é um irmão de fé, devemos permanecer abertos a ele e a ela.
Só um mínimo de princípios necessita ser salvaguardado. Em tudo o mais, resta-nos permanecer de braços abertos e anelantes por abraçar os irmãos de qualquer procedência. A igreja só é local, porque o homem é limitado. Se ele não o fosse, só a igreja universal existiria. Portanto, nem o caráter local, nem o aspecto universal da igreja são mais importantes do que o amor.
Ao escrever este texto, não penso em direitos, meus ou de outros. O amor não enxerga direitos, somente deveres. Tampouco considera receber, mas dar. Por isso, o amor é o espírito da unidade. A unidade se realiza na comunhão, e a comunhão, no amor. Vale sempre dizer, no amor fraternal, que é também uma amizade. No amor de Filadélfia. Verdade é que há muitas barreiras regionais, culturais, geográficas, políticas e até pessoais a esse amor. Mas ele tem o incrível poder de explodir todas as barreiras. É o que vemos realizado no livro de Atos.
Naquela época, as dificuldades de comunicação eram imensas, mas a unidade estava calcada no amor. Um grande número de evangelistas, de mestres e até de apóstolos, autointitulados ou não, possuía cada qual sua esfera de ação. Porém, um trânsito de amor e um esquecimento contínuo dos próprios direitos aproximavam pessoas assim distantes e faziam delas um corpo.
Isso mostra que o que separa não é a geografia, mas o interesse particular. Não são as dificuldades de comunicação. É o apego ao ego e aos próprios direitos. O amor, porém, faz esquecer o eu e pensar no tu. Ele estreita as distâncias e fecha as lacunas que o interesse e o direito abrem.
De que necessitamos mais, hoje, do que do amor, que é uma singela amizade entre irmãos? Não permitamos que um sistema rígido esfrie esse amor entre nós. Os princípios da unidade divina não formam um sistema. Não formemos nós um, nem coloquemos qualquer sistema de prescrições e proibições acima da comunhão.
Unanimidade é o fruto do perfeito amor. É Atos capítulos um a cinco. Talvez pensemos que é preciso não ter pecado para experimentar o que se encontra nesses capítulos. Mas Atos foi escrito para mostrar que isso não é verdadeiro. Para viver a unanimidade, não é preciso não ter pecados, mas cobrir os que se tem. Só o amor realiza isso: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados” (1 Pe 4:8).
Pedro cita Provérbios 10:12, que afirma que “o amor cobre todas as transgressões”. Essas duas testemunhas, uma do Velho, outra do Novo Testamento, estão a nos mostrar que o amor tem relação com os pecados. Ele não os expia ou remove, como a justiça faz. Mas os homens não buscam a justiça o tempo todo. Por isso, o pecado está sempre presente entre eles. Só o amor é capaz de cobri-los.
Essa é a única e verdadeira condição da unidade: cobrir os pecados uns dos outros, por meio do amor. Se não há justiça sem perdão, não há comunhão sem o amor que cobre pecados. Não há comunhão sem disposição para sofrer o dano injusto, em vez de impor a lesão justa. Isso é a lei e os profetas. E ainda mais claramente é o evangelho. O resto é teoria sobre a unidade e palavreado inútil. A unidade real, a unidade possível é a que se impõe, quando o amor cobre nossa multidão de pecados. Seja essa a nossa unidade.
São Paulo, 30 de maio de 1991.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
segunda-feira, 17 de junho de 2013
A Unidade da Igreja (2)
3. Grandes exemplos de diversidade
Os vários grupos cristãos apresentam condições mediante as quais uma pessoa pode ingressar e transitar neles. Já indicamos que o não pentecostalismo é uma condição adotada por muitas confissões históricas e que o uso exclusivo da Bíblia o é para a Congregação Cristã no Brasil.
A comunhão dos apóstolos, porém, se distingue dessas de cunho particular. É a comunhão na diversidade, sem condições que não sejam o novo nascimento e a fé ortodoxa em questões vitais. Em tudo o mais, a comunhão apostólica é inteiramente aberta. Ninguém pode exigir ou proibir coisa alguma a um cristão exceto isso. O que comer, os costumes a guardar etc. não devem ser matéria de discussão na igreja (Rm 14:1-3,5).
Tanto no Velho como no Novo Testamento, tal princípio de unidade é ratificado exaustivamente. Quando Miriã e Arão erraram, ao se rebelarem contra Moisés, Deus de modo nenhum negou que os dois descontentes fossem também seus porta-vozes. Ainda que houvesse um princípio de sublevação no comportamento deles, o Senhor não negou a pluralidade de ministérios no seu povo. Havia, é certo, um só ministério global no Velho Testamento, como Paulo indica em 2ª aos Coríntios 3:7,9. Nesse ministério, estavam Moisés, Arão, Miriã e todos os demais filhos de Israel, cada qual a exercer a sua função, num quadro geral de harmonia. Mas ali também existiam ministérios, no plural, assim como no Novo Testamento há diversidade de ministérios integrados (1 Co 12:5).
Se o ministério de Moisés tinha a preeminência, uma ampla liberdade permitia que outros também mantivessem trabalhos espirituais. Miriã e Arão possuíam os seus ministérios. Ela era uma profetisa, ele, o Sumo-Sacerdote responsável por ministrar a Deus e ensinar o povo. Todo um campo de particularidades era possível, nessas funções, em harmonia com o ministério mais eminente de Moisés.
Para falar em sonhos e visões aos irmãos de Moisés, Deus não se dirigia primeiro a ele. Tampouco exigia que aqueles, ao receberem uma revelação, a submetessem a Moisés para que autorizasse ou não a sua publicação. As coisas reveladas, pelo simples fato de o serem, pertenciam e ainda pertencem ao domínio público. Deuteronômio 29:29 afirma que elas “pertencem a nós e a nossos filhos para sempre”, não a um homem ou a um ministério particular.
Esse é o princípio pelo qual Deus regia o ministério do Velho Testamento. O próprio Moisés de modo nenhum possuía um espírito exclusivista ou favorável ao seu ministério, em detrimento do que era exercido por outros. Não é pensável que um povo que, havia pouco, se libertara da escravidão e fugira como uma horda tivesse organização tão estrita que as palavras de todos fossem subordinadas à de Moisés. Israel tinha, antes de tudo, de sobreviver no deserto. Não havia condições para ele implantar qualquer coisa parecida com um regime de uniformização de discursos.
Em Números 11, quando o Espírito do Senhor desceu sobre os setenta anciãos designados como cooperadores na tarefa de cuidar do povo, Josué, ajudador de Moisés, sugeriu que este proibisse Eldade e Medade, que pertenciam aos setenta, de profetizar no arraial, enquanto os outros sessenta e oito o faziam em volta da tenda da congregação. Afinal, onde se vira tal dissonância, tal dissintonia?
Ao ainda inexperiente Josué pareceu que a solução para o caso era: “Proíbe-lhes” (Nm 11:28). Moisés, porém, disse-lhe: “Tens tu ciúmes por mim? Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito” (Nm 11:29). Ainda que o trabalho de Deus seja executado de um modo, por uns, é perfeitamente possível praticá-lo de outro modo. Ainda que alguém profetize na tenda da congregação, é possível profetizar no arraial. Desde que isso se faça pelo Espírito do Senhor...
Este não é o lugar para demonstrações técnicas, mas é possível comprovar, pela Bíblia, que Jó viveu por volta da época de Jacó e seus doze filhos. Temos, pois, em Jó, um autêntico ministro de Deus situado fora da linha dos descendentes de Isaque. Se alguns gostam de enfatizar que o livro de Atos foca Pedro e Paulo, em detrimento dos outros ministros, temos em Jó não alguns versículos, mas um livro bíblico inteiro dedicado a um ministério paralelo aos de Jacó e seus filhos. Tal era a predileção de Deus por Jó que, após Satanás ter dado voltas à terra, não lhe perguntou se observara Jacó ou José, mas: “Observaste o meu servo Jó?” (Jó 1:8;2:3). Ainda que Jó não fosse descendente de Isaque e Jacó, a bênção, a atenção e o mover de Deus estavam também com ele, no tempo dos patriarcas.
Mas isso não é tudo. Pode-se estabelecer também que Sansão e Samuel julgaram Israel no mesmo período. Nunca houve contradição em Deus levantar mais de um juiz sobre Israel, ao mesmo tempo, já que a unidade divina se dá dentro de uma ampla pluralidade.
Essa verdade se encontra por toda a parte, nas Escrituras, assim como um princípio correspondente pode ser encontrado por toda a parte, na natureza. Ao longo da História, Deus a ratifica repetidamente. Após o decreto de Ciro para que os judeus retornassem livremente à sua pátria, Daniel (notem bem: o abençoado Daniel) permaneceu longamente em Babilônia. É o que se depreende dos versos 1 e 4 do capítulo 10 do seu livro. Não será o caso de se perguntar por que ele lá permaneceu, se Deus desejava que o seu povo reconstruísse o Templo, Jerusalém e as outras cidades e aldeias? Por que ele ficou lá, se o culto especial só podia ser prestado no lugar que o Senhor escolheu? Enfim, se Deus havia dito: “Buscareis o lugar que o Senhor vosso Deus escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome, e a sua habitação; e para lá ireis. A esse lugar fareis chegar os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e as ofertas votivas, e as ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas” (Dt 16:5-6)?
Se descumprir esse mandamento era pecado, o próprio Deus foi cúmplice de Daniel, pois confirmou a permanência dele em Babilônia, concedendo-lhe visões. Mas não há pecado algum. Simplesmente, o mover de Deus é tão elevado que não se sujeita a obrigações formais e estritas. O povo voltava para a pátria, Daniel permanecia em Babilônia, e nessas duas coisas estava o mover de Deus.
Vejamos, porém, casos do Novo Testamento. João batizava em Enom, e o Senhor, do outro lado do Jordão (Jo 3:22-23), sem qualquer desarmonia ou emulação. Acaso aquele que repreendeu energicamente os seus discípulos, os fariseus, os herodianos, o próprio Herodes e os pecadores, quando erraram, não teria repreendido João Batista, se este houvesse estabelecido um ministério concorrente com o de Jesus? Mas Jesus não o repreendeu. Antes louvou-o, quando os discípulos daquele ministro o interpelaram.
Se a obra paralela fosse um desvio, quando os discípulos de João procuraram Jesus, por que ele não mostrou o erro de João? Por que, ao contrário, chamou-o maior de todos os nascidos de mulher até o fim da era dos profetas (Mt 11:11,13)? Como podia um desviado ser maior do que Abraão, Moisés, Davi, Isaías, Jeremias e Daniel? O Senhor situou todo o trabalho ministerial de João, inclusive o período em que ele transcorreu paralelamente ao de Jesus, na era da lei e dos profetas, antes do reino dos céus. A questão é como um ministro decaído e desviante pode ter sido posto acima dos de todos os profetas?
É fora de dúvida que João se equivocou, mas há modos e modos de se equivocar. O erro de João Batista não foi grave ou culposo. Atos é inequívoco ao indicar que o discipulado mencionado pelo Senhor, em Mateus 28:19, era o de Cristo e de mais ninguém. Na igreja primitiva, sob orientação do Espírito Santo, levantaram-se muitos discípulos, mas não vemos alguém ser chamado discípulo de um ministro que não seja Cristo. Só em relação a Paulo, e ainda assim como um reflexo de sua posição passada no judaísmo, mencionam-se discípulos (At 9:25).
No entanto, nem João, nem Paulo perderam-se por terem mantido discípulos, já que ter discípulos não é, em si, errado ou proibido. Em Israel, ter discípulos não significava mais que ser mestre. E a igreja sempre teve mestres (At 13:1-2; Ef 4:11). O Velho Testamento também fala em moços seguidores de Moisés, de Elias e outros. Não se trata de justificar quem quer que seja, mas de contextualizar os fatos que nos cabe julgar.
João viveu num período de transição. Isso significa que Israel passava da época em que os profetas haviam tido seguidores, e os mestres, discípulos, para uma era em que todos seriam ensinados por Deus. Nada mais cabível que, num tempo de transição, a passagem de um a outro desses quadros se dar gradativamente.
Quando João batizava em Enom, sua obra era paralela à de Cristo, mas dava testemunho dele. É o que João 3:26 nos informa: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando”. "Do qual tens dado testemunho"! João continuava a prestar o seu testemunho de Cristo. E não só isso. Ele também formava discípulos para fazerem o mesmo, pois declarou: “Vós sois testemunhas". Testemunhas de quê? Ele mesmo esclareceu: "testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que tem a noiva é o noivo [Jesus]; o amigo do noivo [João] que está presente e o ouve, muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3:28-30).
Meu objetivo não é minimizar os erros de João. Mas é preciso definir claramente esses erros. Digamos que João tenha errado gravemente: ainda assim, seu erro não invalida o princípio das obras paralelas, seguido corretamente por Jó, Daniel e tantos outros. A verdade bíblica não é assim tão miserável que possa ser abalada pelo erro de um homem.
Quando seus discípulos vieram relatar-lhe o “sucesso” de Jesus além do Jordão, João respondeu-lhes: “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (Jo 3:27)! Ninguém angaria coisa alguma boa, se os céus não lhe dispensarem. Cada qual faz o que os céus lhe dão. Se alguém faz muito, sem iludir, é porque Deus lhe deu muito; se outro faz mais, é porque Deus lhe concedeu mais; e se o Cristo faz tudo, é porque lhe tem sido dado tudo! Os céus tudo decidem.
Não há por que brigar ou proibir, zangar-se ou boicotar. Deus deixa caminho aberto a todos os ministérios, a fim de que o que é bom floresça, o que é melhor floresça mais e o que é melhor do que tudo imponha-se sobre todos. Essa é a obra do Novo Testamento. Assim surgiu o evangelho e por nenhum outro método.
O próprio Senhor ordenou a seus discípulos que não proibissem a obra de quem não seguia com eles: “Falou João [Zebedeu] e disse: Mestre, vimos certo homem que em seu nome expelia demônios, e lho proibimos, porque não segue conosco. Mas Jesus lhe disse: Não proibais; pois quem não é contra vós outros, é por vós” (Lc 9:49-50). Nessa passagem, a razão dada para a não proibição de modo nenhum foi negativa. Jesus não negou que ele ou os apóstolos por ordem dele tivessem jurisdição para proibir. Algo mais forte foi dito: Jesus declarou que o obreiro que atuava paralelamente e fora repreendido pelos discípulos estava em harmonia com eles. Portanto, o trabalho do obreiro não só devia ser tolerado como ele tinha o mesmo direito dos apóstolos de ministrar.
Quem tem algo a dizer, diga-o. Quem não tem, cale-se e ouça. Não é o que Paulo recomenda aos coríntios praticarem em suas reuniões públicas (1 Co 14:27-30)? Ampliemos esse princípio absolutamente, e teremos o Novo Testamento. Mas, por falar em Paulo, ele não nos relata que, após a sua conversão, não consultou carne e sangue para iniciar o seu ministério? Não trabalhou paralelamente aos apóstolos, em Damasco e depois na Arábia? E não o fez sem consultar quem quer que se possa chamar carne e sangue (Gl 1:16-18)? Como se não bastasse, não citou ele tal fato para justificar uma radical liberdade em Gálatas? Se Paulo o citou, devemos tê-lo não só como possível, mas como um modelo.
Acaso Cefas, de Jerusalém, Paulo, de Antioquia, e Apolo, de Alexandria, não estiveram todos em Corinto? Não foram todos apóstolos para os coríntios? Eis um lindo e harmonioso exemplo. Embora Corinto fosse a região de labores especiais de Paulo, como os outros apóstolos apressaram-se a reconhecer (Gl 2:9), Jerusalém não pediu autorização para mandar um apóstolo ali. Claro que, cedo ou tarde, uma coordenação ia ser necessária, mas a obra de Deus se dá num contexto de fundamental pluralismo.
Que dizer, então, de Barnabé, Apolo e outros, que não seguiram física ou doutrinariamente a Paulo? Barnabé desentendeu-se com Paulo e se separou dele (At 15:39), e Apolo de modo nenhum atendeu um pedido dele sobre o trabalho missionário de ambos (1 Co 16:12). Claro que isso não precisa ser tomado como exemplo ou paradigma, mas, se houve ali algum erro, tampouco precisamos aumentá-lo ou considerá-lo algo que não pudesse ser removido, um minuto depois, pela confissão.
Se Paulo obteve supremacia no ministério, como Moisés antes dele, foi devido à graça superior que recebeu e que, pouco a pouco, desabrochou. E se Barnabé e Apolo tiveram alguma desvantagem, proveio também daí, não de terem trabalhado paralelamente.
Por toda parte, vemos a mesma coisa. Deus nunca proibiu, pelo contrário incentivou e fomentou fortemente os trabalhos ministeriais paralelos. Desses fatos, devemos extrair que o trabalho paralelo é um verdadeiro princípio bíblico e, como tal, é obrigatório. Deve existir. O que não se deve é confundir o trabalho paralelo (o princípio) com os erros eventuais dos ministros de Deus.
Estêvão foi muito além da incumbência para a qual fora designado, em Atos 6. Ele passou do serviço às mesas à discussão pública com os judeus. E, ao fazê-lo, não repetiu o ensino de Pedro e dos onze, mas tratou de outras revelações com o mesmo objetivo deles: pregar a salvação de Cristo. Essa atitude de Estêvão desencadeou uma cruenta perseguição. Claro: quem olhasse tal quadro com espírito autoritário diria que ali não estava somente um desvio ministerial, mas a devida punição a ele! Olhemos, porém, atentamente, para Atos, e veremos em Estêvão o que é um homem identificar-se plenamente com Cristo, o que é um homem ter rosto como de anjo (At 6:15) e subjugar as trevas com luz indizivelmente clara.
Não está aí um quadro de inegável pluralismo? E não podemos concluir, desses fatos, que a obra cristã primitiva desenvolvia-se em tal pluralismo? Nem mesmo o ministro confirmado por Deus com uma sabedoria superior à de todos os demais era encarregado da obra em toda a Terra. Paulo reconhecia claramente a sua “esfera de ação”. Foi essa a expressão que ele utilizou em 2ª aos Coríntios 10:13: “Nós, porém, não nos gloriaremos sem medida, mas respeitamos o limite da esfera de ação que Deus nos demarcou e que se estende até vós”. Não há ministro algum cuja seara seja ilimitada.
Lembremo-nos também de que a seara de Paulo sequer cabia exclusivamente a ele. Pelo contrário, Paulo disse que Apolo regou o que ele plantara. Disse mais que o mistério do crescimento não veio dele, nem de Apolo, mas diretamente de Deus (1 Co 3:6). Portanto, Paulo dividiu sua seara com Apolo, como a dividira antes com Barnabé. Ninguém é designado sozinho para a obra em toda a Terra para a obra numa região qualquer. Não é pouco importante lembrar que ser designado com outro, aqui, não é o mesmo que ser acompanhado de um escravo ministerial.
Vemos, em tudo, que a unidade cristã é plural. Assim é no Velho e no Novo Testamento. Não é de outro modo na História da Igreja, em particular na época dos pais que sucederam os apóstolos e transmitiram o seu ensinamento. Cipriano foi um deles. Sabemos que opôs-se à intenção de Estêvão de Roma de impor a sua convicção a todas as igrejas do orbe sobre o batismo dos hereges. Convocando um concílio, na sua região, para decidir o assunto, Cipriano recomendou aos bispos que expressassem livremente o seu sentimento sobre o assunto. É comum ver-se, nesse seu gesto, decidida oposição às pretensões demasiadas do bispado romano.
Ireneu, por sua vez, afirmou, no século II, que a dissonância no jejum não dissolve a consonância na fé. E Gregório de Roma declarou que a divergência sobre determinados assuntos não fere a unidade da igreja.
Poderíamos dar outros exemplos, tanto da época dos pais como posteriores. Não o faremos para não nos tornarmos cansativos. O importante, o digno de realce, é a virtual unanimidade, o amplo acordo dos pais sobre o tema. Não creio que eles teriam chegado a esse consenso, se uma prática oposta houvesse criado raízes na época dos apóstolos. Pelo contrário, se esse tivesse sido o caso, os ramos nascidos das raízes teriam sido observados e testemunhados por eles.
Nem uma testemunha externa, um governante como Plínio, o Moço, na epístola que dirigiu ao Imperador Trajano sobre os cristãos, apontou qualquer prática desviante dessas. Plínio descreveu a vida cristã primitiva de modo tão simples que parece incompatível com a hierarquia e o controle.
Se em certas épocas um obreiro se torna digno de maior destaque, como José entre os doze patriarcas e Paulo a seu tempo, devemos lembrar-nos de que toda grande verdade de Deus tem o seu outro lado. Do contrário, não seria grande. Sem o seu outro lado, verdade entra em desequilíbrio. No caso da obra de Deus, a unidade precisa do equilíbrio da pluralidade.
Se o enfoque centralizado num obreiro é importante para a unidade da igreja, o pluralismo também o é. De modo nenhum, esse pluralismo desagrega a unidade. Pelo contrário, ele a acrisola, purifica-a e a torna mais forte. É na colaboração de diversidades e até de contrariedades que a unidade final se enriquece. De modo que a unidade sem pluralidade é pobre, não passa pela prova. E, por não passar, Deus mesmo a descarta. Substitui a unidade da uniformidade pela unidade da diversidade, que a natureza e a Bíblia exemplificam.
Essa diversidade precisa ser tão respeitada quanto a unidade que dela resulta. Elas são aspectos da mesma verdade. Toda unidade é, portanto, o âmbito de uma diversidade não apenas real, mas forte e prevalecente. Alguns perguntarão: como a unidade poderá ser alcançada, dando-se espaço para a pluralidade? Devemos, porém, lembrar-nos de que a construção da unidade não obedece a um passo-a-passo definido, nem é produzida pelo braço humano. É, antes, obra de Deus sujeita aos princípios das Escrituras. Se esses princípios estiverem assegurados, não importam os métodos como eles são implementados.
Paulo conclui suas observações em prol do uso do véu, em 1ª aos Coríntios 11:16, afirmando que, se alguém pretendesse ser contencioso e não seguir a sua recomendação, devia saber que os apóstolos e as igrejas de Deus não tinham tal costume. Dessa frase alguns extraem que há costumes comuns às igrejas, o que é óbvio. Que povo não tem costumes? Porém, os costumes a que Paulo se refere não são obrigatórios. Se o fossem, feririam a comunhão não condicionada que deve vigorar nas igrejas. Ou temos costumes obrigatórios, ou temos comunhão.
Os que invocam 1ª aos Coríntios 11:16 em altos brados querem usar os costumes ali mencionados para impor a uniformidade na igreja. Mas o verso não se refere ao cristão que utiliza sua liberdade para não apoiar o uso do véu, por motivo de consciência. Se fosse assim, a recomendação específica de Paulo, no tocante ao véu, entraria em conflito com Romanos 14:3,6, em que ele afirma: “Quem come não despreze ao que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu [...] Quem distingue entre dia e dia, para o Senhor o faz; e quem come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus”. Costumes diferentes são lícitos, quando baseados em convicção.
Não há qualquer evidência de que as igrejas neotestamentárias tivessem práticas com força de condição espiritual para uma comunhão plena. Entre elas, havia considerável liberdade de formas, desde que não pecaminosas, é claro. Nem o acordo no tocante a práticas significava unidade, nem a diversidade de formas era considerada divisão.
Sob esse conceito, unidade é o somatório de todos os diversos, sem exclusão de algum. Uniformidade, por sua vez, é a unidade forçada e apenas de alguns. Um autor conhecido afirmou que o Novo Testamento defende a maior pluralidade de dons, pessoas e tudo o mais, exceto a pluralidade de igrejas (BARTH, Karl. "A igreja e as igrejas". In Dádiva e louvor- artigos selecionados. São Paulo: Sinodal, 1986.p. 207). Assim é, se nenhum dom ou pessoa for excluído. Mas, se houver exclusão, restará a uniformidade.
Os que são contrários a esse ponto de vista lembrarão que Paulo condenou a existência de partidos na igreja em Corinto (1 Co 1:10-13). Dirão, pois, que não só a pluralidade de igrejas é pecaminosa, mas também a pluralidade de grupos na mesma igreja. Ocorre que Paulo não condenou quaisquer grupos. Condenou partidos, ou seja, germes de futuras divisões maiores. Condenar partidos é o mesmo que condenar a pluralidade de igrejas, à qual eles tendem, já que os partidos são o estágio incipiente da pluralidade de igrejas.
Ao mencionar os partidos, portanto, o apóstolo não condenou a pluralidade, mas a doença dela, que ameaçava devorar a unidade. Ele condenou a tentativa da parte de dominar todo o corpo, como um tumor que cresce desordenadamente. Fundamental é tratar elementos plurais, a exemplo de opiniões, como elementos do todo, não como o próprio todo.
Não fazer da parte um todo, dos elementos da pluralidade uma nova unidade é a advertência dirigida a todo cristão. Claro que, se outra pessoa toma aqueles elementos e os usa para criar uma nova unidade, a responsabilidade não é de quem os criou. O inventor do avião não pode ser preso pela utilização de seu engenho para fins bélicos. Nem podem os autores bíblicos ser condenados por heresia, porque hereges usaram as Escrituras para sustentar suas doutrinas.
E, se essa é a unidade bíblica, a implantação prática dela há de ser o caminho para a restauração da igreja. Por muito tempo, temo-nos esforçado para implantar uma unidade férrea e inflexível. Talvez, no início da restauração da igreja, essa estratégia tenha sido necessária. Não se desatola o veículo sem acelerar o motor mais do que é benéfico para ele. Porém, é necessário um redirecionamento para o equilíbrio entre unidade e diversidade, o que não é absolutamente arriscar a unidade.
Se a restauração da nação de Judá, no Velho Testamento, é um tipo da que ocorre na era da igreja, a reconstrução das cidades e vilas, no interior do país, é uma das suas etapas finais. E, se Jerusalém, é o símbolo maior da unidade prática, as cidades e vilas representam a pluralidade. Necessário é, pois, reerguer os centros de pluralidade dentro da unidade. Do contrário, tudo o que nossa unidade expressará será desolação.
Os vários grupos cristãos apresentam condições mediante as quais uma pessoa pode ingressar e transitar neles. Já indicamos que o não pentecostalismo é uma condição adotada por muitas confissões históricas e que o uso exclusivo da Bíblia o é para a Congregação Cristã no Brasil.
A comunhão dos apóstolos, porém, se distingue dessas de cunho particular. É a comunhão na diversidade, sem condições que não sejam o novo nascimento e a fé ortodoxa em questões vitais. Em tudo o mais, a comunhão apostólica é inteiramente aberta. Ninguém pode exigir ou proibir coisa alguma a um cristão exceto isso. O que comer, os costumes a guardar etc. não devem ser matéria de discussão na igreja (Rm 14:1-3,5).
Tanto no Velho como no Novo Testamento, tal princípio de unidade é ratificado exaustivamente. Quando Miriã e Arão erraram, ao se rebelarem contra Moisés, Deus de modo nenhum negou que os dois descontentes fossem também seus porta-vozes. Ainda que houvesse um princípio de sublevação no comportamento deles, o Senhor não negou a pluralidade de ministérios no seu povo. Havia, é certo, um só ministério global no Velho Testamento, como Paulo indica em 2ª aos Coríntios 3:7,9. Nesse ministério, estavam Moisés, Arão, Miriã e todos os demais filhos de Israel, cada qual a exercer a sua função, num quadro geral de harmonia. Mas ali também existiam ministérios, no plural, assim como no Novo Testamento há diversidade de ministérios integrados (1 Co 12:5).
Se o ministério de Moisés tinha a preeminência, uma ampla liberdade permitia que outros também mantivessem trabalhos espirituais. Miriã e Arão possuíam os seus ministérios. Ela era uma profetisa, ele, o Sumo-Sacerdote responsável por ministrar a Deus e ensinar o povo. Todo um campo de particularidades era possível, nessas funções, em harmonia com o ministério mais eminente de Moisés.
Para falar em sonhos e visões aos irmãos de Moisés, Deus não se dirigia primeiro a ele. Tampouco exigia que aqueles, ao receberem uma revelação, a submetessem a Moisés para que autorizasse ou não a sua publicação. As coisas reveladas, pelo simples fato de o serem, pertenciam e ainda pertencem ao domínio público. Deuteronômio 29:29 afirma que elas “pertencem a nós e a nossos filhos para sempre”, não a um homem ou a um ministério particular.
Esse é o princípio pelo qual Deus regia o ministério do Velho Testamento. O próprio Moisés de modo nenhum possuía um espírito exclusivista ou favorável ao seu ministério, em detrimento do que era exercido por outros. Não é pensável que um povo que, havia pouco, se libertara da escravidão e fugira como uma horda tivesse organização tão estrita que as palavras de todos fossem subordinadas à de Moisés. Israel tinha, antes de tudo, de sobreviver no deserto. Não havia condições para ele implantar qualquer coisa parecida com um regime de uniformização de discursos.
Em Números 11, quando o Espírito do Senhor desceu sobre os setenta anciãos designados como cooperadores na tarefa de cuidar do povo, Josué, ajudador de Moisés, sugeriu que este proibisse Eldade e Medade, que pertenciam aos setenta, de profetizar no arraial, enquanto os outros sessenta e oito o faziam em volta da tenda da congregação. Afinal, onde se vira tal dissonância, tal dissintonia?
Ao ainda inexperiente Josué pareceu que a solução para o caso era: “Proíbe-lhes” (Nm 11:28). Moisés, porém, disse-lhe: “Tens tu ciúmes por mim? Oxalá todo o povo do Senhor fosse profeta, que o Senhor lhes desse o seu Espírito” (Nm 11:29). Ainda que o trabalho de Deus seja executado de um modo, por uns, é perfeitamente possível praticá-lo de outro modo. Ainda que alguém profetize na tenda da congregação, é possível profetizar no arraial. Desde que isso se faça pelo Espírito do Senhor...
Este não é o lugar para demonstrações técnicas, mas é possível comprovar, pela Bíblia, que Jó viveu por volta da época de Jacó e seus doze filhos. Temos, pois, em Jó, um autêntico ministro de Deus situado fora da linha dos descendentes de Isaque. Se alguns gostam de enfatizar que o livro de Atos foca Pedro e Paulo, em detrimento dos outros ministros, temos em Jó não alguns versículos, mas um livro bíblico inteiro dedicado a um ministério paralelo aos de Jacó e seus filhos. Tal era a predileção de Deus por Jó que, após Satanás ter dado voltas à terra, não lhe perguntou se observara Jacó ou José, mas: “Observaste o meu servo Jó?” (Jó 1:8;2:3). Ainda que Jó não fosse descendente de Isaque e Jacó, a bênção, a atenção e o mover de Deus estavam também com ele, no tempo dos patriarcas.
Mas isso não é tudo. Pode-se estabelecer também que Sansão e Samuel julgaram Israel no mesmo período. Nunca houve contradição em Deus levantar mais de um juiz sobre Israel, ao mesmo tempo, já que a unidade divina se dá dentro de uma ampla pluralidade.
Essa verdade se encontra por toda a parte, nas Escrituras, assim como um princípio correspondente pode ser encontrado por toda a parte, na natureza. Ao longo da História, Deus a ratifica repetidamente. Após o decreto de Ciro para que os judeus retornassem livremente à sua pátria, Daniel (notem bem: o abençoado Daniel) permaneceu longamente em Babilônia. É o que se depreende dos versos 1 e 4 do capítulo 10 do seu livro. Não será o caso de se perguntar por que ele lá permaneceu, se Deus desejava que o seu povo reconstruísse o Templo, Jerusalém e as outras cidades e aldeias? Por que ele ficou lá, se o culto especial só podia ser prestado no lugar que o Senhor escolheu? Enfim, se Deus havia dito: “Buscareis o lugar que o Senhor vosso Deus escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome, e a sua habitação; e para lá ireis. A esse lugar fareis chegar os vossos holocaustos, e os vossos sacrifícios, e os vossos dízimos, e a oferta das vossas mãos, e as ofertas votivas, e as ofertas voluntárias, e os primogênitos das vossas vacas e das vossas ovelhas” (Dt 16:5-6)?
Se descumprir esse mandamento era pecado, o próprio Deus foi cúmplice de Daniel, pois confirmou a permanência dele em Babilônia, concedendo-lhe visões. Mas não há pecado algum. Simplesmente, o mover de Deus é tão elevado que não se sujeita a obrigações formais e estritas. O povo voltava para a pátria, Daniel permanecia em Babilônia, e nessas duas coisas estava o mover de Deus.
Vejamos, porém, casos do Novo Testamento. João batizava em Enom, e o Senhor, do outro lado do Jordão (Jo 3:22-23), sem qualquer desarmonia ou emulação. Acaso aquele que repreendeu energicamente os seus discípulos, os fariseus, os herodianos, o próprio Herodes e os pecadores, quando erraram, não teria repreendido João Batista, se este houvesse estabelecido um ministério concorrente com o de Jesus? Mas Jesus não o repreendeu. Antes louvou-o, quando os discípulos daquele ministro o interpelaram.
Se a obra paralela fosse um desvio, quando os discípulos de João procuraram Jesus, por que ele não mostrou o erro de João? Por que, ao contrário, chamou-o maior de todos os nascidos de mulher até o fim da era dos profetas (Mt 11:11,13)? Como podia um desviado ser maior do que Abraão, Moisés, Davi, Isaías, Jeremias e Daniel? O Senhor situou todo o trabalho ministerial de João, inclusive o período em que ele transcorreu paralelamente ao de Jesus, na era da lei e dos profetas, antes do reino dos céus. A questão é como um ministro decaído e desviante pode ter sido posto acima dos de todos os profetas?
É fora de dúvida que João se equivocou, mas há modos e modos de se equivocar. O erro de João Batista não foi grave ou culposo. Atos é inequívoco ao indicar que o discipulado mencionado pelo Senhor, em Mateus 28:19, era o de Cristo e de mais ninguém. Na igreja primitiva, sob orientação do Espírito Santo, levantaram-se muitos discípulos, mas não vemos alguém ser chamado discípulo de um ministro que não seja Cristo. Só em relação a Paulo, e ainda assim como um reflexo de sua posição passada no judaísmo, mencionam-se discípulos (At 9:25).
No entanto, nem João, nem Paulo perderam-se por terem mantido discípulos, já que ter discípulos não é, em si, errado ou proibido. Em Israel, ter discípulos não significava mais que ser mestre. E a igreja sempre teve mestres (At 13:1-2; Ef 4:11). O Velho Testamento também fala em moços seguidores de Moisés, de Elias e outros. Não se trata de justificar quem quer que seja, mas de contextualizar os fatos que nos cabe julgar.
João viveu num período de transição. Isso significa que Israel passava da época em que os profetas haviam tido seguidores, e os mestres, discípulos, para uma era em que todos seriam ensinados por Deus. Nada mais cabível que, num tempo de transição, a passagem de um a outro desses quadros se dar gradativamente.
Quando João batizava em Enom, sua obra era paralela à de Cristo, mas dava testemunho dele. É o que João 3:26 nos informa: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando”. "Do qual tens dado testemunho"! João continuava a prestar o seu testemunho de Cristo. E não só isso. Ele também formava discípulos para fazerem o mesmo, pois declarou: “Vós sois testemunhas". Testemunhas de quê? Ele mesmo esclareceu: "testemunhas de que vos disse: eu não sou o Cristo, mas fui enviado como seu precursor. O que tem a noiva é o noivo [Jesus]; o amigo do noivo [João] que está presente e o ouve, muito se regozija por causa da voz do noivo. Pois esta alegria já se cumpriu em mim. Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3:28-30).
Meu objetivo não é minimizar os erros de João. Mas é preciso definir claramente esses erros. Digamos que João tenha errado gravemente: ainda assim, seu erro não invalida o princípio das obras paralelas, seguido corretamente por Jó, Daniel e tantos outros. A verdade bíblica não é assim tão miserável que possa ser abalada pelo erro de um homem.
Quando seus discípulos vieram relatar-lhe o “sucesso” de Jesus além do Jordão, João respondeu-lhes: “O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (Jo 3:27)! Ninguém angaria coisa alguma boa, se os céus não lhe dispensarem. Cada qual faz o que os céus lhe dão. Se alguém faz muito, sem iludir, é porque Deus lhe deu muito; se outro faz mais, é porque Deus lhe concedeu mais; e se o Cristo faz tudo, é porque lhe tem sido dado tudo! Os céus tudo decidem.
Não há por que brigar ou proibir, zangar-se ou boicotar. Deus deixa caminho aberto a todos os ministérios, a fim de que o que é bom floresça, o que é melhor floresça mais e o que é melhor do que tudo imponha-se sobre todos. Essa é a obra do Novo Testamento. Assim surgiu o evangelho e por nenhum outro método.
O próprio Senhor ordenou a seus discípulos que não proibissem a obra de quem não seguia com eles: “Falou João [Zebedeu] e disse: Mestre, vimos certo homem que em seu nome expelia demônios, e lho proibimos, porque não segue conosco. Mas Jesus lhe disse: Não proibais; pois quem não é contra vós outros, é por vós” (Lc 9:49-50). Nessa passagem, a razão dada para a não proibição de modo nenhum foi negativa. Jesus não negou que ele ou os apóstolos por ordem dele tivessem jurisdição para proibir. Algo mais forte foi dito: Jesus declarou que o obreiro que atuava paralelamente e fora repreendido pelos discípulos estava em harmonia com eles. Portanto, o trabalho do obreiro não só devia ser tolerado como ele tinha o mesmo direito dos apóstolos de ministrar.
Quem tem algo a dizer, diga-o. Quem não tem, cale-se e ouça. Não é o que Paulo recomenda aos coríntios praticarem em suas reuniões públicas (1 Co 14:27-30)? Ampliemos esse princípio absolutamente, e teremos o Novo Testamento. Mas, por falar em Paulo, ele não nos relata que, após a sua conversão, não consultou carne e sangue para iniciar o seu ministério? Não trabalhou paralelamente aos apóstolos, em Damasco e depois na Arábia? E não o fez sem consultar quem quer que se possa chamar carne e sangue (Gl 1:16-18)? Como se não bastasse, não citou ele tal fato para justificar uma radical liberdade em Gálatas? Se Paulo o citou, devemos tê-lo não só como possível, mas como um modelo.
Acaso Cefas, de Jerusalém, Paulo, de Antioquia, e Apolo, de Alexandria, não estiveram todos em Corinto? Não foram todos apóstolos para os coríntios? Eis um lindo e harmonioso exemplo. Embora Corinto fosse a região de labores especiais de Paulo, como os outros apóstolos apressaram-se a reconhecer (Gl 2:9), Jerusalém não pediu autorização para mandar um apóstolo ali. Claro que, cedo ou tarde, uma coordenação ia ser necessária, mas a obra de Deus se dá num contexto de fundamental pluralismo.
Que dizer, então, de Barnabé, Apolo e outros, que não seguiram física ou doutrinariamente a Paulo? Barnabé desentendeu-se com Paulo e se separou dele (At 15:39), e Apolo de modo nenhum atendeu um pedido dele sobre o trabalho missionário de ambos (1 Co 16:12). Claro que isso não precisa ser tomado como exemplo ou paradigma, mas, se houve ali algum erro, tampouco precisamos aumentá-lo ou considerá-lo algo que não pudesse ser removido, um minuto depois, pela confissão.
Se Paulo obteve supremacia no ministério, como Moisés antes dele, foi devido à graça superior que recebeu e que, pouco a pouco, desabrochou. E se Barnabé e Apolo tiveram alguma desvantagem, proveio também daí, não de terem trabalhado paralelamente.
Por toda parte, vemos a mesma coisa. Deus nunca proibiu, pelo contrário incentivou e fomentou fortemente os trabalhos ministeriais paralelos. Desses fatos, devemos extrair que o trabalho paralelo é um verdadeiro princípio bíblico e, como tal, é obrigatório. Deve existir. O que não se deve é confundir o trabalho paralelo (o princípio) com os erros eventuais dos ministros de Deus.
Estêvão foi muito além da incumbência para a qual fora designado, em Atos 6. Ele passou do serviço às mesas à discussão pública com os judeus. E, ao fazê-lo, não repetiu o ensino de Pedro e dos onze, mas tratou de outras revelações com o mesmo objetivo deles: pregar a salvação de Cristo. Essa atitude de Estêvão desencadeou uma cruenta perseguição. Claro: quem olhasse tal quadro com espírito autoritário diria que ali não estava somente um desvio ministerial, mas a devida punição a ele! Olhemos, porém, atentamente, para Atos, e veremos em Estêvão o que é um homem identificar-se plenamente com Cristo, o que é um homem ter rosto como de anjo (At 6:15) e subjugar as trevas com luz indizivelmente clara.
Não está aí um quadro de inegável pluralismo? E não podemos concluir, desses fatos, que a obra cristã primitiva desenvolvia-se em tal pluralismo? Nem mesmo o ministro confirmado por Deus com uma sabedoria superior à de todos os demais era encarregado da obra em toda a Terra. Paulo reconhecia claramente a sua “esfera de ação”. Foi essa a expressão que ele utilizou em 2ª aos Coríntios 10:13: “Nós, porém, não nos gloriaremos sem medida, mas respeitamos o limite da esfera de ação que Deus nos demarcou e que se estende até vós”. Não há ministro algum cuja seara seja ilimitada.
Lembremo-nos também de que a seara de Paulo sequer cabia exclusivamente a ele. Pelo contrário, Paulo disse que Apolo regou o que ele plantara. Disse mais que o mistério do crescimento não veio dele, nem de Apolo, mas diretamente de Deus (1 Co 3:6). Portanto, Paulo dividiu sua seara com Apolo, como a dividira antes com Barnabé. Ninguém é designado sozinho para a obra em toda a Terra para a obra numa região qualquer. Não é pouco importante lembrar que ser designado com outro, aqui, não é o mesmo que ser acompanhado de um escravo ministerial.
Vemos, em tudo, que a unidade cristã é plural. Assim é no Velho e no Novo Testamento. Não é de outro modo na História da Igreja, em particular na época dos pais que sucederam os apóstolos e transmitiram o seu ensinamento. Cipriano foi um deles. Sabemos que opôs-se à intenção de Estêvão de Roma de impor a sua convicção a todas as igrejas do orbe sobre o batismo dos hereges. Convocando um concílio, na sua região, para decidir o assunto, Cipriano recomendou aos bispos que expressassem livremente o seu sentimento sobre o assunto. É comum ver-se, nesse seu gesto, decidida oposição às pretensões demasiadas do bispado romano.
Ireneu, por sua vez, afirmou, no século II, que a dissonância no jejum não dissolve a consonância na fé. E Gregório de Roma declarou que a divergência sobre determinados assuntos não fere a unidade da igreja.
Poderíamos dar outros exemplos, tanto da época dos pais como posteriores. Não o faremos para não nos tornarmos cansativos. O importante, o digno de realce, é a virtual unanimidade, o amplo acordo dos pais sobre o tema. Não creio que eles teriam chegado a esse consenso, se uma prática oposta houvesse criado raízes na época dos apóstolos. Pelo contrário, se esse tivesse sido o caso, os ramos nascidos das raízes teriam sido observados e testemunhados por eles.
Nem uma testemunha externa, um governante como Plínio, o Moço, na epístola que dirigiu ao Imperador Trajano sobre os cristãos, apontou qualquer prática desviante dessas. Plínio descreveu a vida cristã primitiva de modo tão simples que parece incompatível com a hierarquia e o controle.
Se em certas épocas um obreiro se torna digno de maior destaque, como José entre os doze patriarcas e Paulo a seu tempo, devemos lembrar-nos de que toda grande verdade de Deus tem o seu outro lado. Do contrário, não seria grande. Sem o seu outro lado, verdade entra em desequilíbrio. No caso da obra de Deus, a unidade precisa do equilíbrio da pluralidade.
Se o enfoque centralizado num obreiro é importante para a unidade da igreja, o pluralismo também o é. De modo nenhum, esse pluralismo desagrega a unidade. Pelo contrário, ele a acrisola, purifica-a e a torna mais forte. É na colaboração de diversidades e até de contrariedades que a unidade final se enriquece. De modo que a unidade sem pluralidade é pobre, não passa pela prova. E, por não passar, Deus mesmo a descarta. Substitui a unidade da uniformidade pela unidade da diversidade, que a natureza e a Bíblia exemplificam.
Essa diversidade precisa ser tão respeitada quanto a unidade que dela resulta. Elas são aspectos da mesma verdade. Toda unidade é, portanto, o âmbito de uma diversidade não apenas real, mas forte e prevalecente. Alguns perguntarão: como a unidade poderá ser alcançada, dando-se espaço para a pluralidade? Devemos, porém, lembrar-nos de que a construção da unidade não obedece a um passo-a-passo definido, nem é produzida pelo braço humano. É, antes, obra de Deus sujeita aos princípios das Escrituras. Se esses princípios estiverem assegurados, não importam os métodos como eles são implementados.
Paulo conclui suas observações em prol do uso do véu, em 1ª aos Coríntios 11:16, afirmando que, se alguém pretendesse ser contencioso e não seguir a sua recomendação, devia saber que os apóstolos e as igrejas de Deus não tinham tal costume. Dessa frase alguns extraem que há costumes comuns às igrejas, o que é óbvio. Que povo não tem costumes? Porém, os costumes a que Paulo se refere não são obrigatórios. Se o fossem, feririam a comunhão não condicionada que deve vigorar nas igrejas. Ou temos costumes obrigatórios, ou temos comunhão.
Os que invocam 1ª aos Coríntios 11:16 em altos brados querem usar os costumes ali mencionados para impor a uniformidade na igreja. Mas o verso não se refere ao cristão que utiliza sua liberdade para não apoiar o uso do véu, por motivo de consciência. Se fosse assim, a recomendação específica de Paulo, no tocante ao véu, entraria em conflito com Romanos 14:3,6, em que ele afirma: “Quem come não despreze ao que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu [...] Quem distingue entre dia e dia, para o Senhor o faz; e quem come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus”. Costumes diferentes são lícitos, quando baseados em convicção.
Não há qualquer evidência de que as igrejas neotestamentárias tivessem práticas com força de condição espiritual para uma comunhão plena. Entre elas, havia considerável liberdade de formas, desde que não pecaminosas, é claro. Nem o acordo no tocante a práticas significava unidade, nem a diversidade de formas era considerada divisão.
Sob esse conceito, unidade é o somatório de todos os diversos, sem exclusão de algum. Uniformidade, por sua vez, é a unidade forçada e apenas de alguns. Um autor conhecido afirmou que o Novo Testamento defende a maior pluralidade de dons, pessoas e tudo o mais, exceto a pluralidade de igrejas (BARTH, Karl. "A igreja e as igrejas". In Dádiva e louvor- artigos selecionados. São Paulo: Sinodal, 1986.p. 207). Assim é, se nenhum dom ou pessoa for excluído. Mas, se houver exclusão, restará a uniformidade.
Os que são contrários a esse ponto de vista lembrarão que Paulo condenou a existência de partidos na igreja em Corinto (1 Co 1:10-13). Dirão, pois, que não só a pluralidade de igrejas é pecaminosa, mas também a pluralidade de grupos na mesma igreja. Ocorre que Paulo não condenou quaisquer grupos. Condenou partidos, ou seja, germes de futuras divisões maiores. Condenar partidos é o mesmo que condenar a pluralidade de igrejas, à qual eles tendem, já que os partidos são o estágio incipiente da pluralidade de igrejas.
Ao mencionar os partidos, portanto, o apóstolo não condenou a pluralidade, mas a doença dela, que ameaçava devorar a unidade. Ele condenou a tentativa da parte de dominar todo o corpo, como um tumor que cresce desordenadamente. Fundamental é tratar elementos plurais, a exemplo de opiniões, como elementos do todo, não como o próprio todo.
Não fazer da parte um todo, dos elementos da pluralidade uma nova unidade é a advertência dirigida a todo cristão. Claro que, se outra pessoa toma aqueles elementos e os usa para criar uma nova unidade, a responsabilidade não é de quem os criou. O inventor do avião não pode ser preso pela utilização de seu engenho para fins bélicos. Nem podem os autores bíblicos ser condenados por heresia, porque hereges usaram as Escrituras para sustentar suas doutrinas.
E, se essa é a unidade bíblica, a implantação prática dela há de ser o caminho para a restauração da igreja. Por muito tempo, temo-nos esforçado para implantar uma unidade férrea e inflexível. Talvez, no início da restauração da igreja, essa estratégia tenha sido necessária. Não se desatola o veículo sem acelerar o motor mais do que é benéfico para ele. Porém, é necessário um redirecionamento para o equilíbrio entre unidade e diversidade, o que não é absolutamente arriscar a unidade.
Se a restauração da nação de Judá, no Velho Testamento, é um tipo da que ocorre na era da igreja, a reconstrução das cidades e vilas, no interior do país, é uma das suas etapas finais. E, se Jerusalém, é o símbolo maior da unidade prática, as cidades e vilas representam a pluralidade. Necessário é, pois, reerguer os centros de pluralidade dentro da unidade. Do contrário, tudo o que nossa unidade expressará será desolação.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Livre Exame de Romanos (10): Imputação ou Infusão?
A Igreja Católica adota a doutrina da justificação forjada por São Tomás de Aquino, para quem “todo mérito é contrário à graça, como o Apóstolo afirma: Se é pela graça, já não é pelas obras (Rm 11:6)". Porém, para Aquino, essa limitação ao mérito opera somente "antes de o homem se colocar sob a graça [...] pois o termo [final] da salvação é a vida eterna, e o progresso nesse caminho é o aumento da caridade ou da graça, em conformidade com Provérbios 4:18: A vereda do justo é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais, até ser dia perfeito. Portanto, o aumento da graça inclui o mérito” (AQUINO, São Tomás de. Summa theologica. In "Great books of the western world". Vol. 18. II, 114, 5. p. 374, 376).
Esse ensinamento de Tomás não se ajusta ao de Paulo de maneira perfeita. Para o apóstolo, a imputação exclui totalmente o mérito e não apenas antes da conversão. Imputação e mérito são termos antagônicos e, como a justiça é sempre imputada, o mérito nunca a introduz. Isso não quer dizer que a vida humana não envolva uma cadeia de atos meritórios e não meritórios. Ela o faz e é por isso que a Bíblia nos fala de recompensas e punições. Porém, a cadeia do mérito é paralela à da graça, não faz parte dela, pois a imputação exclui o mérito, tanto antes quanto depois da primeira graça.
Num blog católico, encontro a seguinte crítica à doutrina protestante da justificação: “Para os protestantes, a justificação é imputação de justiça. Ou seja, o homem não é justo, e nunca o será, mas (creiam-me ou não) Deus finge que ele é. Ou seja, pela doutrina protestante, Deus como que nos diria: "sei que não sois justos, sei que não tendes boas obras, mas finjo que sois aquilo e que tendes estas" [...] Por que cargas d'água um protestante prefere acreditar nesta 'pantomina divina' do que crer, serenamente, que Deus é poderoso para fazer de nós homens cada dia mais próximos da perfeição?” (www.veritatis.com.br).
Essa é uma caricatura do que os evangélicos realmente sustentam. Para eles, Deus imputa os pecados do homem a Cristo, não finge que eles não são pecados. Imputa, também e inversamente, a justiça de Cristo ao homem. É o que nos diz Paulo: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21). A explicação da doutrina de Paulo, que acabo de mencionar, é de R. C. Sproul.
Observo, com consternação, a polêmica contra Sproul, em que o Living Stream Ministry (agora Ministries?) se engajou nos Estados Unidos. Vivi sob esse ministério, muitos anos. Aceito a legitimidade do seu empenho em levar os ensinos de Witness Lee ao meio evangélico. Por isso também, compreendo os motivos que levaram o Christian Research Institute a se retratar da acusação de heresia feita a Lee no passado, ao publicar um número inteiro da sua revista sobre esse tema, com o título “We were wrong” (Christian Research Journal. Vol. 32, nº 6, 2009). Mas as críticas do LSM a Sproul revelam uma radicalização doutrinária perigosa.
Cá no Brasil, nunca discutimos os erros fundamentais de Lee, a não ser superficialmente. Os norteamericanos mostraram-se muito mais bereanos que nós. Discutiram e até hoje discutem, em profundidade, a teologia de Lee. Ao ler os seus debates, porém, encontro nos teólogos prontos a condená-lo, certa incompreensão da personalidade de Lee. Não que a instância doutrinária não se revista de autonomia, mas a compreensão da vida da pessoa ajuda a entender a formação da sua doutrina.
Digo-o como quem, simplesmente, manifesta a sua opinião. E olhem que não ignoro os escritos de Lee. Sou dado à leitura, mas devo dizer que, por muito que tenha lido tantos autores, li mais Witness Lee do que todos eles. Isso porque, com paixão própria da pouca idade, submeti-me a um rigoroso treinamento na teologia dele, que transcendeu o que era exigido nos cursos oficiais do Living Stream. Mas li-o tanto também por encontrar em Lee uma inteligência criativa e uma paixão pela vida interior com Cristo que me atraíram fortemente.
A criatividade é um traço da personalidade desse teólogo chinês. Um traço que, talvez, o tivesse feito um intelectual bem-sucedido em outros campos, caso tivesse dedicado a eles a sua existência. Mas Lee dedicou-se à Teologia, embora não gostasse de utilizar essa palavra e, ainda menos, o termo religião (basta lembrar Christ versus religion)! Infelizmente, na Teologia, os terrenos estão minados para a criatividade, e os espíritos, armados contra ela. O preço da criatividade foi cobrado a Lee em incompreensões. Por isso acolho com boa vontade a palavra final favorável do Instituto de Pesquisa Cristã sobre ele.
Mas não a tomo como definitiva. Vivi o bastante para aprender que a heresia é um perigo real. Estou a afirmar que Lee foi herético? Não, pois sinceramente o que aprendi sobre ele não me parece suficiente para fechar tal juízo. Entendo que Lee ande perto do que, em geral, se entende por heresia, no meio protestante. Mas Paulo e os primeiros cristãos não tinham semelhante conceito do desvio herético. Num meio que admitia variações doutrinárias tão amplas quanto as que vigoravam entre os fariseus, os saduceus, os zelotes e os essênios, sem mencionar as subcorrentes desses grupos e as seitas menores, heresia era mais o isolamento de uma facção em torno de uma doutrina absurda do que diferenças na interpretação das Escrituras.
Por isso achamos tanta liberdade de falar, por exemplo, em Paulo. Nada encontramos, no primeiro século, que se pareça com a defesa da imputação que ele nos legou, nessa página imortal que é Romanos 4. Paulo verdadeiramente afirmou algo novo e chocante na sua época. E só o fez, porque sentiu liberdade para isso. Uma liberdade dupla, aliás: liberdade interior decorrente da fé e exterior por causa da relativa aceitação da diversidade doutrinária no meio em que ele vivia.
Mas, se a criatividade é um traço da personalidade de Lee, não posso afirmar o mesmo da ênfase que depositava na vida interior. A vida com Deus não é própria da personalidade de alguém. É antes um dom. E pode tornar-se (no caso de Lee, tornou-se) um dom muito desenvolvido e notável.
Disse que, no Brasil, nunca nos ocupamos dos erros fundamentais de Lee. Mas tal era a atenção que alguns (muitos) de nós dispensavam aos seus ensinamentos que, se tivessem caráter tão nocivo quanto o que os críticos americanos lhes atribuem, dificilmente teriam passado assim tão in albis para tanta gente. Tínhamos um ambiente parcamente bereano, é verdade, mas não almas pouco bereanas. Individualmente, líamos Lee com atenção. Se estávamos condicionados a concordar com ele, também devotávamos aos seus escritos e pregações uma atenção que duvido se reproduza na maior parte dos teólogos que o estudaram. E acho espantoso que, lendo-o e escutando-o dessa maneira, jamais tenhamos chegado ao fio das condenações que se pronunciaram a respeito dele. Suspeito que não o tenhamos feito, não porque não entendêssemos o que se passava, mas porque entendíamos melhor a sua personalidade e a diretriz fundamental da sua vida, que foi a experiência interior com Cristo.
Porém, assim como as grandes virtudes, os erros de Lee também emanaram das características da criatividade e da vida interior que tanto o distinguem. Foram antes de tudo excessos cometidos nessas linhas. A partir de certo momento e não sem ser insuflado por seguidores diretos, Lee se tornou um novidadeiro. A invenção de palavras novas e a afirmação de doutrinas críticas foram levadas tão longe, por ele, que originaram rematados absurdos. Muitos desses absurdos são dogmaticamente irrelevantes, mas alguns não o são. E, no clima de louvação santa (como se tal disparate fosse possível) que se instalou, em torno dele, Lee passou a revelar uma disposição cada vez menor a aprender com os outros.
A paixão pela vida interior, por sua vez, levou Lee a desenvolver uma justificação teológica dela, em flagrante conflito com a doutrina da imputação. Nesse ponto particular, ele se aproximou inconscientemente da doutrina católica da infusão gradual de justiça não simplesmente a partir de fora, mas no interior do crente. Tudo de forma bastante incomum, já que Lee não abominava menos (nem mais) os erros católicos do que os setores protestantes fundamentalistas.
Para aquilatar bem isso, ouçamos o que o blog católico já mencionado assevera sobre a justificação: “Uma vez que eles [os protestantes] creem no sola fide veem-se obrigados a garimpar uma doutrina da justificação que dispense as boas obras. Em outras palavras [...] uma justificação que lhes seja externa. Uma justificação que não tenha, no fundo, e no frigir dos ovos, nada a ver com o crente” (www.veritatis.com.br).
O texto ataca a justificação pela fé, para defender a doutrina católica da infusão da justiça mediante as obras, os sacramentos etc. Lee sustentou coisa semelhante, em busca de uma justificação teológica para a sua proposta de espiritualidade. Para ele, a vida de Cristo é infundida no crente, gradativamente, ao longo de toda a sua vida. Nisso consiste a salvação para Lee e não só num procedimento de imputação.
É o que se costuma exprimir como uma salvação com aspectos complementares, um deles judicial, outro orgânico ou de infusão de vida.
A busca do meio-termo entre correntes opostas, que se digladiaram sem composição na História, é comum em Witness Lee. Mas, quase nunca, é bem-sucedida. É o caso da doutrina da infusão defendida por ele, que tanto depende da sua proposta de espiritualidade e, por isso, precisa ser analisada à luz dela. No que tem de mais proveitoso, a espiritualidade de Lee é haurida de uma série de místicos cristãos da História. A maior parte, a exemplo de Madame Guyon e Father Fenèlon, pertenceu à Igreja Católica. Escritores protestantes como William Law e Andrew Murray, em que Lee também se inspirou, embora ligados a uma espiritualidade viva e intensa, talvez não mereçam o enquadramento simples de místicos.
Pode-se questionar, também, em que medida Lee absorveu sua proposta de espiritualidade de Watchman Nee. Não há dúvida de que ele inspirou-se muito nesse pregador chinês, mas o ímpeto inovador que sempre demonstrou levou-o a transcender até as crenças e práticas místicas de sua principal fonte de inspiração. Somos, pois, levados a concluir que a espiritualidade proposta por Lee não é de cepa católica, nem protestante. Tampouco é exatamente a de Watchman Nee. É uma espiritualidade singularíssima. Característica ressaltada dela é ter-se tornado radical, não como experiência individual, mas coletiva. A mística de Lee é, a meu ver, com efeito, uma prática coletiva, uma prática de reuniões. Com o desenvolvimento de tecnologias de última geração, tem-se tornado, também e estranhamente, uma prática virtual.
O tratamento de uma espiritualidade tão peculiar não cabe nos limites deste texto dedicado à justificação. Não tentarei, pois, realizá-lo. Basta-me assinalar o traço extremado dela e da doutrina da infusão plasmada a fim de justificá-la. Só na aparência, a doutrina de Lee é um meio-termo. No fundo e em verdade, ela é uma radicalização malsucedida.
A inteira questão gira em torno da ideia de filiação defendida por Lee. Numa tentativa de refutar o número “We were wrong”, do periódico CRI, o teólogo Brandon Adams selecionou as seguintes passagens de escritos de Lee e do LSM sobre o tema: “Toda vida produz descendência segundo a sua espécie (Gn 1:11,21,24). Como filhos de nosso pai físico, temos a vida e a natureza de nosso pai, mas não somos a mesma pessoa que ele. Um avô, um pai e um filho têm todos a mesma vida e natureza, mas são diferentes pessoas. Em vida e natureza, eles são o mesmo, mas em pessoa são diferentes. Como filhos de Deus (Rm 8:16; 1 Jo 3:1), fomos deificados, não em pessoa, mas em vida e natureza (The experience and growth in life. pp. 209-210)”.
Num outro texto, o Living Stream volta suas baterias contra Sproul: “Ele [Sproul] escreve que ‘Jesus é o único Filho natural de Deus. Todos os outros entram na sua família pela adoção’. Tal afirmativa contradiz diretamente a revelação das Sagradas Escrituras, que nos dizem em termos inequívocos que nós, crentes, nascemos de Deus e consequentemente somos sua prole real (Sproul’s saved from what?)” (ADAMS, Brandon. "The false gospel of Witness Lee and the Living Stream Ministries”. Disponível em www.contrast2.wordpress.com/2010/09/25).
Esse é um erro de Lee, mas um erro que se comete no mister de interpretar um ensino bastante complexo, com vertentes literais e simbólicas que se interpenetram: o do novo nascimento e da nova vida em Cristo. Sproul interpreta o novo nascimento, à luz da imputação. Conclui que Deus nos imputa a condição de filhos, o que equivale a adotar-nos. Em seu apoio, está a evidência léxica de que huiostesía, termo grego traduzido adoção em nossas Bíblias, era correntemente usado nesse sentido, no primeiro século. Lee argumenta que o termo inclui o radical huiós (filho). Aí tropeça, pois a tradução de uma palavra não é igual à da soma de seus elementos. Átomo vem de elementos que significam não e partes. Se o princípio hermenêutico de Lee estivesse correto, a palavra deveria ser traduzida “coisa sem partes” ou indivisível, mas continuou a ser empregada da mesma maneira, depois que o átomo foi fracionado. Não pode, assim, indicar algo indivisível, pelo mesmo motivo por que a presença do radical filho em huiostesía não infiltra no termo o significado de filiação natural.
No fundo, a ideia de filiação de Lee é uma reductio ad absurdum (redução ao absurdo) da mística. É válido a alma crer-se mesclada e em koinonía com Deus. 2ª de Pedro 1:4 chega a afirmar que somos participantes (comungantes, no original) da natureza de Deus. Mas o contexto do verso explicita que seu autor referia-se à participação que decorre do ato de entender algo. Não de entender a natureza de Deus, é claro, mas de entender as promessas divinas. Os antigos achavam que entender era participar da ideia do que é pensado. Para muitos, isso era o mesmo que participar desse ser. Difícil é extrair a palavra participantes desse contexto filológico e cultural para lhe atribuir interpretação apropriada a experiências místicas. Mas foi exatamente o que Lee realizou.
E o que se diz da filiação vale, em linhas gerais, também para o nascer de novo, o ser nova criatura etc. Esses termos foram empregados como metáforas, por Jesus e por Paulo, ambos mestres da linguagem simbólica. Porém, todas as vezes em que a entrada na família de Deus é abordada em termos literais, na Bíblia, a palavra adoção e equivalentes são utilizados. É o caso de João 1:12: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que creem no seu nome”. Um poder de ser feito não é um nascimento literal. É, antes, uma imputação.
Acresce que, assim como exclui o mérito, a imputação também exclui a regeneração literal, pois imputar é atribuir um significado para criar uma relação nova. A condição de filhos de Deus é-nos imputada, a fim de inaugurar um novo tipo de relação entre nós e Deus. Essa relação é tão forte que é descrita pela metáfora do novo nascimento. Mas, com ampla ajuda do termo huiostesía, ela foi sempre entendida, pelos primeiros cristãos, como adoção. É o que consta em toda a literatura patrística.
A esse esclarecimento, haverá quem alegue o que lemos na continuação de João 1:12: "os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". Se desejamos extrair do verso um nascimento de Deus, fazemos bem. Mas é preciso atentar para o alcance de vistas que o autor sagrado tinha, ao escrever João 1:12. Antes de afirmar que nascemos de Deus, ele considerou três espécies de geração: do sangue, da vontade da carne e da vontade do homem. Sabemos o que é geração do sangue, mas às vezes passamos por alto a geração da vontade, que o autor do Evangelho claramente considerou. Ora, nascer da vontade é experimentar um nascimento psíquico, não físico. Esse é um ponto importante, pois não há garantia alguma de que o nascimento de Deus mencionado no verso não seja também psíquico. Parece-me que é um nascimento da vontade de Deus, pois se deve à sua decisão de nos imputar a condição de filhos. Os membros das Igrejas Locais têm dificuldade de admitir isso, pois separam radicalmente o espírito da mente do homem e localizam o novo nascimento no primeiro. Mas não é isso que Paulo faz, em Romanos. Pelo contrário, vemos, nos capítulos 6 a 8 da epístola, que ele coloca a mente no centro do processo de salvação e da própria regeneração. No que não diverge do pensamento cristão da época.
Não constitui boa prática, na verdade é bastante perigoso, qualquer teólogo alterar uma interpretação sobre o ser de Deus ou a salvação que tenha sido selecionada por muitas gerações de cristãos. Não é certamente impossível, mas improvável que isso possa ser feito com sucesso. A ideia de filiação por adoção é muito antiga entre os cristãos. No século IV, Hilário de Poitiers escreveu dos hereges que negavam a divindade de Cristo: "Afirmam estar [Cristo], como nós, submetido a Deus criador e ser Filho por adoção" (POITIERS, Hilário de. Tratado sobre a Santíssima Trindade. São Paulo: Paulus, 2005. p. 48). Nessa passagem, Hilário admite que a interpretação de que somos filhos adotivos de Deus era corrente entre os cristãos e não herética.
A vida e a natureza de Deus são incomunicáveis. Se as possuíssemos, teríamos as propriedades consequentes delas, assim como a onisciência, a onipotência e a onipresença, mas estamos infinitamente longe disso. A fé cristã não veio ao mundo para ampliar a incompreensão do real por absurdos tão rematados. Veio para aumentar a compreensão da vida, a posse da verdade pelo homem, e desse modo foi entendida, nos primeiros séculos. Esse é também o estado em que o Novo Testamento deixa a questão da nossa relação com Deus.
Se pensasse que nascemos literalmente de Deus, acaso Paulo teria posto tanta ênfase na imputação e mencionado essa ideia nove vezes, só no capítulo 4 de Romanos? Não teria antes se dedicado a mostrar as glórias de possuirmos os atributos inerentes à vida e à natureza de Deus? Notemos a ausência de qualquer ensino claro e não metafórico, a esse respeito, em Romanos. E saibamos concluir dela que não era intenção do apóstolo transmitir tal ensino.
Sei que as pessoas gostam de decisões do tipo herético ou não herético. Querem posições peremptórias. Mas esse gosto dogmático nem sempre pode ser satisfeito. Não havia tal dogmatismo no primeiro século. Como podemos atribuir às doutrinas dos cristãos daquela época o que nem eles próprios colocavam nelas?
O dogma veio bem depois das cartas de Paulo, do Evangelho de João e dos livros neotestamentários de modo geral. O que não significa que não tenha grande importância, como cristalização histórica. Mas um é o poder do indivíduo; outro, o das gerações. O indivíduo pode ter convicções, mas não lhe cabe fechar julgamentos sobre questões que estão além de seu poder. Quem sou eu para dizer que João se interpreta assim e Romanos de tal outro modo? Digo o que sinto e aprendi sobre João e Romanos, apenas isso. O mais as gerações construirão, pois a elas incumbe tal tarefa.
As gerações estão acima de nós, como a nuvem de testemunhas de Hebreus 12:1. Porém, as Escrituras estão acima das gerações. Os dogmas brotaram do chão da História; as Escrituras surgiram de um lugar situado fora dela. Surgiram do alto. Por isso, para interpretá-las, o indivíduo deve saber onde tem o seu nariz. Mas tem também o direito sagrado de proceder como indivíduo livre.
Esse ensinamento de Tomás não se ajusta ao de Paulo de maneira perfeita. Para o apóstolo, a imputação exclui totalmente o mérito e não apenas antes da conversão. Imputação e mérito são termos antagônicos e, como a justiça é sempre imputada, o mérito nunca a introduz. Isso não quer dizer que a vida humana não envolva uma cadeia de atos meritórios e não meritórios. Ela o faz e é por isso que a Bíblia nos fala de recompensas e punições. Porém, a cadeia do mérito é paralela à da graça, não faz parte dela, pois a imputação exclui o mérito, tanto antes quanto depois da primeira graça.
Num blog católico, encontro a seguinte crítica à doutrina protestante da justificação: “Para os protestantes, a justificação é imputação de justiça. Ou seja, o homem não é justo, e nunca o será, mas (creiam-me ou não) Deus finge que ele é. Ou seja, pela doutrina protestante, Deus como que nos diria: "sei que não sois justos, sei que não tendes boas obras, mas finjo que sois aquilo e que tendes estas" [...] Por que cargas d'água um protestante prefere acreditar nesta 'pantomina divina' do que crer, serenamente, que Deus é poderoso para fazer de nós homens cada dia mais próximos da perfeição?” (www.veritatis.com.br).
Essa é uma caricatura do que os evangélicos realmente sustentam. Para eles, Deus imputa os pecados do homem a Cristo, não finge que eles não são pecados. Imputa, também e inversamente, a justiça de Cristo ao homem. É o que nos diz Paulo: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus” (2 Co 5:21). A explicação da doutrina de Paulo, que acabo de mencionar, é de R. C. Sproul.
Observo, com consternação, a polêmica contra Sproul, em que o Living Stream Ministry (agora Ministries?) se engajou nos Estados Unidos. Vivi sob esse ministério, muitos anos. Aceito a legitimidade do seu empenho em levar os ensinos de Witness Lee ao meio evangélico. Por isso também, compreendo os motivos que levaram o Christian Research Institute a se retratar da acusação de heresia feita a Lee no passado, ao publicar um número inteiro da sua revista sobre esse tema, com o título “We were wrong” (Christian Research Journal. Vol. 32, nº 6, 2009). Mas as críticas do LSM a Sproul revelam uma radicalização doutrinária perigosa.
Cá no Brasil, nunca discutimos os erros fundamentais de Lee, a não ser superficialmente. Os norteamericanos mostraram-se muito mais bereanos que nós. Discutiram e até hoje discutem, em profundidade, a teologia de Lee. Ao ler os seus debates, porém, encontro nos teólogos prontos a condená-lo, certa incompreensão da personalidade de Lee. Não que a instância doutrinária não se revista de autonomia, mas a compreensão da vida da pessoa ajuda a entender a formação da sua doutrina.
Digo-o como quem, simplesmente, manifesta a sua opinião. E olhem que não ignoro os escritos de Lee. Sou dado à leitura, mas devo dizer que, por muito que tenha lido tantos autores, li mais Witness Lee do que todos eles. Isso porque, com paixão própria da pouca idade, submeti-me a um rigoroso treinamento na teologia dele, que transcendeu o que era exigido nos cursos oficiais do Living Stream. Mas li-o tanto também por encontrar em Lee uma inteligência criativa e uma paixão pela vida interior com Cristo que me atraíram fortemente.
A criatividade é um traço da personalidade desse teólogo chinês. Um traço que, talvez, o tivesse feito um intelectual bem-sucedido em outros campos, caso tivesse dedicado a eles a sua existência. Mas Lee dedicou-se à Teologia, embora não gostasse de utilizar essa palavra e, ainda menos, o termo religião (basta lembrar Christ versus religion)! Infelizmente, na Teologia, os terrenos estão minados para a criatividade, e os espíritos, armados contra ela. O preço da criatividade foi cobrado a Lee em incompreensões. Por isso acolho com boa vontade a palavra final favorável do Instituto de Pesquisa Cristã sobre ele.
Mas não a tomo como definitiva. Vivi o bastante para aprender que a heresia é um perigo real. Estou a afirmar que Lee foi herético? Não, pois sinceramente o que aprendi sobre ele não me parece suficiente para fechar tal juízo. Entendo que Lee ande perto do que, em geral, se entende por heresia, no meio protestante. Mas Paulo e os primeiros cristãos não tinham semelhante conceito do desvio herético. Num meio que admitia variações doutrinárias tão amplas quanto as que vigoravam entre os fariseus, os saduceus, os zelotes e os essênios, sem mencionar as subcorrentes desses grupos e as seitas menores, heresia era mais o isolamento de uma facção em torno de uma doutrina absurda do que diferenças na interpretação das Escrituras.
Por isso achamos tanta liberdade de falar, por exemplo, em Paulo. Nada encontramos, no primeiro século, que se pareça com a defesa da imputação que ele nos legou, nessa página imortal que é Romanos 4. Paulo verdadeiramente afirmou algo novo e chocante na sua época. E só o fez, porque sentiu liberdade para isso. Uma liberdade dupla, aliás: liberdade interior decorrente da fé e exterior por causa da relativa aceitação da diversidade doutrinária no meio em que ele vivia.
Mas, se a criatividade é um traço da personalidade de Lee, não posso afirmar o mesmo da ênfase que depositava na vida interior. A vida com Deus não é própria da personalidade de alguém. É antes um dom. E pode tornar-se (no caso de Lee, tornou-se) um dom muito desenvolvido e notável.
Disse que, no Brasil, nunca nos ocupamos dos erros fundamentais de Lee. Mas tal era a atenção que alguns (muitos) de nós dispensavam aos seus ensinamentos que, se tivessem caráter tão nocivo quanto o que os críticos americanos lhes atribuem, dificilmente teriam passado assim tão in albis para tanta gente. Tínhamos um ambiente parcamente bereano, é verdade, mas não almas pouco bereanas. Individualmente, líamos Lee com atenção. Se estávamos condicionados a concordar com ele, também devotávamos aos seus escritos e pregações uma atenção que duvido se reproduza na maior parte dos teólogos que o estudaram. E acho espantoso que, lendo-o e escutando-o dessa maneira, jamais tenhamos chegado ao fio das condenações que se pronunciaram a respeito dele. Suspeito que não o tenhamos feito, não porque não entendêssemos o que se passava, mas porque entendíamos melhor a sua personalidade e a diretriz fundamental da sua vida, que foi a experiência interior com Cristo.
Porém, assim como as grandes virtudes, os erros de Lee também emanaram das características da criatividade e da vida interior que tanto o distinguem. Foram antes de tudo excessos cometidos nessas linhas. A partir de certo momento e não sem ser insuflado por seguidores diretos, Lee se tornou um novidadeiro. A invenção de palavras novas e a afirmação de doutrinas críticas foram levadas tão longe, por ele, que originaram rematados absurdos. Muitos desses absurdos são dogmaticamente irrelevantes, mas alguns não o são. E, no clima de louvação santa (como se tal disparate fosse possível) que se instalou, em torno dele, Lee passou a revelar uma disposição cada vez menor a aprender com os outros.
A paixão pela vida interior, por sua vez, levou Lee a desenvolver uma justificação teológica dela, em flagrante conflito com a doutrina da imputação. Nesse ponto particular, ele se aproximou inconscientemente da doutrina católica da infusão gradual de justiça não simplesmente a partir de fora, mas no interior do crente. Tudo de forma bastante incomum, já que Lee não abominava menos (nem mais) os erros católicos do que os setores protestantes fundamentalistas.
Para aquilatar bem isso, ouçamos o que o blog católico já mencionado assevera sobre a justificação: “Uma vez que eles [os protestantes] creem no sola fide veem-se obrigados a garimpar uma doutrina da justificação que dispense as boas obras. Em outras palavras [...] uma justificação que lhes seja externa. Uma justificação que não tenha, no fundo, e no frigir dos ovos, nada a ver com o crente” (www.veritatis.com.br).
O texto ataca a justificação pela fé, para defender a doutrina católica da infusão da justiça mediante as obras, os sacramentos etc. Lee sustentou coisa semelhante, em busca de uma justificação teológica para a sua proposta de espiritualidade. Para ele, a vida de Cristo é infundida no crente, gradativamente, ao longo de toda a sua vida. Nisso consiste a salvação para Lee e não só num procedimento de imputação.
É o que se costuma exprimir como uma salvação com aspectos complementares, um deles judicial, outro orgânico ou de infusão de vida.
A busca do meio-termo entre correntes opostas, que se digladiaram sem composição na História, é comum em Witness Lee. Mas, quase nunca, é bem-sucedida. É o caso da doutrina da infusão defendida por ele, que tanto depende da sua proposta de espiritualidade e, por isso, precisa ser analisada à luz dela. No que tem de mais proveitoso, a espiritualidade de Lee é haurida de uma série de místicos cristãos da História. A maior parte, a exemplo de Madame Guyon e Father Fenèlon, pertenceu à Igreja Católica. Escritores protestantes como William Law e Andrew Murray, em que Lee também se inspirou, embora ligados a uma espiritualidade viva e intensa, talvez não mereçam o enquadramento simples de místicos.
Pode-se questionar, também, em que medida Lee absorveu sua proposta de espiritualidade de Watchman Nee. Não há dúvida de que ele inspirou-se muito nesse pregador chinês, mas o ímpeto inovador que sempre demonstrou levou-o a transcender até as crenças e práticas místicas de sua principal fonte de inspiração. Somos, pois, levados a concluir que a espiritualidade proposta por Lee não é de cepa católica, nem protestante. Tampouco é exatamente a de Watchman Nee. É uma espiritualidade singularíssima. Característica ressaltada dela é ter-se tornado radical, não como experiência individual, mas coletiva. A mística de Lee é, a meu ver, com efeito, uma prática coletiva, uma prática de reuniões. Com o desenvolvimento de tecnologias de última geração, tem-se tornado, também e estranhamente, uma prática virtual.
O tratamento de uma espiritualidade tão peculiar não cabe nos limites deste texto dedicado à justificação. Não tentarei, pois, realizá-lo. Basta-me assinalar o traço extremado dela e da doutrina da infusão plasmada a fim de justificá-la. Só na aparência, a doutrina de Lee é um meio-termo. No fundo e em verdade, ela é uma radicalização malsucedida.
A inteira questão gira em torno da ideia de filiação defendida por Lee. Numa tentativa de refutar o número “We were wrong”, do periódico CRI, o teólogo Brandon Adams selecionou as seguintes passagens de escritos de Lee e do LSM sobre o tema: “Toda vida produz descendência segundo a sua espécie (Gn 1:11,21,24). Como filhos de nosso pai físico, temos a vida e a natureza de nosso pai, mas não somos a mesma pessoa que ele. Um avô, um pai e um filho têm todos a mesma vida e natureza, mas são diferentes pessoas. Em vida e natureza, eles são o mesmo, mas em pessoa são diferentes. Como filhos de Deus (Rm 8:16; 1 Jo 3:1), fomos deificados, não em pessoa, mas em vida e natureza (The experience and growth in life. pp. 209-210)”.
Num outro texto, o Living Stream volta suas baterias contra Sproul: “Ele [Sproul] escreve que ‘Jesus é o único Filho natural de Deus. Todos os outros entram na sua família pela adoção’. Tal afirmativa contradiz diretamente a revelação das Sagradas Escrituras, que nos dizem em termos inequívocos que nós, crentes, nascemos de Deus e consequentemente somos sua prole real (Sproul’s saved from what?)” (ADAMS, Brandon. "The false gospel of Witness Lee and the Living Stream Ministries”. Disponível em www.contrast2.wordpress.com/2010/09/25).
Esse é um erro de Lee, mas um erro que se comete no mister de interpretar um ensino bastante complexo, com vertentes literais e simbólicas que se interpenetram: o do novo nascimento e da nova vida em Cristo. Sproul interpreta o novo nascimento, à luz da imputação. Conclui que Deus nos imputa a condição de filhos, o que equivale a adotar-nos. Em seu apoio, está a evidência léxica de que huiostesía, termo grego traduzido adoção em nossas Bíblias, era correntemente usado nesse sentido, no primeiro século. Lee argumenta que o termo inclui o radical huiós (filho). Aí tropeça, pois a tradução de uma palavra não é igual à da soma de seus elementos. Átomo vem de elementos que significam não e partes. Se o princípio hermenêutico de Lee estivesse correto, a palavra deveria ser traduzida “coisa sem partes” ou indivisível, mas continuou a ser empregada da mesma maneira, depois que o átomo foi fracionado. Não pode, assim, indicar algo indivisível, pelo mesmo motivo por que a presença do radical filho em huiostesía não infiltra no termo o significado de filiação natural.
No fundo, a ideia de filiação de Lee é uma reductio ad absurdum (redução ao absurdo) da mística. É válido a alma crer-se mesclada e em koinonía com Deus. 2ª de Pedro 1:4 chega a afirmar que somos participantes (comungantes, no original) da natureza de Deus. Mas o contexto do verso explicita que seu autor referia-se à participação que decorre do ato de entender algo. Não de entender a natureza de Deus, é claro, mas de entender as promessas divinas. Os antigos achavam que entender era participar da ideia do que é pensado. Para muitos, isso era o mesmo que participar desse ser. Difícil é extrair a palavra participantes desse contexto filológico e cultural para lhe atribuir interpretação apropriada a experiências místicas. Mas foi exatamente o que Lee realizou.
E o que se diz da filiação vale, em linhas gerais, também para o nascer de novo, o ser nova criatura etc. Esses termos foram empregados como metáforas, por Jesus e por Paulo, ambos mestres da linguagem simbólica. Porém, todas as vezes em que a entrada na família de Deus é abordada em termos literais, na Bíblia, a palavra adoção e equivalentes são utilizados. É o caso de João 1:12: “A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que creem no seu nome”. Um poder de ser feito não é um nascimento literal. É, antes, uma imputação.
Acresce que, assim como exclui o mérito, a imputação também exclui a regeneração literal, pois imputar é atribuir um significado para criar uma relação nova. A condição de filhos de Deus é-nos imputada, a fim de inaugurar um novo tipo de relação entre nós e Deus. Essa relação é tão forte que é descrita pela metáfora do novo nascimento. Mas, com ampla ajuda do termo huiostesía, ela foi sempre entendida, pelos primeiros cristãos, como adoção. É o que consta em toda a literatura patrística.
A esse esclarecimento, haverá quem alegue o que lemos na continuação de João 1:12: "os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus". Se desejamos extrair do verso um nascimento de Deus, fazemos bem. Mas é preciso atentar para o alcance de vistas que o autor sagrado tinha, ao escrever João 1:12. Antes de afirmar que nascemos de Deus, ele considerou três espécies de geração: do sangue, da vontade da carne e da vontade do homem. Sabemos o que é geração do sangue, mas às vezes passamos por alto a geração da vontade, que o autor do Evangelho claramente considerou. Ora, nascer da vontade é experimentar um nascimento psíquico, não físico. Esse é um ponto importante, pois não há garantia alguma de que o nascimento de Deus mencionado no verso não seja também psíquico. Parece-me que é um nascimento da vontade de Deus, pois se deve à sua decisão de nos imputar a condição de filhos. Os membros das Igrejas Locais têm dificuldade de admitir isso, pois separam radicalmente o espírito da mente do homem e localizam o novo nascimento no primeiro. Mas não é isso que Paulo faz, em Romanos. Pelo contrário, vemos, nos capítulos 6 a 8 da epístola, que ele coloca a mente no centro do processo de salvação e da própria regeneração. No que não diverge do pensamento cristão da época.
Não constitui boa prática, na verdade é bastante perigoso, qualquer teólogo alterar uma interpretação sobre o ser de Deus ou a salvação que tenha sido selecionada por muitas gerações de cristãos. Não é certamente impossível, mas improvável que isso possa ser feito com sucesso. A ideia de filiação por adoção é muito antiga entre os cristãos. No século IV, Hilário de Poitiers escreveu dos hereges que negavam a divindade de Cristo: "Afirmam estar [Cristo], como nós, submetido a Deus criador e ser Filho por adoção" (POITIERS, Hilário de. Tratado sobre a Santíssima Trindade. São Paulo: Paulus, 2005. p. 48). Nessa passagem, Hilário admite que a interpretação de que somos filhos adotivos de Deus era corrente entre os cristãos e não herética.
A vida e a natureza de Deus são incomunicáveis. Se as possuíssemos, teríamos as propriedades consequentes delas, assim como a onisciência, a onipotência e a onipresença, mas estamos infinitamente longe disso. A fé cristã não veio ao mundo para ampliar a incompreensão do real por absurdos tão rematados. Veio para aumentar a compreensão da vida, a posse da verdade pelo homem, e desse modo foi entendida, nos primeiros séculos. Esse é também o estado em que o Novo Testamento deixa a questão da nossa relação com Deus.
Se pensasse que nascemos literalmente de Deus, acaso Paulo teria posto tanta ênfase na imputação e mencionado essa ideia nove vezes, só no capítulo 4 de Romanos? Não teria antes se dedicado a mostrar as glórias de possuirmos os atributos inerentes à vida e à natureza de Deus? Notemos a ausência de qualquer ensino claro e não metafórico, a esse respeito, em Romanos. E saibamos concluir dela que não era intenção do apóstolo transmitir tal ensino.
Sei que as pessoas gostam de decisões do tipo herético ou não herético. Querem posições peremptórias. Mas esse gosto dogmático nem sempre pode ser satisfeito. Não havia tal dogmatismo no primeiro século. Como podemos atribuir às doutrinas dos cristãos daquela época o que nem eles próprios colocavam nelas?
O dogma veio bem depois das cartas de Paulo, do Evangelho de João e dos livros neotestamentários de modo geral. O que não significa que não tenha grande importância, como cristalização histórica. Mas um é o poder do indivíduo; outro, o das gerações. O indivíduo pode ter convicções, mas não lhe cabe fechar julgamentos sobre questões que estão além de seu poder. Quem sou eu para dizer que João se interpreta assim e Romanos de tal outro modo? Digo o que sinto e aprendi sobre João e Romanos, apenas isso. O mais as gerações construirão, pois a elas incumbe tal tarefa.
As gerações estão acima de nós, como a nuvem de testemunhas de Hebreus 12:1. Porém, as Escrituras estão acima das gerações. Os dogmas brotaram do chão da História; as Escrituras surgiram de um lugar situado fora dela. Surgiram do alto. Por isso, para interpretá-las, o indivíduo deve saber onde tem o seu nariz. Mas tem também o direito sagrado de proceder como indivíduo livre.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
A Unidade da Igreja (1)
O texto abaixo foi escrito na mesma época de Um sonho de comunhão (1991), disponível neste blog (novembro/2011). Entreguei uma via manuscrita dele para Djalma Marques e uma via, também manuscrita, de Um sonho para Maria Izabel Birolli. O que se seguiu é do conhecimento de muitas pessoas e dispensa repetições.
Quero lembrar, somente, que a gênese e o conteúdo dos escritos os fazem irmãos gêmeos. Um par de vasos que os Nabucodonosors afoitos levaram para as Babilônias erguidas por suas interpretações, e os Torquemadas queimaram. Por anos considerei A unidade da igreja perdido, até que, outro dia, deparei-o na "pasta errada" do meu arquivo, talvez como Hilquias, de modo mais nobre, é verdade, achou o livro perdido da lei no tempo de Josias (2 Rs 22:8).
Publico-o, agora, com o atraso de 22 anos que as circunstâncias impuseram. Ortega y Gasset bem avisou que o homem não é ele só: é ele e suas circunstâncias.
1. Unidade
Voltemos os olhos à natureza criada por Deus. Nela contemplamos um verdadeiro show de diversidade. Nada no mundo é igual ou repetido; tudo é imbuído do dom da diferença. O sol não é como a lua, o mar não é semelhante à terra, as árvores não são os animais, as aves não são iguais aos peixes, as feras não são como o homem.
Ainda que tomemos os peixes, as aves e cada grande grupo de seres vivos, em si e por si, depararemos diversidade quase infinita. A tilápia é tão diferente do tubarão, o bagre da traíra, as molinésias do peixe-espada, o lebiste do bacalhau. Que multifário espetáculode cores, formas, hábitos, instintos a natureza nos proporciona! Em uma palavra, que espetáculo de graça! A natureza só é tão deslumbrante, por ser tão variada.
Toda essa imensa diversidade, entretanto, subsiste em harmoniosa unidade. As diferenças tão profundas entre os seres só são percebidas numa visão de partes; no todo, reina inconteste a unidade. Quando voltamos o olhar das partes para o todo, temos a impressão fortíssima de um milagre: como pode o que é diverso e contraditório como repertório de partes ser tão uno enquanto todo?
Não devemos desprezar essa profunda lição que nos ministra a natureza, pois é a lição de Deus. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Os céus proclamam a glória de Deus (Sl 19:2,1). E que glória diversa proclamam!
De fato, no transe que essa visão comunica, na vertigem em que nos envolve, aprendemos uma lição magnífica. Se Deus tudo criou, a ordem da criação revela o conceito divino. Por isso, o Salmo 19 coloca a criação e a lei lado a lado, como testemunhos paralelos e concordes das mesmas verdades eternas.
Tão profunda é a concordância entre a natureza e a Escritura que Paulo chega a misturá-las, a borrar seus limites, ao citar o salmo: “A fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo” (Rm 10:17-18). As duas últimas orações são a continuação de Salmo 19:1-2. Por meio delas, Paulo cola a natureza na Escritura, anexa-as, funde-as, ao perguntar: “Não ouviram [a palavra de Cristo]?” E ao responder com o salmo: “Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo”.
Quero, porém, me fixar no que a natureza ministra sobre a unidade. Ela nos mostra o verdadeiro sentido do um. Sentido conferido, ampliado e explicado pelas Escrituras, mas nunca alterado, já que o revelador por trás da natureza e da Bíblia é um. Diz-nos a natureza que a unidade é a harmonia da diversidade. Não por acaso, Universo, em latim, quer dizer unidade do diverso ou da diversidade. Eis o que é o mundo. Eis o que até os pagãos entenderam que ele é, pois o chamaram Universo. Eis o testemunho que temos incessantemente diante dos olhos e que, como todo testemunho, discorre conosco.
Como rejeitar tão eloquente depoimento? Como defender qualquer outra forma de unidade? É conhecida a passagem em que Cripriano explica a unidade da igreja por meio da luz solar: “A unidade da luz não comporta que se separe um raio do centro solar [...] Do mesmo modo a igreja do Senhor, como luz derramada, estende seus raios em todo o mundo, e é uma única luz que se difunde sem perder a própria unidade”. Exemplo maravilhoso: a igreja não é uma catedral escura ou uma instituição secreta; é luz vertida por Deus sobre o mundo!
A luz derrama-se com liberdade, enquanto se reporta ao mesmo centro solar. Essa é a unidade que a criação nos revela. Poderíamos descrevê-la em tantos outros fenômenos, sempre da mesma maneira. Assim é nos peixes, na água, nos animais e sobretudo no exemplo do organismo vivo, qualquer que ele seja. Em todos esses casos, vemos o mesmo padrão invariável de unidade, isto é, a vigorosa harmonia na diversidade imensa. Não há unidade sem harmonia ou sem a mais ampla dose de liberdade e diversidade.
Não pode ser outra a unidade da igreja de Cristo. É apenas mais aperfeiçoada. Se a unidade do cosmo é uma diversidade, a da igreja é a perfeita diversidade. É o que significa dizer que Cristo veio reunir (Jo 11:52), juntar (Mt 23:37), e o faz ao seu modo, não de qualquer modo. Não ao modo do homem, que é sempre o da força, o da indelicadeza. Por isso também, quem com ele não ajunta, espalha (Mt 12:30).
Há muitas maneiras de juntar e diversas formas de unidade. A de Cristo, porém, é uma só. Por isso, não basta juntar: é preciso juntar com ele, juntar como ele junta. Do contrário, ainda que juntemos, espalharemos.
É possível buscar a unidade e estar contra Cristo. Basta, para isso, que se busque outra unidade, além da de Cristo e da Bíblia. Mas como é preciso juntar com ele! O ecumenismo hodierno busca a unidade, mas nem sempre a unidade bíblica, nem sempre a unidade com o espírito correto. O ecumenismo que transige com os pontos básicos de fé, para melhor ajuntar, não ajunta: espalha. Por isso, a sua unidade não é a de Cristo.
No Novo Testamento, há uma igreja em cada cidade, mas não só isso: nele vemos uma igreja que recebe a todos na base impreterível do amor. Essa é a unidade bíblica, uma unidade tão mais irrenunciável quanto percebemos ser impossível manter verdadeira harmonia fora do amor. Deus criou tal unidade como estruturou o Universo. O homem não pode (nem deve tentar) criar outra melhor.
A História não prova, abundantemente, ser isso impossível? O espírito da unidade é o amor fraternal sem barreiras. Não é a unidade com ou entre as denominações, já que o amor fraternal sem barreiras é aí tão difícil. Quem crê na unidade interdenominacional crê com ingenuidade. Não com a ingenuidade do engenho, nem com aquela que exclui a malícia, o que seria antes bom, mas com ingenuidade de entendimento, o que é péssimo (1 Co 14:20).
Um arguto escritor cristão deste século sentenciou sobre as divisões denominacionais: “Essa realidade não pode ser eliminada de um sopro, muito menos com exortações morais ao amor, à tolerância, ao entendimento. Tente alguém alcançar alguma coisa com essa laia, seja em que área for!” (BARTH, Karl. “A igreja e as igrejas”. In Dádiva e louvor – artigos selecionados. São Leopoldo: Sinodal, 1986. p. 208).
Não é possível unidade aprovada por Deus, a não ser a de Cristo. A obra por excelência de Deus, hoje, é restaurar a unidade da igreja, mas não restaurar qualquer unidade ou restaurar a unidade de qualquer maneira. A obra de Deus é restaurar a unidade bíblica da igreja, a unidade prática da harmonia na mesma cidade, a unidade que é milagre. Que milagre? O do amor com liberdade e diversidade.
Em 1982, li as obras do pastor Juan Carlos Ortiz sobre a necessidade de uma renovação profunda da igreja, inclusive da sua unidade. Elas me impressionaram de um modo que mal posso traduzir. Porém, aquelas propostas se perderam. Deram em nada ou em muito pouco. Em tantos casos, o movimento iniciado por Ortiz terminou pior que o ecumênico de caráter interdenominacional. O impulso original do trabalho dele era, sem dúvida, genuíno, correto. A unidade, porém, que buscava não era a de Cristo. Na melhor das hipóteses, era uma espécie de unidade interdenominacional; na pior, uma unidade totalitária. O próprio Ortiz terminou de batina numa Igreja denominacional.
Deus não permite o sucesso de uma unidade diversa da que ele estabeleceu. Se o amamos e estamos dispostos a obedecer-lhe, devemos fazê-lo primeiramente nisto: na obra da restauração da unidade bíblica da sua igreja. Não me refiro, é claro, à letra da Bíblia. Refiro-me tanto a uma base concreta e prática da unidade quanto ao espírito dela.
Desgraçadamente, essas duas coisas perderam-se na História da Igreja. Bem cedo, setores inteiros da igreja entraram num processo de apostasia das verdades essenciais da fé. Num segundo momento, enquanto a ortodoxia era restaurada, na esteira da Reforma, o inimigo se aproveitou do desleixo para com o corpo, a igreja, a fim de introduzir um mal tão nocivo quanto o anterior: as facções protestantes. Pode-se propor que, durante a primeira crise, a unidade foi ferida pelas más doutrinas e, na segunda, pelas boas. E que, ante esse grave quadro, a obra de Deus só pode consistir em restaurar a unidade danificada por ambos os desvios.
[Segue-se, no texto, uma página cujo conteúdo desejo retratar em parte, pois não mais acredito na condição especial de bênção do movimento das Igrejas Locais, a que pertenci, ou no estado irrecuperável de degradação espiritual das igrejas católica e protestantes. Transcrevo essa página abaixo não para reafirmar o que então escrevi, mas para deixar um registro daquilo em que, na época, acreditava. Cumpre esclarecer, porém, que, embora equivocado nesse particular, o texto foi escrito exatamente para ressaltar a insuficiência da posição peculiar das Igrejas Locais,quando não acompanhada do que ele repetidamente chama o espírito da unidade, isto é, o amor fraternal. Os motivos da presente retratação estão detalhadamente explicados no texto “Reforma e Restauração”, disponível em www.lobaomorais.blogspot.com]
O desejo de Deus é a restauração da unidade bíblica da igreja, não de qualquer unidade. Por isso, a restauração do Senhor, no nosso meio [nas Igrejas Locais], tem tanta confirmação divina. Não estamos na condição histórica do Catolicismo, do Protestantismo estilhaçado em inúmeras Igrejas, do ecumenismo interdenominacional ou de movimentos como o de Ortiz. Deus tem abençoado tão ricamente a restauração, em nosso meio,porque aqui está a genuína e bíblica unidade. Confesso que procurei informar-me muito sobre os vários ramos do cristianismo, porém nunca encontrei prática tão genuína da unidade, após os primeiros séculos, quanto entre aqueles que, com justiça, são denominados a restauração do Senhor.
Achei inclusive alguns grupos que se reúnem como a igreja nas cidades onde estão, mas mantêm laços fortes demais com Igrejas protestantes. Estes últimos grupos não creem, como nós, que a obra principal de Deus, hoje, ocorre radicalmente fora tanto do Catolicismo como do Protestantismo, ambos irrecuperáveis. Paulo disse, mais de uma vez, que um pouco de fermento levada toda a massa (1 Co 5:6;Gl 5:9). Este é um princípio seriíssimo e prático: basta intervir tempo suficiente, sem arrependimento e reforma, para que o fermento torne a massa imprestável. No caso do Catolicismo e do Protestantismo, é evidente que esse tempo já passou. A massa já se tornou imprestável. De modo que implantar a restauração bíblica da igreja em bases interdenominacionais, com o corpo no deserto e o coração no Egito, é no mínimo fiar-nos em duvidosa utopia.
A restauração genuína de Deus é, pois, a da unidade bíblica da igreja radicalmente fora do Catolicismo e do Protestantismo. Só nessa posição, é possível reimplantar em bom solo o princípio da verdadeira unidade.
[Fim do trecho retratado.]
2. O espírito da unidade
Tudo isso é, porém, apenas o princípio correto da unidade. É, por assim dizer, tão-só, a tomada de posição. É autoevidente que a posição deve ser movida pelo coração para ter algum valor. O amor fraternal sem barreiras é, com efeito, o espírito de toda unidade. Se tivermos a posição da unidade, sem o amor, estaremos mortos, pois a unidade destituída de amor é uma carcassa. É letra que mata. Só o espírito vivifica.
A comunhão é o espírito da unidade. Assim como há uma só unidade de Cristo, embora haja muitos tipos de unidade, há também uma só comunhão dos apóstolos, não obstante subsistam tantas comunhões. A prática da comunhão dos apóstolos é o viver sem barreiras, é a comunhão total na luz (1 Jo 1:7).
Enquanto temos barreiras, não temos amor uns pelos outros. Perdemos a comunhão dos apóstolos. Criamos outra comunhão. Por isso, Deus nos concedeu a experiência de andar na luz. Seres humanos sempre têm problemas de relacionamento. Isso é inevitável. É impossível que eles não ergam barreiras. Mas é imperativo que falem abertamente uns com os outros sobre as barreiras que têm no coração, a fim de desintegrá-las. Isso é andar na luz, como Deus está na luz.
Não há substituto para essa comunhão na luz. Só ela é, na prática, a comunhão dos apóstolos. Se deixarmos os problemas entre nós crescerem ou se eles efetivamente já crescem, no nosso meio [notem a desconfiança para com a comunhão existente nas Igrejas Locais], é sinal de que a comunhão está debilitada. O remédio único para isso é tratar todas as diferenças na luz.
Algumas linhas atrás, afirmei que a disseminação do fermento tornou imprestável a massa do Catolicismo e do Protestantismo. Ora, o pão sem fermento de Deus são “os asmos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5:8). Que de bom poderemos produzir, se perdermos a sinceridade? A pureza da nossa comunhão reside na sinceridade, na adesão aberta e franca à verdade. Esconder problemas é esconder o fermento. Não é interessante que o Senhor Jesus tenha afirmado, na parábola do fermento, que a mulher não apenas misturou, abertamente, mas “escondeu” o fermento em três medidas de farinha (Mt 13:33; Lc 13:21 – grego)? O inimigo sempre introduz o fermento às ocultas. A comunhão sempre se desenvolve na luz.
O Evangelho nos ensina que o fermento dos fariseus era a hipocrisia (Lc 12:1). Dele os discípulos deviam acautelar-se. A hiprocrisia é o estágio avançado do processo de fermentação; a ocultação de barreiras é o estágio incipiente dele. Alguém não o crê? Então explique por que Paulo faz da sinceridade o não-fermento.
Encobrir problemas pessoais pode, sim, levedar toda a massa, pois danifica a comunhão, que é a própria massa. Quando assumimos essa condição, ainda que mantenhamos a posição correta da unidade, já não temos o seu espírito. A mais verdadeira caracterização da unidade é a comunhão. Que unidade é essa, em que afirmamos que somos um e não suportamos viver juntos? Essa é a falsa unidade, é a unidade que Jesus denominou hipocrisia. É a fermentação da unidade.
As sete igrejas de Apocalipse 2 e 3 possuem significado simbólico, pois podem ser vistas como estados básicos da igreja cristã, ao longo de sua história. Éfeso é a igreja no final da era apostólica. Esmirna, a igreja sob a perseguição romana. Pérgamo, a igreja aliada ao Império, após a conversão de Constantino. Tiatira, a igreja medieval apóstata. Sardes, a igreja parcialmente reformada. Filadélfia a igreja no estado avançado de restauração. Não dizemos que cada uma dessas igrejas possui um estado ou condição distinta?
Porém, se assim é, Filadélfia, a igreja louvada por Deus, é o estado em que prevalece o amor fraternal. Que quer dizer Filadélfia, a não ser philéo adelphói, amor entre irmãos? A igreja no estado avançado de restauração não é a igreja numa cidade. Todas as sete são igrejas em cidades. Mas Filadélfia e só ela é a igreja do amor fraternal, a igreja da comunhão ardente, do afeto sem barreiras, não da mera posição correta.
A comunhão dos apóstolos é mencionada no texto grego de Atos 2:42. A melhor tradução desse verso parece ser: “E perseveravam no ensino e na comunhão dos apóstolos”. Nem Atos 2:42, nem o testemunho que o livro inteiro presta da igreja primitiva têm foco numa comunhão qualquer. Os primeiros cristãos não perseveravam numa comunhão genérica, mas na comunhão específica e ortodoxa dos apóstolos.
Cada grupo religioso, cada sociedade, cada agremiação tem a sua ordem interna, a sua comunhão particular. Ninguém transitará bem na Congregação Cristã no Brasil, com livros diferentes da Bíblia em baixo do braço. A comunhão própria da Congregação não o admite. Numa denominação histórica não se permitem práticas pentecostais. Por isso, alguém que busque os carismas não será bem recebido em seu círculo. A comunhão histórica vive o bastante para não o permitir.
Quem está em condição de negar que, nos vários grupos cristãos, vigoram outras comunhões, além da dos apóstolos? Cada cabeça uma sentença, cada sentença um mestre. Cada denominação tem a sua comunhão; cada comunhão, uma unidade. Não nego que existam unidade e comunhão nas denominações. Nego que prevaleçam nelas a unidade e a comunhão ortodoxas.
Isso deve servir de advertência a todos os que confessam o seu compromisso com a restauração da unidade. Particularmente a nós [nas Igrejas Locais]. Sem o amor que vence barreiras, a unidade está morta. Em Filadélfia, philéo não indica o amor mais elevado, o amor próprio de Deus, que em grego é agápe. Philéo é um amor mais tendente à amizade. Não que o amor sublime, agápe, não se encontre em Filadélfia. Mas agápe é tão elevado que não se manifesta a todo momento. Nenhum amor pode ser verdadeiro sem ser sincero. E nenhum amor humano pode ser sincero, sendo sempre sublime.
Essa é a marca de Filadélfia: o amor-amizade entre irmãos. O amor singelo, que nada esconde, tudo abre, tudo traz para a luz de Deus. Tal amor é também comunhão, é ausência total de condição para a convivência. Nesse amor se sumaria a unidade.
Quero lembrar, somente, que a gênese e o conteúdo dos escritos os fazem irmãos gêmeos. Um par de vasos que os Nabucodonosors afoitos levaram para as Babilônias erguidas por suas interpretações, e os Torquemadas queimaram. Por anos considerei A unidade da igreja perdido, até que, outro dia, deparei-o na "pasta errada" do meu arquivo, talvez como Hilquias, de modo mais nobre, é verdade, achou o livro perdido da lei no tempo de Josias (2 Rs 22:8).
Publico-o, agora, com o atraso de 22 anos que as circunstâncias impuseram. Ortega y Gasset bem avisou que o homem não é ele só: é ele e suas circunstâncias.
1. Unidade
Voltemos os olhos à natureza criada por Deus. Nela contemplamos um verdadeiro show de diversidade. Nada no mundo é igual ou repetido; tudo é imbuído do dom da diferença. O sol não é como a lua, o mar não é semelhante à terra, as árvores não são os animais, as aves não são iguais aos peixes, as feras não são como o homem.
Ainda que tomemos os peixes, as aves e cada grande grupo de seres vivos, em si e por si, depararemos diversidade quase infinita. A tilápia é tão diferente do tubarão, o bagre da traíra, as molinésias do peixe-espada, o lebiste do bacalhau. Que multifário espetáculode cores, formas, hábitos, instintos a natureza nos proporciona! Em uma palavra, que espetáculo de graça! A natureza só é tão deslumbrante, por ser tão variada.
Toda essa imensa diversidade, entretanto, subsiste em harmoniosa unidade. As diferenças tão profundas entre os seres só são percebidas numa visão de partes; no todo, reina inconteste a unidade. Quando voltamos o olhar das partes para o todo, temos a impressão fortíssima de um milagre: como pode o que é diverso e contraditório como repertório de partes ser tão uno enquanto todo?
Não devemos desprezar essa profunda lição que nos ministra a natureza, pois é a lição de Deus. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Os céus proclamam a glória de Deus (Sl 19:2,1). E que glória diversa proclamam!
De fato, no transe que essa visão comunica, na vertigem em que nos envolve, aprendemos uma lição magnífica. Se Deus tudo criou, a ordem da criação revela o conceito divino. Por isso, o Salmo 19 coloca a criação e a lei lado a lado, como testemunhos paralelos e concordes das mesmas verdades eternas.
Tão profunda é a concordância entre a natureza e a Escritura que Paulo chega a misturá-las, a borrar seus limites, ao citar o salmo: “A fé vem pela pregação e a pregação pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo” (Rm 10:17-18). As duas últimas orações são a continuação de Salmo 19:1-2. Por meio delas, Paulo cola a natureza na Escritura, anexa-as, funde-as, ao perguntar: “Não ouviram [a palavra de Cristo]?” E ao responder com o salmo: “Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e as suas palavras até aos confins do mundo”.
Quero, porém, me fixar no que a natureza ministra sobre a unidade. Ela nos mostra o verdadeiro sentido do um. Sentido conferido, ampliado e explicado pelas Escrituras, mas nunca alterado, já que o revelador por trás da natureza e da Bíblia é um. Diz-nos a natureza que a unidade é a harmonia da diversidade. Não por acaso, Universo, em latim, quer dizer unidade do diverso ou da diversidade. Eis o que é o mundo. Eis o que até os pagãos entenderam que ele é, pois o chamaram Universo. Eis o testemunho que temos incessantemente diante dos olhos e que, como todo testemunho, discorre conosco.
Como rejeitar tão eloquente depoimento? Como defender qualquer outra forma de unidade? É conhecida a passagem em que Cripriano explica a unidade da igreja por meio da luz solar: “A unidade da luz não comporta que se separe um raio do centro solar [...] Do mesmo modo a igreja do Senhor, como luz derramada, estende seus raios em todo o mundo, e é uma única luz que se difunde sem perder a própria unidade”. Exemplo maravilhoso: a igreja não é uma catedral escura ou uma instituição secreta; é luz vertida por Deus sobre o mundo!
A luz derrama-se com liberdade, enquanto se reporta ao mesmo centro solar. Essa é a unidade que a criação nos revela. Poderíamos descrevê-la em tantos outros fenômenos, sempre da mesma maneira. Assim é nos peixes, na água, nos animais e sobretudo no exemplo do organismo vivo, qualquer que ele seja. Em todos esses casos, vemos o mesmo padrão invariável de unidade, isto é, a vigorosa harmonia na diversidade imensa. Não há unidade sem harmonia ou sem a mais ampla dose de liberdade e diversidade.
Não pode ser outra a unidade da igreja de Cristo. É apenas mais aperfeiçoada. Se a unidade do cosmo é uma diversidade, a da igreja é a perfeita diversidade. É o que significa dizer que Cristo veio reunir (Jo 11:52), juntar (Mt 23:37), e o faz ao seu modo, não de qualquer modo. Não ao modo do homem, que é sempre o da força, o da indelicadeza. Por isso também, quem com ele não ajunta, espalha (Mt 12:30).
Há muitas maneiras de juntar e diversas formas de unidade. A de Cristo, porém, é uma só. Por isso, não basta juntar: é preciso juntar com ele, juntar como ele junta. Do contrário, ainda que juntemos, espalharemos.
É possível buscar a unidade e estar contra Cristo. Basta, para isso, que se busque outra unidade, além da de Cristo e da Bíblia. Mas como é preciso juntar com ele! O ecumenismo hodierno busca a unidade, mas nem sempre a unidade bíblica, nem sempre a unidade com o espírito correto. O ecumenismo que transige com os pontos básicos de fé, para melhor ajuntar, não ajunta: espalha. Por isso, a sua unidade não é a de Cristo.
No Novo Testamento, há uma igreja em cada cidade, mas não só isso: nele vemos uma igreja que recebe a todos na base impreterível do amor. Essa é a unidade bíblica, uma unidade tão mais irrenunciável quanto percebemos ser impossível manter verdadeira harmonia fora do amor. Deus criou tal unidade como estruturou o Universo. O homem não pode (nem deve tentar) criar outra melhor.
A História não prova, abundantemente, ser isso impossível? O espírito da unidade é o amor fraternal sem barreiras. Não é a unidade com ou entre as denominações, já que o amor fraternal sem barreiras é aí tão difícil. Quem crê na unidade interdenominacional crê com ingenuidade. Não com a ingenuidade do engenho, nem com aquela que exclui a malícia, o que seria antes bom, mas com ingenuidade de entendimento, o que é péssimo (1 Co 14:20).
Um arguto escritor cristão deste século sentenciou sobre as divisões denominacionais: “Essa realidade não pode ser eliminada de um sopro, muito menos com exortações morais ao amor, à tolerância, ao entendimento. Tente alguém alcançar alguma coisa com essa laia, seja em que área for!” (BARTH, Karl. “A igreja e as igrejas”. In Dádiva e louvor – artigos selecionados. São Leopoldo: Sinodal, 1986. p. 208).
Não é possível unidade aprovada por Deus, a não ser a de Cristo. A obra por excelência de Deus, hoje, é restaurar a unidade da igreja, mas não restaurar qualquer unidade ou restaurar a unidade de qualquer maneira. A obra de Deus é restaurar a unidade bíblica da igreja, a unidade prática da harmonia na mesma cidade, a unidade que é milagre. Que milagre? O do amor com liberdade e diversidade.
Em 1982, li as obras do pastor Juan Carlos Ortiz sobre a necessidade de uma renovação profunda da igreja, inclusive da sua unidade. Elas me impressionaram de um modo que mal posso traduzir. Porém, aquelas propostas se perderam. Deram em nada ou em muito pouco. Em tantos casos, o movimento iniciado por Ortiz terminou pior que o ecumênico de caráter interdenominacional. O impulso original do trabalho dele era, sem dúvida, genuíno, correto. A unidade, porém, que buscava não era a de Cristo. Na melhor das hipóteses, era uma espécie de unidade interdenominacional; na pior, uma unidade totalitária. O próprio Ortiz terminou de batina numa Igreja denominacional.
Deus não permite o sucesso de uma unidade diversa da que ele estabeleceu. Se o amamos e estamos dispostos a obedecer-lhe, devemos fazê-lo primeiramente nisto: na obra da restauração da unidade bíblica da sua igreja. Não me refiro, é claro, à letra da Bíblia. Refiro-me tanto a uma base concreta e prática da unidade quanto ao espírito dela.
Desgraçadamente, essas duas coisas perderam-se na História da Igreja. Bem cedo, setores inteiros da igreja entraram num processo de apostasia das verdades essenciais da fé. Num segundo momento, enquanto a ortodoxia era restaurada, na esteira da Reforma, o inimigo se aproveitou do desleixo para com o corpo, a igreja, a fim de introduzir um mal tão nocivo quanto o anterior: as facções protestantes. Pode-se propor que, durante a primeira crise, a unidade foi ferida pelas más doutrinas e, na segunda, pelas boas. E que, ante esse grave quadro, a obra de Deus só pode consistir em restaurar a unidade danificada por ambos os desvios.
[Segue-se, no texto, uma página cujo conteúdo desejo retratar em parte, pois não mais acredito na condição especial de bênção do movimento das Igrejas Locais, a que pertenci, ou no estado irrecuperável de degradação espiritual das igrejas católica e protestantes. Transcrevo essa página abaixo não para reafirmar o que então escrevi, mas para deixar um registro daquilo em que, na época, acreditava. Cumpre esclarecer, porém, que, embora equivocado nesse particular, o texto foi escrito exatamente para ressaltar a insuficiência da posição peculiar das Igrejas Locais,quando não acompanhada do que ele repetidamente chama o espírito da unidade, isto é, o amor fraternal. Os motivos da presente retratação estão detalhadamente explicados no texto “Reforma e Restauração”, disponível em www.lobaomorais.blogspot.com]
O desejo de Deus é a restauração da unidade bíblica da igreja, não de qualquer unidade. Por isso, a restauração do Senhor, no nosso meio [nas Igrejas Locais], tem tanta confirmação divina. Não estamos na condição histórica do Catolicismo, do Protestantismo estilhaçado em inúmeras Igrejas, do ecumenismo interdenominacional ou de movimentos como o de Ortiz. Deus tem abençoado tão ricamente a restauração, em nosso meio,porque aqui está a genuína e bíblica unidade. Confesso que procurei informar-me muito sobre os vários ramos do cristianismo, porém nunca encontrei prática tão genuína da unidade, após os primeiros séculos, quanto entre aqueles que, com justiça, são denominados a restauração do Senhor.
Achei inclusive alguns grupos que se reúnem como a igreja nas cidades onde estão, mas mantêm laços fortes demais com Igrejas protestantes. Estes últimos grupos não creem, como nós, que a obra principal de Deus, hoje, ocorre radicalmente fora tanto do Catolicismo como do Protestantismo, ambos irrecuperáveis. Paulo disse, mais de uma vez, que um pouco de fermento levada toda a massa (1 Co 5:6;Gl 5:9). Este é um princípio seriíssimo e prático: basta intervir tempo suficiente, sem arrependimento e reforma, para que o fermento torne a massa imprestável. No caso do Catolicismo e do Protestantismo, é evidente que esse tempo já passou. A massa já se tornou imprestável. De modo que implantar a restauração bíblica da igreja em bases interdenominacionais, com o corpo no deserto e o coração no Egito, é no mínimo fiar-nos em duvidosa utopia.
A restauração genuína de Deus é, pois, a da unidade bíblica da igreja radicalmente fora do Catolicismo e do Protestantismo. Só nessa posição, é possível reimplantar em bom solo o princípio da verdadeira unidade.
[Fim do trecho retratado.]
2. O espírito da unidade
Tudo isso é, porém, apenas o princípio correto da unidade. É, por assim dizer, tão-só, a tomada de posição. É autoevidente que a posição deve ser movida pelo coração para ter algum valor. O amor fraternal sem barreiras é, com efeito, o espírito de toda unidade. Se tivermos a posição da unidade, sem o amor, estaremos mortos, pois a unidade destituída de amor é uma carcassa. É letra que mata. Só o espírito vivifica.
A comunhão é o espírito da unidade. Assim como há uma só unidade de Cristo, embora haja muitos tipos de unidade, há também uma só comunhão dos apóstolos, não obstante subsistam tantas comunhões. A prática da comunhão dos apóstolos é o viver sem barreiras, é a comunhão total na luz (1 Jo 1:7).
Enquanto temos barreiras, não temos amor uns pelos outros. Perdemos a comunhão dos apóstolos. Criamos outra comunhão. Por isso, Deus nos concedeu a experiência de andar na luz. Seres humanos sempre têm problemas de relacionamento. Isso é inevitável. É impossível que eles não ergam barreiras. Mas é imperativo que falem abertamente uns com os outros sobre as barreiras que têm no coração, a fim de desintegrá-las. Isso é andar na luz, como Deus está na luz.
Não há substituto para essa comunhão na luz. Só ela é, na prática, a comunhão dos apóstolos. Se deixarmos os problemas entre nós crescerem ou se eles efetivamente já crescem, no nosso meio [notem a desconfiança para com a comunhão existente nas Igrejas Locais], é sinal de que a comunhão está debilitada. O remédio único para isso é tratar todas as diferenças na luz.
Algumas linhas atrás, afirmei que a disseminação do fermento tornou imprestável a massa do Catolicismo e do Protestantismo. Ora, o pão sem fermento de Deus são “os asmos da sinceridade e da verdade” (1 Co 5:8). Que de bom poderemos produzir, se perdermos a sinceridade? A pureza da nossa comunhão reside na sinceridade, na adesão aberta e franca à verdade. Esconder problemas é esconder o fermento. Não é interessante que o Senhor Jesus tenha afirmado, na parábola do fermento, que a mulher não apenas misturou, abertamente, mas “escondeu” o fermento em três medidas de farinha (Mt 13:33; Lc 13:21 – grego)? O inimigo sempre introduz o fermento às ocultas. A comunhão sempre se desenvolve na luz.
O Evangelho nos ensina que o fermento dos fariseus era a hipocrisia (Lc 12:1). Dele os discípulos deviam acautelar-se. A hiprocrisia é o estágio avançado do processo de fermentação; a ocultação de barreiras é o estágio incipiente dele. Alguém não o crê? Então explique por que Paulo faz da sinceridade o não-fermento.
Encobrir problemas pessoais pode, sim, levedar toda a massa, pois danifica a comunhão, que é a própria massa. Quando assumimos essa condição, ainda que mantenhamos a posição correta da unidade, já não temos o seu espírito. A mais verdadeira caracterização da unidade é a comunhão. Que unidade é essa, em que afirmamos que somos um e não suportamos viver juntos? Essa é a falsa unidade, é a unidade que Jesus denominou hipocrisia. É a fermentação da unidade.
As sete igrejas de Apocalipse 2 e 3 possuem significado simbólico, pois podem ser vistas como estados básicos da igreja cristã, ao longo de sua história. Éfeso é a igreja no final da era apostólica. Esmirna, a igreja sob a perseguição romana. Pérgamo, a igreja aliada ao Império, após a conversão de Constantino. Tiatira, a igreja medieval apóstata. Sardes, a igreja parcialmente reformada. Filadélfia a igreja no estado avançado de restauração. Não dizemos que cada uma dessas igrejas possui um estado ou condição distinta?
Porém, se assim é, Filadélfia, a igreja louvada por Deus, é o estado em que prevalece o amor fraternal. Que quer dizer Filadélfia, a não ser philéo adelphói, amor entre irmãos? A igreja no estado avançado de restauração não é a igreja numa cidade. Todas as sete são igrejas em cidades. Mas Filadélfia e só ela é a igreja do amor fraternal, a igreja da comunhão ardente, do afeto sem barreiras, não da mera posição correta.
A comunhão dos apóstolos é mencionada no texto grego de Atos 2:42. A melhor tradução desse verso parece ser: “E perseveravam no ensino e na comunhão dos apóstolos”. Nem Atos 2:42, nem o testemunho que o livro inteiro presta da igreja primitiva têm foco numa comunhão qualquer. Os primeiros cristãos não perseveravam numa comunhão genérica, mas na comunhão específica e ortodoxa dos apóstolos.
Cada grupo religioso, cada sociedade, cada agremiação tem a sua ordem interna, a sua comunhão particular. Ninguém transitará bem na Congregação Cristã no Brasil, com livros diferentes da Bíblia em baixo do braço. A comunhão própria da Congregação não o admite. Numa denominação histórica não se permitem práticas pentecostais. Por isso, alguém que busque os carismas não será bem recebido em seu círculo. A comunhão histórica vive o bastante para não o permitir.
Quem está em condição de negar que, nos vários grupos cristãos, vigoram outras comunhões, além da dos apóstolos? Cada cabeça uma sentença, cada sentença um mestre. Cada denominação tem a sua comunhão; cada comunhão, uma unidade. Não nego que existam unidade e comunhão nas denominações. Nego que prevaleçam nelas a unidade e a comunhão ortodoxas.
Isso deve servir de advertência a todos os que confessam o seu compromisso com a restauração da unidade. Particularmente a nós [nas Igrejas Locais]. Sem o amor que vence barreiras, a unidade está morta. Em Filadélfia, philéo não indica o amor mais elevado, o amor próprio de Deus, que em grego é agápe. Philéo é um amor mais tendente à amizade. Não que o amor sublime, agápe, não se encontre em Filadélfia. Mas agápe é tão elevado que não se manifesta a todo momento. Nenhum amor pode ser verdadeiro sem ser sincero. E nenhum amor humano pode ser sincero, sendo sempre sublime.
Essa é a marca de Filadélfia: o amor-amizade entre irmãos. O amor singelo, que nada esconde, tudo abre, tudo traz para a luz de Deus. Tal amor é também comunhão, é ausência total de condição para a convivência. Nesse amor se sumaria a unidade.
sábado, 8 de junho de 2013
Livre Exame de Romanos (9): A Imputação da Justiça
Frequentemente, ouvimos dizer da experiência de Lutero, na torre, quando ele leu a citação de Habacuque por Paulo (“O justo viverá pela fé”). Ali, Lutero creu que Deus justifica o homem pela fé, independentemente de obras. Sua experiência costuma ser narrada para ressaltar a importância da descoberta de que o homem é incapaz de agradar a Deus, que o salva gratuitamente, por meio da redenção de Cristo. Porém, muito antes dela, a justificação pela fé fora descoberta por Paulo e mudara a sua vida para sempre. É o que verificamos à luz de Romanos.
Claramente, o ato de restituição do penhor ao pobre é imputado como justiça. Semelhantemente, doações a pessoas necessitadas também resultavam na justificação do doador: “Distribui, dá aos pobres; a sua justiça permanece para sempre” (Sl 112:9). O próprio Fineias, sacerdote, foi justificado por eliminar a causa da peste que aniquilava os israelitas: “Então, se levantou Fineias e executou o juízo; e cessou a peste. Isso lhe foi imputado por justiça” (Sl 106:30-31).
Tudo isso aponta para a existência de uma justiça relacionada à lei. Paulo a reconhece plenamente, pois lembra que “Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela” (Rm 10:5). Ele se refere a Levítico 18:5, em que Deus ordena: “Os meus estatutos e os meus juízos guardareis; cumprindo os quais o homem viverá”. Há aqui uma promessa de vida eterna, não gratuita, mas condicionada a determinadas obras. O problema é que o preenchimento da condição para obter o cumprimento da promessa é impossível, não porque seja difícil, já que Deuteronômio afirma “Este mandamento, que hoje te ordeno, não é demasiado difícil” (Dt 30:11), mas porque o homem tornou-se enfermo e incapaz de guardar a lei, por causa do pecado.
A impressão que se tem é de que a inviabilidade da justiça da lei infelicitou tão enormemente a Paulo (como a Lutero depois) que ele se pôs a buscar a resolução do problema, por todo o Antigo Testamento. É o que transparece das citações de Gênesis 15:6 e Salmo 32:1-2, em Romanos 4:3,7-8. Esses versos são agulhas retiradas por Paulo do vasto palheiro do Antigo Testamento, já que não se repetem, nem têm paralelos em outros textos.
Paulo aprofunda a sua descoberta dos versos misteriosos até onde lhe é possível. Extrai conclusões não da superfície deles, mas das suas profundezas. A que mais se destaca é o sentido do verbo imputar, cuja presença ele percebe tanto em Gênesis como no Salmo 32. E, por percebê-la, cita repetidamente a palavra, em Romanos 4. Às vezes Paulo a traduz imputar, outras vezes atribuir, ainda outras levar em conta, mas não se cansa de se referir à grande descoberta, como se nota nos seguintes trechos:
“Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça [...] Ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça [...] Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras [...] Bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado [...] Dizemos: A fé foi imputada a Abraão para justiça. Como, pois, lhe foi atribuída? [...] Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça. E não somente por causa dele está escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus nosso Senhor” (4:3, 5-6,8,9-10, 22-24).
Nove vezes e em nove versículos, Paulo usa os verbos imputar, atribuir e levar em conta. Mostra, por meio deles, que, além da justiça da lei, há outra doada por Deus ao homem. Essa é a justiça da fé, a justiça atribuída ao que simplesmente crê, a justiça que mudou a vida de Paulo, a de Lutero e a própria História do mundo, libertando os homens da opressão do pecado e da lei.
Paulo se bate pela anterioridade dessa justiça à da lei. A justiça da fé manifestou-se a Abraão; a da lei veio séculos mais tarde, por meio de Moisés. Por ser anterior à lei, a justiça da fé é mais fundamental do que ela. Não só isso: a experiência das duas justiças é descrita com verbos distintos por Paulo. A justiça da lei manifestou-se, mas não pôde ser alcançada, pois o pecado tornara o homem incapaz de obtê-la. Quanto à da fé, Paulo abre o capítulo 4, indicando que Abraão a “alcançou”. Escancara esse fato e o põe em contraste com a justiça da lei, que se revelou, mas não foi jamais alcançada. O apóstolo indaga com ênfase: “Que diremos ter alcançado Abraão?” (4:1). Não importa só conhecer a justiça. Importa alcançá-la, como Abraão a alcançou.
Com base em Paulo, Santo Agostinho indica o motivo por que o homem não pôde alcançar a justiça da lei: “O livre arbítrio existiu perfeitamente no primeiro homem, mas em nós, antes da graça, não há o livre arbítrio de modo que não pequemos, mas somente de modo a não querermos pecar. Mas a graça faz com que não somente queiramos agir retamente, mas também com que o consigamos” (HIPONA, Agostinho de. Explicação de algumas proposições da Carta aos Romanos. São Paulo: Paulus, 2009. p. 26).
Infelizmente, a justiça da fé, descoberta por Paulo, perdeu-se na História que se seguiu. A consequência máxima da perda se vê na Idade Média, quando a hierarquia da Igreja Católica enfatizou a tal ponto a justificação pelas obras, para vender indulgências e outros benefícios, que o povo mergulhou em profunda superstição. A Reforma foi a reação inevitável a esse estado de coisas.
A crise assim instalada colocou as duas justiças face a face. Pouco antes do Concílio de Trento (1545-1563), teólogos católicos e protestantes chegaram a um consenso sobre o problema, no Colóquio de Ratisbona, ocorrido em 1541. Esse foi um momento histórico crucial, pois nele o rasgo iniciado com a Reforma esteve a ponto de cerzir-se. O consenso alcançado em Ratisbona, que se tornou conhecido como “fórmula da dupla justiça”, consistiu em afirmar que as obras anteriores à justificação do pecador não o auxiliam a obtê-la, mas as posteriores lhe são imputadas para justiça.
Infelizmente, o Concílio de Trento não só rejeitou a dupla justiça como aprovou, consecutivamente, a doutrina da colaboração do homem na justificação, a eficácia dos sacramentos, independentemente da fé, a atualização do sacrifício de Cristo na missa, a autoridade exclusiva da hierarquia eclesiástica, o purgatório e as orações aos santos. Assim, o desvio da justificação pela fé obteve um fôlego novo e se comunicou aos séculos que se seguiram.
Mas a justificação exposta em Romanos não se perdeu apenas na Idade Média. Ainda hoje, ela é frequentemente reduzida a experiência única, ocorrida no início da caminhada espiritual do homem com Deus. É inegável que a imputação inicial de justiça é um aspecto da justificação pela fé, mas não é o único. Não é possível reduzir a justificação a esse aspecto. Em Romanos 4:18-22, o apóstolo diz que “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé [...] não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça”.
O versículo 18 refere-se à primeira experiência de fé de Abraão. A promessa nele citada (“Assim será a tua descendência”) antecede a frase decisiva do Antigo Testamento: “Creu Abraão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:5-6). Retrata, portanto, a atribuição inicial de justiça ao patriarca. Mas o versículo 22 indica que Abraão foi novamente justificado por Deus, ao alcançar convicção de que Deus era poderoso para cumprir a promessa de lhe dar novo filho.
Isso mostra que a fé e a atribuição de justiça não ocorrem só uma vez, na vida de cada indivíduo. São um trato contínuo de Deus com ele. Ao longo de toda a vida, o homem recebe a imputação da justiça. Ele é justificado por fé várias vezes. A partir da primeira justificação, suas obras passam a contar diante de Deus, porém não sem a fé ou desacompanhadas dela. Por isso é que o autor de Tiago reivindicou o papel das obras na salvação. A que exemplo ele recorreu, ao reivindicá-lo? Ao de Abraão, pois disse: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e foi chamado amigo de Deus. Verificais que a pessoa é justificada por obras e não por fé somente” (Tg 2:21-24).
Tiago depositou a fé no interior das obras. Viu, pois, as obras como locus natural da fé. Além de teológica, sua posição é antropológica. Indica que sentimentos como a fé nascem de experiências concretas. Não são abstratos. Podemos não só concordar com ele como admitir que o princípio que ele afirmou é universal. Vigora tanto antes como depois da primeira justificação. De sorte que, nesta, a fé já está misturada às obras. Não a boas obras, é bem verdade, mas a pecados, pois tudo e não apenas parte do que o homem realiza antes de crer é pecado.
De acordo com esse princípio, a experiência de imputação da justiça não ocorre uma única vez, mas ao longo de toda a vida daqueles que creem. Por isso Paulo afirma que Abraão creu inicialmente em Deus e aquilo lhe foi imputado para justiça e também que ele creu em Deus, muito mais tarde, o que também foi declarado como um ato de justiça. Esse parece ser o significado da expressão com que Paulo abre a sua epístola, ao afirmar que a justiça de Deus se revela no evangelho "de fé em fé". De fato, o homem não crê uma só vez, mas muitas para justiça. Por isso ele vive de fé em fé.
O significado implícito e explícito dessa ordem de ideias é que a fé é tudo. É que Deus não deixou uma só parte da experiência de salvação fora da fé, assim como não deixou uma só parte da fé fora de seu amado Filho. Ser salvo é crer, e crer é crer em Jesus Cristo. Nesse sentido, a justiça de Deus se revela no evangelho de fé em fé, cobrindo absolutamente todas as experiências válidas e eficazes de salvação.
A própria fé que o homem possui, antes de ser recriada pela imputação de Deus, é pecado. O homem crê, mas sua fé não tem força salvífica. É até mesmo pecado. Como poderia o pecador acumular insultos a Deus, esmagar o seu próximo, e a fé tudo apagar, sem o favor de Deus? Somos salvos por fé, porque Deus no-la imputa como justiça, não porque ela tenha o poder intrínseco de nos salvar.
O que torna a fé proveitosa não é ela própria, nem algo inerente a ela. É a imputação de Deus. Deus imputa a fé como justiça, o que lhe comunica a eficácia ou poder de produzir a justiça. Assim, concluímos que, antes da justificação, as obras são imputadas ao homem como pecados; quando ele crê em Cristo, sua fé lhe é imputada para justiça. E, depois que o homem crê, como o exemplo de Abraão esclarece, a fé continua a lhe ser imputada para justiça.
Esse renascimento da fé, pela imputação, é uma recriação do ato de crer. É o que se chama o dom da fé. A fé é muitas vezes vista como ato inteiramente humano, mas não o é. Hebreus 12:2 chama Jesus autor da nossa fé. Atribui-lhe com isso o ato de crer. João também afirma: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que me enviou” (Jo 6:29). Mas, se crer é obra de Deus, a fé é uma criação dele. Por isso, o original de Gálatas 2:20 menciona a fé do (não no) Filho de Deus, indicando que Cristo é a sua fonte, não nós.
Nesse sentido, a justificação pela fé é um trato contínuo de Deus com o homem, não uma experiência isolada ou única. Nada temos que não tenhamos recebido, afirma Paulo (1 Co 4:7). Na sua declaração, está implícito: exceto pecados. Não é correto supor que o homem nada tenha absolutamente. Ele tem suas obras. Mas tampouco é correto afirmar que essas obras são qualquer outra coisa, em si mesmas, além de pecados. Do mesmo modo, o livre arbítrio é capaz de muitas coisas. É capaz, inclusive, de querer agradar a Deus. Mas só é capaz de o querer eficazmente por meio da imputação de Deus.
A imputação divina é a doação de significado e eficácia a tudo o que existe. Na esfera moral, nada encontra em si mesmo o seu sentido. Tudo possui o sentido que Deus lhe imputa. É a consequência, no plano moral, de Deus ter criado e conservar todas as coisas por seu imenso poder. A revelação nos ensina que Deus tudo criou para tudo preencher. Por isso, a sua declaração de mais amplo alcance talvez seja que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17:28). Por que Deus, que criou e preenche todas as coisas, abandonaria a esfera moral à luta dos opostos? Deus não a pode ter abandonado, se encabeça essa ordem como o seu vértice. Se, pela imputação da justiça, decide os destinos dos espíritos.
Claramente, o ato de restituição do penhor ao pobre é imputado como justiça. Semelhantemente, doações a pessoas necessitadas também resultavam na justificação do doador: “Distribui, dá aos pobres; a sua justiça permanece para sempre” (Sl 112:9). O próprio Fineias, sacerdote, foi justificado por eliminar a causa da peste que aniquilava os israelitas: “Então, se levantou Fineias e executou o juízo; e cessou a peste. Isso lhe foi imputado por justiça” (Sl 106:30-31).
Tudo isso aponta para a existência de uma justiça relacionada à lei. Paulo a reconhece plenamente, pois lembra que “Moisés escreveu que o homem que praticar a justiça decorrente da lei viverá por ela” (Rm 10:5). Ele se refere a Levítico 18:5, em que Deus ordena: “Os meus estatutos e os meus juízos guardareis; cumprindo os quais o homem viverá”. Há aqui uma promessa de vida eterna, não gratuita, mas condicionada a determinadas obras. O problema é que o preenchimento da condição para obter o cumprimento da promessa é impossível, não porque seja difícil, já que Deuteronômio afirma “Este mandamento, que hoje te ordeno, não é demasiado difícil” (Dt 30:11), mas porque o homem tornou-se enfermo e incapaz de guardar a lei, por causa do pecado.
A impressão que se tem é de que a inviabilidade da justiça da lei infelicitou tão enormemente a Paulo (como a Lutero depois) que ele se pôs a buscar a resolução do problema, por todo o Antigo Testamento. É o que transparece das citações de Gênesis 15:6 e Salmo 32:1-2, em Romanos 4:3,7-8. Esses versos são agulhas retiradas por Paulo do vasto palheiro do Antigo Testamento, já que não se repetem, nem têm paralelos em outros textos.
Paulo aprofunda a sua descoberta dos versos misteriosos até onde lhe é possível. Extrai conclusões não da superfície deles, mas das suas profundezas. A que mais se destaca é o sentido do verbo imputar, cuja presença ele percebe tanto em Gênesis como no Salmo 32. E, por percebê-la, cita repetidamente a palavra, em Romanos 4. Às vezes Paulo a traduz imputar, outras vezes atribuir, ainda outras levar em conta, mas não se cansa de se referir à grande descoberta, como se nota nos seguintes trechos:
“Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça [...] Ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica ao ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça [...] Davi declara ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras [...] Bem-aventurado o homem a quem o Senhor jamais imputará pecado [...] Dizemos: A fé foi imputada a Abraão para justiça. Como, pois, lhe foi atribuída? [...] Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça. E não somente por causa dele está escrito que lhe foi levado em conta, mas também por nossa causa, posto que a nós igualmente nos será imputado, a saber, a nós que cremos naquele que ressuscitou dentre os mortos a Jesus nosso Senhor” (4:3, 5-6,8,9-10, 22-24).
Nove vezes e em nove versículos, Paulo usa os verbos imputar, atribuir e levar em conta. Mostra, por meio deles, que, além da justiça da lei, há outra doada por Deus ao homem. Essa é a justiça da fé, a justiça atribuída ao que simplesmente crê, a justiça que mudou a vida de Paulo, a de Lutero e a própria História do mundo, libertando os homens da opressão do pecado e da lei.
Paulo se bate pela anterioridade dessa justiça à da lei. A justiça da fé manifestou-se a Abraão; a da lei veio séculos mais tarde, por meio de Moisés. Por ser anterior à lei, a justiça da fé é mais fundamental do que ela. Não só isso: a experiência das duas justiças é descrita com verbos distintos por Paulo. A justiça da lei manifestou-se, mas não pôde ser alcançada, pois o pecado tornara o homem incapaz de obtê-la. Quanto à da fé, Paulo abre o capítulo 4, indicando que Abraão a “alcançou”. Escancara esse fato e o põe em contraste com a justiça da lei, que se revelou, mas não foi jamais alcançada. O apóstolo indaga com ênfase: “Que diremos ter alcançado Abraão?” (4:1). Não importa só conhecer a justiça. Importa alcançá-la, como Abraão a alcançou.
Com base em Paulo, Santo Agostinho indica o motivo por que o homem não pôde alcançar a justiça da lei: “O livre arbítrio existiu perfeitamente no primeiro homem, mas em nós, antes da graça, não há o livre arbítrio de modo que não pequemos, mas somente de modo a não querermos pecar. Mas a graça faz com que não somente queiramos agir retamente, mas também com que o consigamos” (HIPONA, Agostinho de. Explicação de algumas proposições da Carta aos Romanos. São Paulo: Paulus, 2009. p. 26).
Infelizmente, a justiça da fé, descoberta por Paulo, perdeu-se na História que se seguiu. A consequência máxima da perda se vê na Idade Média, quando a hierarquia da Igreja Católica enfatizou a tal ponto a justificação pelas obras, para vender indulgências e outros benefícios, que o povo mergulhou em profunda superstição. A Reforma foi a reação inevitável a esse estado de coisas.
A crise assim instalada colocou as duas justiças face a face. Pouco antes do Concílio de Trento (1545-1563), teólogos católicos e protestantes chegaram a um consenso sobre o problema, no Colóquio de Ratisbona, ocorrido em 1541. Esse foi um momento histórico crucial, pois nele o rasgo iniciado com a Reforma esteve a ponto de cerzir-se. O consenso alcançado em Ratisbona, que se tornou conhecido como “fórmula da dupla justiça”, consistiu em afirmar que as obras anteriores à justificação do pecador não o auxiliam a obtê-la, mas as posteriores lhe são imputadas para justiça.
Infelizmente, o Concílio de Trento não só rejeitou a dupla justiça como aprovou, consecutivamente, a doutrina da colaboração do homem na justificação, a eficácia dos sacramentos, independentemente da fé, a atualização do sacrifício de Cristo na missa, a autoridade exclusiva da hierarquia eclesiástica, o purgatório e as orações aos santos. Assim, o desvio da justificação pela fé obteve um fôlego novo e se comunicou aos séculos que se seguiram.
Mas a justificação exposta em Romanos não se perdeu apenas na Idade Média. Ainda hoje, ela é frequentemente reduzida a experiência única, ocorrida no início da caminhada espiritual do homem com Deus. É inegável que a imputação inicial de justiça é um aspecto da justificação pela fé, mas não é o único. Não é possível reduzir a justificação a esse aspecto. Em Romanos 4:18-22, o apóstolo diz que “Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé [...] não duvidou da promessa de Deus, por incredulidade; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera. Pelo que isso lhe foi também imputado para justiça”.
O versículo 18 refere-se à primeira experiência de fé de Abraão. A promessa nele citada (“Assim será a tua descendência”) antecede a frase decisiva do Antigo Testamento: “Creu Abraão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça” (Gn 15:5-6). Retrata, portanto, a atribuição inicial de justiça ao patriarca. Mas o versículo 22 indica que Abraão foi novamente justificado por Deus, ao alcançar convicção de que Deus era poderoso para cumprir a promessa de lhe dar novo filho.
Isso mostra que a fé e a atribuição de justiça não ocorrem só uma vez, na vida de cada indivíduo. São um trato contínuo de Deus com ele. Ao longo de toda a vida, o homem recebe a imputação da justiça. Ele é justificado por fé várias vezes. A partir da primeira justificação, suas obras passam a contar diante de Deus, porém não sem a fé ou desacompanhadas dela. Por isso é que o autor de Tiago reivindicou o papel das obras na salvação. A que exemplo ele recorreu, ao reivindicá-lo? Ao de Abraão, pois disse: “Não foi por obras que Abraão, o nosso pai, foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque? Vês como a fé operava juntamente com as suas obras; com efeito, foi pelas obras que a fé se consumou, e se cumpriu a Escritura, a qual diz: Ora, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça; e foi chamado amigo de Deus. Verificais que a pessoa é justificada por obras e não por fé somente” (Tg 2:21-24).
Tiago depositou a fé no interior das obras. Viu, pois, as obras como locus natural da fé. Além de teológica, sua posição é antropológica. Indica que sentimentos como a fé nascem de experiências concretas. Não são abstratos. Podemos não só concordar com ele como admitir que o princípio que ele afirmou é universal. Vigora tanto antes como depois da primeira justificação. De sorte que, nesta, a fé já está misturada às obras. Não a boas obras, é bem verdade, mas a pecados, pois tudo e não apenas parte do que o homem realiza antes de crer é pecado.
De acordo com esse princípio, a experiência de imputação da justiça não ocorre uma única vez, mas ao longo de toda a vida daqueles que creem. Por isso Paulo afirma que Abraão creu inicialmente em Deus e aquilo lhe foi imputado para justiça e também que ele creu em Deus, muito mais tarde, o que também foi declarado como um ato de justiça. Esse parece ser o significado da expressão com que Paulo abre a sua epístola, ao afirmar que a justiça de Deus se revela no evangelho "de fé em fé". De fato, o homem não crê uma só vez, mas muitas para justiça. Por isso ele vive de fé em fé.
O significado implícito e explícito dessa ordem de ideias é que a fé é tudo. É que Deus não deixou uma só parte da experiência de salvação fora da fé, assim como não deixou uma só parte da fé fora de seu amado Filho. Ser salvo é crer, e crer é crer em Jesus Cristo. Nesse sentido, a justiça de Deus se revela no evangelho de fé em fé, cobrindo absolutamente todas as experiências válidas e eficazes de salvação.
A própria fé que o homem possui, antes de ser recriada pela imputação de Deus, é pecado. O homem crê, mas sua fé não tem força salvífica. É até mesmo pecado. Como poderia o pecador acumular insultos a Deus, esmagar o seu próximo, e a fé tudo apagar, sem o favor de Deus? Somos salvos por fé, porque Deus no-la imputa como justiça, não porque ela tenha o poder intrínseco de nos salvar.
O que torna a fé proveitosa não é ela própria, nem algo inerente a ela. É a imputação de Deus. Deus imputa a fé como justiça, o que lhe comunica a eficácia ou poder de produzir a justiça. Assim, concluímos que, antes da justificação, as obras são imputadas ao homem como pecados; quando ele crê em Cristo, sua fé lhe é imputada para justiça. E, depois que o homem crê, como o exemplo de Abraão esclarece, a fé continua a lhe ser imputada para justiça.
Esse renascimento da fé, pela imputação, é uma recriação do ato de crer. É o que se chama o dom da fé. A fé é muitas vezes vista como ato inteiramente humano, mas não o é. Hebreus 12:2 chama Jesus autor da nossa fé. Atribui-lhe com isso o ato de crer. João também afirma: “A obra de Deus é esta: que creiais naquele que me enviou” (Jo 6:29). Mas, se crer é obra de Deus, a fé é uma criação dele. Por isso, o original de Gálatas 2:20 menciona a fé do (não no) Filho de Deus, indicando que Cristo é a sua fonte, não nós.
Nesse sentido, a justificação pela fé é um trato contínuo de Deus com o homem, não uma experiência isolada ou única. Nada temos que não tenhamos recebido, afirma Paulo (1 Co 4:7). Na sua declaração, está implícito: exceto pecados. Não é correto supor que o homem nada tenha absolutamente. Ele tem suas obras. Mas tampouco é correto afirmar que essas obras são qualquer outra coisa, em si mesmas, além de pecados. Do mesmo modo, o livre arbítrio é capaz de muitas coisas. É capaz, inclusive, de querer agradar a Deus. Mas só é capaz de o querer eficazmente por meio da imputação de Deus.
A imputação divina é a doação de significado e eficácia a tudo o que existe. Na esfera moral, nada encontra em si mesmo o seu sentido. Tudo possui o sentido que Deus lhe imputa. É a consequência, no plano moral, de Deus ter criado e conservar todas as coisas por seu imenso poder. A revelação nos ensina que Deus tudo criou para tudo preencher. Por isso, a sua declaração de mais amplo alcance talvez seja que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” (At 17:28). Por que Deus, que criou e preenche todas as coisas, abandonaria a esfera moral à luta dos opostos? Deus não a pode ter abandonado, se encabeça essa ordem como o seu vértice. Se, pela imputação da justiça, decide os destinos dos espíritos.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Livre Exame de Romanos (8): Abraão, Pai da Incircuncisão
Em Romanos 4, Paulo fundamentou a justificação pela fé em Abraão. Porém, a menção desse patriarca soava de um modo no primeiro século, soa de outro hoje. Poucos especialistas em ciências bíblicas reconhecem que Abraão existiu. Parte deles o considera uma figura lendária; outra parte pensa que resultou da fusão de vários ancestrais dos judeus, cujas histórias foram transmitidas de geração em geração.
A redução da narrativa bíblica a lenda é problemática, pois supõe ter sido inventada. Difícil é que histórias tão detalhadas e internamente concatenadas tenham sido simplesmente imaginadas. Porém, a teoria da fusão de personagens não é tão problemática quanto a da lenda e ainda apresenta a vantagem de se conformar ao processo pelo qual o Pentateuco se constituiu. O historiador judeu Georg Fohrer resume esse processo da seguinte maneira: “Quando a primeira narrativa básica [do Pentateuco] foi sendo formada, muitas outras tradições primitivas foram incorporadas: listas (Gn 22:20-24; 25:1-6; 36:31-39), narrativas concernentes à história das tribos e nações (Gn 16:4-14; 19:30-38; 21:8-21; 25:21-26a, 29-34; 29—30; 34; 38:27-30); sagas da natureza (Gn 19; Êx 16—17; Nm 11; 20); pequenas histórias (Gn 12:10ss; 20; 24; 26)” (FOHRER, Georg. História da religião de Israel. São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2008. p. 153).
Fohrer adere à teoria de que o Pentateuco é uma compilação de histórias transmitidas independentemente. Os versículos citados por ele são exemplos de narrativas reunidas, quando os judeus começaram a compor uma história coesa da sua nação, por volta de 1.200 a. C. A maior parte deles pertence ao Livro de Gênesis. Por isso, ajuda-nos a entender como as histórias sobre Abraão se formaram.
Se Abraão é um aglutinado de várias figuras antigas, umas bem conhecidas, outras não, a fusão das histórias a seu respeito pode ter ocorrido, quando a narrativa básica mencionada por Fohrer foi reduzida a escrito. Um autor bíblico desconhecido coseu as histórias umas nas outras, de modo a formar a biografia de um homem. Essa é, hoje, a visão mais provável do processo de formação do relato bíblico sobre Abraão.
Porém, a transformação do texto não estancou com a elaboração do primeiro Pentateuco. Na época de Jesus e de Paulo, muitas histórias sobre Abraão tinham sido acrescidas às que o Antigo Testamento transmite. Isso indica que a transformação da história básica de Abraão prosseguira. Uma parte dos acréscimos encontra-se na literatura apócrifa dos judeus. Outra parte foi incorporada, mais tarde, ao Talmude.
Os fariseus, partido mais numeroso e influente da época, criam tanto na inspiração divina das histórias bíblicas quanto nesses acréscimos. Aos seus ouvidos, os nomes de Adão, Abraão e Moisés evocavam mais do que as narrativas da Bíblia estabelecem a respeito deles. Por isso, é interessante recordar como Jesus e os primeiros cristãos trataram essas crenças.
Sabemos que Jesus combateu o costume fariseu de aceitar todo acréscimo à Lei e aos Profetas que circulava na sua época. Porém, as suas declarações sobre isso, em Mateus 15:1-6, são frequentemente distorcidas. Jesus apontou incoerências não percebidas entre algumas tradições orais dos judeus e as Escrituras. Disse, por exemplo, que a dispensa da obrigação de honrar pai e mãe, por meio de uma doação, violava o espírito dos Dez Mandamentos. Nas suas exatas palavras: "Por que transgredis vós o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe e Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: É oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou a sua mãe" (Mt 15:3-6).
Os fariseus eram os primeiros a reconhecerem que as Escrituras se situavam num plano superior ao das tradições orais que circulavam. Eles viam as tradições como comentários e adendos às Escrituras. Portanto, como acessórios do principal, que era a Bíblia. O historiador Flávio Josefo deixa isso claro na sua Resposta a Ápio. O problema é que os fariseus não reconheciam as incoerências entre as tradições e a Bíblia. Jesus apontou essas incoerências e acusou os escribas e fariseus de transgredirem o mandamento de Deus por apego a elas. De modo nenhum, porém, isso implica que Jesus tenha incidido no contrário do que os fariseus praticavam, isto é, que ele tenha anulado as tradições por meio da Bíblia.
As próprias Escrituras citam e aceitam partes da Tradição. O autor de Timóteo, por exemplo, adotou os nomes dos opositores egípcios de Moisés criados pela Tradição (2 Tm 3:8). E Jesus, ao condenar os escribas e fariseus por observarem as menores coisas da lei em prejuízo das maiores, não disse que os seus seguidores deviam desconsiderar aquelas, mas que deviam “fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23:23).
Será que, entre as menores coisas que os discípulos deviam praticar, não estavam incluídas as ordenanças da Tradição? Certamente estavam. Por isso também, Jesus ordenou a seus discípulos guardarem “tudo quanto” os escribas e os fariseus lhes ensinavam (Mt 23:3). Na palavra tudo, estão abrangidas as tradições.
Porém, há outro dado que ajuda a entender como os judeus concebiam a relação da Escritura com a Tradição. Trata-se do hábito dos copistas e autores do Antigo Testamento de só inserirem no texto bíblico citações dele próprio, nunca da Tradição. Chamarei autorreferência esse hábito, que só aqui e ali é excetuado por uma menção a Janes e Jambres ou ao livro apócrifo de Enoque (Jd 14).
Mais que qualquer outra característica, a autorreferência põe em relevo o papel exclusivo da Bíblia como revelação divina. Se Deus se comunica com os homens de muitas maneiras, o fato de a Bíblia nunca nos remeter diretamente a outra palavra além das que ela própria transmite diferencia as Escrituras das demais comunicações de Deus com seu povo. Torna-as um nível especial da palavra de Deus aos homens.
De fato, os livros da Bíblia fazem numerosas citações diretas, porém quase nunca de obras externas a eles. Contudo, essa autorreferência habitual não exclui as outras fontes da revelação a que damos o nome de Tradição. Sem a autorreferência, teríamos de adotar a contradição como único critério para limitar a diversidade no interior da revelação. Assim, só poderíamos eliminar da revelação oráculos conflitantes. Graças à autorreferência, podemos estabelecer um limite diferente. Podemos considerar que as tradições que contradizem outras, mas não contradizem a Bíblia são parte da palavra de Deus. Desse modo, uma diversidade maior de oráculos se torna possível no âmago da revelação.
A autorreferência, portanto, não exclui a Tradição. Pelo contrário, ela amplia o número de proposições que podem ser aceitas como palavra de Deus, ao deslocar o critério de exclusão da contradição em geral para a contradição com os pontos fundamentais da Bíblia.
Mas, se Jesus admitia as regras e as histórias da Tradição que não excluíam os princípios centrais das Escrituras, não devemos concluir que o Adão, o Abraão, o Moisés, o Davi, o Salomão, o Jonas e o Daniel aos quais ele se referiu eram mais elásticos do que costumamos pensar? Não devemos supor que eles continham nuanças, como as histórias sobre Abraão transmitidas pela Tradição?
Sob essa perspectiva, não há razão para não admitirmos que Abraão resulte da fusão de vários patriarcas. Se as personagens do Antigo Testamento, em geral, eram mistos de dados da Bíblia e da Tradição, por que os relatos sobre a época patriarcal não podem ter-se fundido, de modo a formar a história de Abraão? Não há nessa fusão qualquer anormalidade. Pelo contrário, é a própria essência do processo de combinação das palavras da Bíblia com as da Tradição.
Estou a propor que Abraão não existiu? Que não fez o que a Bíblia afirma que fez? Ou que Deus não disse a ele o que Gênesis narra? De modo nenhum. Existiram adoradores de Deus que fizeram o que a Bíblia atribui a Abraão. Deus deu-lhes promessas e mandamentos. Porém, os nomes de alguns ou de todos eles e certos detalhes das suas histórias perderam-se. Só o que sobrou foi reunido, de modo a compor a vida de Abraão como a conhecemos.
O que firmei até este ponto não nos deixa com mais do que uma nuvem de personagens, histórias transmitidas oralmente e costumes de época. Abraão parece ser essa nuvem. No entanto, o Abraão bíblico, mesmo quando levamos em conta todas as lições aproveitáveis da Crítica Histórica e Literária, parece mais sólido do que tal nuvem. E, se for mesmo assim, crer na existência de um ou dois homens que viveram parte da saga atribuída a Abraão pode não ser necessariamente um erro. A multiplicidade de histórias sobre o patriarca e o grau de detalhamento do seu conteúdo parecem falar-nos de fatos reais, que se tornaram históricos. Por outro lado, parece fora do campo do possível que um ou mais escribas tenham inventado elatos tão numerosos, detalhados e concatenados, poderíamos acrescentar: relatos tão significativos e belos quanto os de Gênesis sobre Abraão. Até porque, se tais escribas tiverem existido e criado o Abraão bíblico, estaremos diante de uma verdadeira teoria da conspiração e não me parece que textos se expliquem por semelhantes teorias.
Contudo, na era da ciência, precisamos explicar um pouco melhor o Abraão bíblico, se quisermos conferir-lhe solidez parecida com a que, por séculos, a letra da Bíblia lhe atribuiu. Precisamos, ao menos, mostrar como as histórias a respeito dele podem ter-se formado. Não tenho, a esse respeito, uma explicação pronta para fornecer. Mas tenho desconfianças e ideias vagas, que em mim se constituíram, durante o estudo cuidadoso dos textos. Por exemplo, se pudermos reunir e compactar em Abraão não só a nuvem de personagens e as linhas gerais das histórias, mas também os detalhes a respeito delas, enfim se pudermos aceitar que esses detalhes não são sinais de invenção, mas de transmissão de fatos verdadeiros, estaremos em condições de concluir que, ao lado da tradição oral, relatos escritos podem ter sido compostos sobre uma ou duas personagens denominada(s) Abraão. E, se a veneração dos textos tiver sido levada tão longe quanto a das histórias orais, não será impossível que, num momento da História, relatos semelhantes aos que hoje lemos sobre Abraão tenham sido compostos. O livro de Moisés, mencionado em Êxodo 17:14, é um candidato a conter tais relatos. Talvez incluísse versões embrionárias ou desenvolvidas das sagas de Abraão, Isaque, Jacó e do Êxodo. A possibilidade de ter sido realmente assim aumentará, se considerarmos que alguns hebreus primitivos não eram iletrados, mas cultivavam a escrita (possivelmente o semítico ocidental) e possuíam as condições necessárias para terem sido os transmissores dos textos primitivos sobre Abraão.
Não desenvolvo essas conjecturas para enaltecer ou diminuir a figura de Abraão. Meu objetivo é somente entendê-lo melhor. Tudo considerado, o patriarca bíblico não é simplesmente o da letra: é o da verdade, seja qual for e esteja onde estiver. Interpretar a Bíblia é amar essa verdade, ainda que se apresente fluida, como no caso de Abraão. A figura arrancada à letra de Gênesis não é o pai de muitas nações. É a sua caricatura, uma estátua de letra, um ídolo. O Abraão verdadeiro é imaterial e volátil como as tradições que o originaram. Mesmo assim, é portador dos princípios da salvação pela fé que Paulo tanto encarece e dos quais vivemos. Pois “o justo viverá pela fé”.
Paulo chama Abraão pai da incircuncisão. É nisso mais do que ousado. É quase temerário, como é próprio dos espíritos livres, quando pressionados, forçados a se inclinar ante interpretações literais. Fácil é ver que Abraão é o pai dos judeus. Basta ler as genealogias de Gênesis para o compreender. Basta atentar à letra e curvar-se a ela. Mas, para entender que ele é o pai da incircuncisão, demanda-se mais, muito mais. Demanda-se liberdade de espírito.
Não diz a Bíblia que Abraão se circuncidou? Como pode ter sido pai e exemplo para incircuncisos? De que parte surgiram as nações que não cultivam o costume de se circuncidar? Ainda uma vez, as genealogias respondem: de Abraão. Mas, se nasceram dele, o não praticarem a circuncisão não é um sinal de desobediência, assim como Israel praticá-la é sinal de fé? E não quebraram as nações, portanto, a tradição de seu pai? Paulo ousa apartar-se desse modo de pensar. De acordo com ele, “a fé foi imputada a Abraão para justiça. Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso? Não no regime da circuncisão, e, sim, quando incircunciso. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados” (4:11).
O apóstolo liga a justiça à incircuncisão, pois Abraão creu, e isso lhe foi imputado para justiça, quando era incircunciso. Desse fato ele extrai que os gentios precisam crer, mas não se circuncidar. Reconhece que Deus ordenou a Abraão circuncidar-se e denominou a circuncisão aliança entre ele e a descendência do patriarca. Mas Paulo acredita que a prática da circuncisão não é obrigatória. Verdade é que ele circuncidou Timóteo, mas o fez como concessão aos judeus (At 16:3). Sua fé não ia na direção desse ato isolado. Para ele, “nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gl 6:15).
Não ser coisa alguma envolve não ser obrigatório. A circuncisão não é necessária, mas a incircuncisão tampouco o é. Para Paulo, o indivíduo pode escolher entre circuncidar-se ou não se circuncidar, pois todos os mandamentos carnais, isto é, externos, pressupõem a liberdade, não a escravidão.
Deus ter chamado a circuncisão “sua aliança” com a descendência de Abraão (Gn 17:10) e a ter feito feito um sinal (Gn 17:11) não a torna obrigatória. Ainda que tivesse sido chamada mil vezes aliança ou feita mil vezes sinal, a circuncisão continuaria a ser um mandamento carnal, portanto não obrigatório. Entre o mandamento exterior e a conduta, coloca-se um senhor soberano: o livre arbítrio. Esse senhor cumpre ou não cumpre o mandamento, como o desejar. Diferente é o caso dos mandamentos ditados por Deus ao próprio senhor soberano, isto é, ao livre arbítrio, a exemplo do amor, da misericórdia etc. Estes são obrigatórios.
Ao interpretar o Livro de Gênesis assim, Paulo não só parte da mistura de versos bíblicos e tradições que compunham o Abraão de seu tempo como ressalta aspectos desconhecidos dele. Chama-o “pai da circuncisão” (4:12), mas também “pai de todos os que creem, embora não circuncidados” (4:11).
Vemos por que, no tempo de Jesus e de Paulo, a palavra Abraão não evocava algo palpável e cristalizado na letra de Gênesis. Quando Paulo dizia “Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”, as tradições sobre o patriarca não estavam fora de perspectiva. O apóstolo não era um protestante fundamentalista. Não adorava a estátua de letra. Não é, pois, de esperar que o seu Abraão fosse o da letra.
A estátua de letra não é melhor que a de pedra. Se a redução de Deus à pedra, à madeira, ao ouro ou à prata é condenável, a redução da palavra à letra não o é em menor medida. Observo incredulamente como, ainda hoje, o culto à verdade produz reações de revolta e perseguições da parte dos adoradores da letra, assim como o culto a Deus provocou a perseguição dos idólatras ao longo da História. Servir a verdade, mais cedo ou mais tarde, nos força a revirar os altares erguidos à letra. O Abraão literal é um desses altares espúrios e dedicados a ídolos, não a Deus, nem à verdade.
O Antigo Testamento é inteiramente perpassado pelo conflito entre Deus e os ídolos. A idolatria é o problema central que o percorre. No tempo atual, porém, a idolatria não se manifesta mais como culto à pedra, mas à letra. A interpretação da História Bíblica não coloca outro problema. Ao menos não coloca outro mais grave.
Por séculos, as igrejas protestantes radicalmente contrárias ao uso de imagens têm sido as campeãs da conformidade à fé literal. Quando a ciência mostrou que a História Bíblica às vezes não é literal, elas insistiram na afirmação da letra, do Abraão literal, do Moisés literal, do Jesus literal.
Contudo, há uma estranheza no ar. A cobrança da fé literal foi suspensa, no mundo evangélico. E, em vez de dar espaço à busca da verdade, enfraqueceu-a. Suspendeu-a também. O altar à letra inclinou-se, mas o da verdade não foi restaurado. Importa entoar o gospel, expulsar os demônios, buscar a prosperidade. A quem não o faz resta pregar para os bancos e se preocupar. Os partidários do gospel, da expulsão de demônios e da prosperidade não querem problemas de História, pois não combinam com as suas práticas. Os outros não os querem, pois afugentam as pessoas que ainda não os abandonaram.
Assim, estranhamente, a verdade a respeito da História parece não importar, onde a paixão pela letra foi represada e contida. Importa calar, a um tempo, a questão da verdade e a paixão pela letra. A verdade e a letra: não são elas o conteúdo histórico da igreja? Vivemos, porém, num tempo em que o conteúdo deixou de importar. Vivemos na era da aparência, da margem, do limbo. Nem a verdade, nem a letra têm nela lugar. Mas ninguém resiste para sempre ao furor e ao inexorável. Chegada a sua hora, o que se cala e recalca irromperá novamente. E ainda não nasceu quem possa imaginar o que então sucederá.
A redução da narrativa bíblica a lenda é problemática, pois supõe ter sido inventada. Difícil é que histórias tão detalhadas e internamente concatenadas tenham sido simplesmente imaginadas. Porém, a teoria da fusão de personagens não é tão problemática quanto a da lenda e ainda apresenta a vantagem de se conformar ao processo pelo qual o Pentateuco se constituiu. O historiador judeu Georg Fohrer resume esse processo da seguinte maneira: “Quando a primeira narrativa básica [do Pentateuco] foi sendo formada, muitas outras tradições primitivas foram incorporadas: listas (Gn 22:20-24; 25:1-6; 36:31-39), narrativas concernentes à história das tribos e nações (Gn 16:4-14; 19:30-38; 21:8-21; 25:21-26a, 29-34; 29—30; 34; 38:27-30); sagas da natureza (Gn 19; Êx 16—17; Nm 11; 20); pequenas histórias (Gn 12:10ss; 20; 24; 26)” (FOHRER, Georg. História da religião de Israel. São Paulo: Academia Cristã/Paulus, 2008. p. 153).
Fohrer adere à teoria de que o Pentateuco é uma compilação de histórias transmitidas independentemente. Os versículos citados por ele são exemplos de narrativas reunidas, quando os judeus começaram a compor uma história coesa da sua nação, por volta de 1.200 a. C. A maior parte deles pertence ao Livro de Gênesis. Por isso, ajuda-nos a entender como as histórias sobre Abraão se formaram.
Se Abraão é um aglutinado de várias figuras antigas, umas bem conhecidas, outras não, a fusão das histórias a seu respeito pode ter ocorrido, quando a narrativa básica mencionada por Fohrer foi reduzida a escrito. Um autor bíblico desconhecido coseu as histórias umas nas outras, de modo a formar a biografia de um homem. Essa é, hoje, a visão mais provável do processo de formação do relato bíblico sobre Abraão.
Porém, a transformação do texto não estancou com a elaboração do primeiro Pentateuco. Na época de Jesus e de Paulo, muitas histórias sobre Abraão tinham sido acrescidas às que o Antigo Testamento transmite. Isso indica que a transformação da história básica de Abraão prosseguira. Uma parte dos acréscimos encontra-se na literatura apócrifa dos judeus. Outra parte foi incorporada, mais tarde, ao Talmude.
Os fariseus, partido mais numeroso e influente da época, criam tanto na inspiração divina das histórias bíblicas quanto nesses acréscimos. Aos seus ouvidos, os nomes de Adão, Abraão e Moisés evocavam mais do que as narrativas da Bíblia estabelecem a respeito deles. Por isso, é interessante recordar como Jesus e os primeiros cristãos trataram essas crenças.
Sabemos que Jesus combateu o costume fariseu de aceitar todo acréscimo à Lei e aos Profetas que circulava na sua época. Porém, as suas declarações sobre isso, em Mateus 15:1-6, são frequentemente distorcidas. Jesus apontou incoerências não percebidas entre algumas tradições orais dos judeus e as Escrituras. Disse, por exemplo, que a dispensa da obrigação de honrar pai e mãe, por meio de uma doação, violava o espírito dos Dez Mandamentos. Nas suas exatas palavras: "Por que transgredis vós o mandamento de Deus, por causa da vossa tradição? Porque Deus ordenou: Honra a teu pai e a tua mãe e Quem maldisser a seu pai ou a sua mãe seja punido de morte. Mas vós dizeis: Se alguém disser a seu pai ou a sua mãe: É oferta ao Senhor aquilo que poderias aproveitar de mim; esse jamais honrará a seu pai ou a sua mãe" (Mt 15:3-6).
Os fariseus eram os primeiros a reconhecerem que as Escrituras se situavam num plano superior ao das tradições orais que circulavam. Eles viam as tradições como comentários e adendos às Escrituras. Portanto, como acessórios do principal, que era a Bíblia. O historiador Flávio Josefo deixa isso claro na sua Resposta a Ápio. O problema é que os fariseus não reconheciam as incoerências entre as tradições e a Bíblia. Jesus apontou essas incoerências e acusou os escribas e fariseus de transgredirem o mandamento de Deus por apego a elas. De modo nenhum, porém, isso implica que Jesus tenha incidido no contrário do que os fariseus praticavam, isto é, que ele tenha anulado as tradições por meio da Bíblia.
As próprias Escrituras citam e aceitam partes da Tradição. O autor de Timóteo, por exemplo, adotou os nomes dos opositores egípcios de Moisés criados pela Tradição (2 Tm 3:8). E Jesus, ao condenar os escribas e fariseus por observarem as menores coisas da lei em prejuízo das maiores, não disse que os seus seguidores deviam desconsiderar aquelas, mas que deviam “fazer estas coisas, sem omitir aquelas” (Mt 23:23).
Será que, entre as menores coisas que os discípulos deviam praticar, não estavam incluídas as ordenanças da Tradição? Certamente estavam. Por isso também, Jesus ordenou a seus discípulos guardarem “tudo quanto” os escribas e os fariseus lhes ensinavam (Mt 23:3). Na palavra tudo, estão abrangidas as tradições.
Porém, há outro dado que ajuda a entender como os judeus concebiam a relação da Escritura com a Tradição. Trata-se do hábito dos copistas e autores do Antigo Testamento de só inserirem no texto bíblico citações dele próprio, nunca da Tradição. Chamarei autorreferência esse hábito, que só aqui e ali é excetuado por uma menção a Janes e Jambres ou ao livro apócrifo de Enoque (Jd 14).
Mais que qualquer outra característica, a autorreferência põe em relevo o papel exclusivo da Bíblia como revelação divina. Se Deus se comunica com os homens de muitas maneiras, o fato de a Bíblia nunca nos remeter diretamente a outra palavra além das que ela própria transmite diferencia as Escrituras das demais comunicações de Deus com seu povo. Torna-as um nível especial da palavra de Deus aos homens.
De fato, os livros da Bíblia fazem numerosas citações diretas, porém quase nunca de obras externas a eles. Contudo, essa autorreferência habitual não exclui as outras fontes da revelação a que damos o nome de Tradição. Sem a autorreferência, teríamos de adotar a contradição como único critério para limitar a diversidade no interior da revelação. Assim, só poderíamos eliminar da revelação oráculos conflitantes. Graças à autorreferência, podemos estabelecer um limite diferente. Podemos considerar que as tradições que contradizem outras, mas não contradizem a Bíblia são parte da palavra de Deus. Desse modo, uma diversidade maior de oráculos se torna possível no âmago da revelação.
A autorreferência, portanto, não exclui a Tradição. Pelo contrário, ela amplia o número de proposições que podem ser aceitas como palavra de Deus, ao deslocar o critério de exclusão da contradição em geral para a contradição com os pontos fundamentais da Bíblia.
Mas, se Jesus admitia as regras e as histórias da Tradição que não excluíam os princípios centrais das Escrituras, não devemos concluir que o Adão, o Abraão, o Moisés, o Davi, o Salomão, o Jonas e o Daniel aos quais ele se referiu eram mais elásticos do que costumamos pensar? Não devemos supor que eles continham nuanças, como as histórias sobre Abraão transmitidas pela Tradição?
Sob essa perspectiva, não há razão para não admitirmos que Abraão resulte da fusão de vários patriarcas. Se as personagens do Antigo Testamento, em geral, eram mistos de dados da Bíblia e da Tradição, por que os relatos sobre a época patriarcal não podem ter-se fundido, de modo a formar a história de Abraão? Não há nessa fusão qualquer anormalidade. Pelo contrário, é a própria essência do processo de combinação das palavras da Bíblia com as da Tradição.
Estou a propor que Abraão não existiu? Que não fez o que a Bíblia afirma que fez? Ou que Deus não disse a ele o que Gênesis narra? De modo nenhum. Existiram adoradores de Deus que fizeram o que a Bíblia atribui a Abraão. Deus deu-lhes promessas e mandamentos. Porém, os nomes de alguns ou de todos eles e certos detalhes das suas histórias perderam-se. Só o que sobrou foi reunido, de modo a compor a vida de Abraão como a conhecemos.
O que firmei até este ponto não nos deixa com mais do que uma nuvem de personagens, histórias transmitidas oralmente e costumes de época. Abraão parece ser essa nuvem. No entanto, o Abraão bíblico, mesmo quando levamos em conta todas as lições aproveitáveis da Crítica Histórica e Literária, parece mais sólido do que tal nuvem. E, se for mesmo assim, crer na existência de um ou dois homens que viveram parte da saga atribuída a Abraão pode não ser necessariamente um erro. A multiplicidade de histórias sobre o patriarca e o grau de detalhamento do seu conteúdo parecem falar-nos de fatos reais, que se tornaram históricos. Por outro lado, parece fora do campo do possível que um ou mais escribas tenham inventado elatos tão numerosos, detalhados e concatenados, poderíamos acrescentar: relatos tão significativos e belos quanto os de Gênesis sobre Abraão. Até porque, se tais escribas tiverem existido e criado o Abraão bíblico, estaremos diante de uma verdadeira teoria da conspiração e não me parece que textos se expliquem por semelhantes teorias.
Contudo, na era da ciência, precisamos explicar um pouco melhor o Abraão bíblico, se quisermos conferir-lhe solidez parecida com a que, por séculos, a letra da Bíblia lhe atribuiu. Precisamos, ao menos, mostrar como as histórias a respeito dele podem ter-se formado. Não tenho, a esse respeito, uma explicação pronta para fornecer. Mas tenho desconfianças e ideias vagas, que em mim se constituíram, durante o estudo cuidadoso dos textos. Por exemplo, se pudermos reunir e compactar em Abraão não só a nuvem de personagens e as linhas gerais das histórias, mas também os detalhes a respeito delas, enfim se pudermos aceitar que esses detalhes não são sinais de invenção, mas de transmissão de fatos verdadeiros, estaremos em condições de concluir que, ao lado da tradição oral, relatos escritos podem ter sido compostos sobre uma ou duas personagens denominada(s) Abraão. E, se a veneração dos textos tiver sido levada tão longe quanto a das histórias orais, não será impossível que, num momento da História, relatos semelhantes aos que hoje lemos sobre Abraão tenham sido compostos. O livro de Moisés, mencionado em Êxodo 17:14, é um candidato a conter tais relatos. Talvez incluísse versões embrionárias ou desenvolvidas das sagas de Abraão, Isaque, Jacó e do Êxodo. A possibilidade de ter sido realmente assim aumentará, se considerarmos que alguns hebreus primitivos não eram iletrados, mas cultivavam a escrita (possivelmente o semítico ocidental) e possuíam as condições necessárias para terem sido os transmissores dos textos primitivos sobre Abraão.
Não desenvolvo essas conjecturas para enaltecer ou diminuir a figura de Abraão. Meu objetivo é somente entendê-lo melhor. Tudo considerado, o patriarca bíblico não é simplesmente o da letra: é o da verdade, seja qual for e esteja onde estiver. Interpretar a Bíblia é amar essa verdade, ainda que se apresente fluida, como no caso de Abraão. A figura arrancada à letra de Gênesis não é o pai de muitas nações. É a sua caricatura, uma estátua de letra, um ídolo. O Abraão verdadeiro é imaterial e volátil como as tradições que o originaram. Mesmo assim, é portador dos princípios da salvação pela fé que Paulo tanto encarece e dos quais vivemos. Pois “o justo viverá pela fé”.
Paulo chama Abraão pai da incircuncisão. É nisso mais do que ousado. É quase temerário, como é próprio dos espíritos livres, quando pressionados, forçados a se inclinar ante interpretações literais. Fácil é ver que Abraão é o pai dos judeus. Basta ler as genealogias de Gênesis para o compreender. Basta atentar à letra e curvar-se a ela. Mas, para entender que ele é o pai da incircuncisão, demanda-se mais, muito mais. Demanda-se liberdade de espírito.
Não diz a Bíblia que Abraão se circuncidou? Como pode ter sido pai e exemplo para incircuncisos? De que parte surgiram as nações que não cultivam o costume de se circuncidar? Ainda uma vez, as genealogias respondem: de Abraão. Mas, se nasceram dele, o não praticarem a circuncisão não é um sinal de desobediência, assim como Israel praticá-la é sinal de fé? E não quebraram as nações, portanto, a tradição de seu pai? Paulo ousa apartar-se desse modo de pensar. De acordo com ele, “a fé foi imputada a Abraão para justiça. Como, pois, lhe foi atribuída? Estando ele já circuncidado ou ainda incircunciso? Não no regime da circuncisão, e, sim, quando incircunciso. E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso; para vir a ser o pai de todos os que creem, embora não circuncidados” (4:11).
O apóstolo liga a justiça à incircuncisão, pois Abraão creu, e isso lhe foi imputado para justiça, quando era incircunciso. Desse fato ele extrai que os gentios precisam crer, mas não se circuncidar. Reconhece que Deus ordenou a Abraão circuncidar-se e denominou a circuncisão aliança entre ele e a descendência do patriarca. Mas Paulo acredita que a prática da circuncisão não é obrigatória. Verdade é que ele circuncidou Timóteo, mas o fez como concessão aos judeus (At 16:3). Sua fé não ia na direção desse ato isolado. Para ele, “nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura” (Gl 6:15).
Não ser coisa alguma envolve não ser obrigatório. A circuncisão não é necessária, mas a incircuncisão tampouco o é. Para Paulo, o indivíduo pode escolher entre circuncidar-se ou não se circuncidar, pois todos os mandamentos carnais, isto é, externos, pressupõem a liberdade, não a escravidão.
Deus ter chamado a circuncisão “sua aliança” com a descendência de Abraão (Gn 17:10) e a ter feito feito um sinal (Gn 17:11) não a torna obrigatória. Ainda que tivesse sido chamada mil vezes aliança ou feita mil vezes sinal, a circuncisão continuaria a ser um mandamento carnal, portanto não obrigatório. Entre o mandamento exterior e a conduta, coloca-se um senhor soberano: o livre arbítrio. Esse senhor cumpre ou não cumpre o mandamento, como o desejar. Diferente é o caso dos mandamentos ditados por Deus ao próprio senhor soberano, isto é, ao livre arbítrio, a exemplo do amor, da misericórdia etc. Estes são obrigatórios.
Ao interpretar o Livro de Gênesis assim, Paulo não só parte da mistura de versos bíblicos e tradições que compunham o Abraão de seu tempo como ressalta aspectos desconhecidos dele. Chama-o “pai da circuncisão” (4:12), mas também “pai de todos os que creem, embora não circuncidados” (4:11).
Vemos por que, no tempo de Jesus e de Paulo, a palavra Abraão não evocava algo palpável e cristalizado na letra de Gênesis. Quando Paulo dizia “Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça”, as tradições sobre o patriarca não estavam fora de perspectiva. O apóstolo não era um protestante fundamentalista. Não adorava a estátua de letra. Não é, pois, de esperar que o seu Abraão fosse o da letra.
A estátua de letra não é melhor que a de pedra. Se a redução de Deus à pedra, à madeira, ao ouro ou à prata é condenável, a redução da palavra à letra não o é em menor medida. Observo incredulamente como, ainda hoje, o culto à verdade produz reações de revolta e perseguições da parte dos adoradores da letra, assim como o culto a Deus provocou a perseguição dos idólatras ao longo da História. Servir a verdade, mais cedo ou mais tarde, nos força a revirar os altares erguidos à letra. O Abraão literal é um desses altares espúrios e dedicados a ídolos, não a Deus, nem à verdade.
O Antigo Testamento é inteiramente perpassado pelo conflito entre Deus e os ídolos. A idolatria é o problema central que o percorre. No tempo atual, porém, a idolatria não se manifesta mais como culto à pedra, mas à letra. A interpretação da História Bíblica não coloca outro problema. Ao menos não coloca outro mais grave.
Por séculos, as igrejas protestantes radicalmente contrárias ao uso de imagens têm sido as campeãs da conformidade à fé literal. Quando a ciência mostrou que a História Bíblica às vezes não é literal, elas insistiram na afirmação da letra, do Abraão literal, do Moisés literal, do Jesus literal.
Contudo, há uma estranheza no ar. A cobrança da fé literal foi suspensa, no mundo evangélico. E, em vez de dar espaço à busca da verdade, enfraqueceu-a. Suspendeu-a também. O altar à letra inclinou-se, mas o da verdade não foi restaurado. Importa entoar o gospel, expulsar os demônios, buscar a prosperidade. A quem não o faz resta pregar para os bancos e se preocupar. Os partidários do gospel, da expulsão de demônios e da prosperidade não querem problemas de História, pois não combinam com as suas práticas. Os outros não os querem, pois afugentam as pessoas que ainda não os abandonaram.
Assim, estranhamente, a verdade a respeito da História parece não importar, onde a paixão pela letra foi represada e contida. Importa calar, a um tempo, a questão da verdade e a paixão pela letra. A verdade e a letra: não são elas o conteúdo histórico da igreja? Vivemos, porém, num tempo em que o conteúdo deixou de importar. Vivemos na era da aparência, da margem, do limbo. Nem a verdade, nem a letra têm nela lugar. Mas ninguém resiste para sempre ao furor e ao inexorável. Chegada a sua hora, o que se cala e recalca irromperá novamente. E ainda não nasceu quem possa imaginar o que então sucederá.
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