“Que devo fazer para herdar a vida eterna?” perguntou o jovem a Jesus (Mc 10:17). O restante da história é bem conhecido: Jesus disse-lhe que guardasse os mandamentos, ao que o moço lhe respondeu que os tinha observado “desde a juventude” (Mc 10:20). Então, o Mestre mandou-o vender tudo o que tinha, dar o dinheiro aos pobres e segui-lo. E o jovem se retirou triste, pois tinha muitos bens.
Lucas registra o espanto dos discípulos com essas palavras de Jesus ao jovem (Mc 10:24). Mesmo quando lhes foi explicado que elas não se referiam à posse, mas à confiança nos bens materiais, os discípulos ainda “ficaram sobremaneira maravilhados” (Mc 10:26). Então, Jesus concluiu: “Para o homem é impossível [salvar-se], mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível” (Mc 10:27).
As palavras de Pedro, após esse diálogo, mostram que os Doze foram os primeiros a renunciar aos seus bens para seguir Jesus: “Eis que nós deixamos tudo e te seguimos” (Mc 10:28). Nas eras imediatas, muitos outros círculos de cristãos desprovidos de bens materiais se formaram. No século XIII, a proliferação das ordens mendicantes, de um lado, e o acúmulo de riquezas por parte da Igreja, de outro, haviam chegado a tal ponto que uma das mais explosivas querelas teológicas da História emergiu: a discussão sobre o sentido do mandamento de Jesus ao jovem. A própria questão das indulgências, que serviu de estopim à Reforma, não deixou de prender-se àquela discussão.
Tanto o estarrecimento dos discípulos como a controvérsia posterior sobre a pobreza deveram-se à interpretação literal do mandamento ao jovem rico. No entanto, dificilmente se pode concluir que as palavras de Jesus foram pronunciadas para serem observadas de modo literal. Vender tudo o que tem era uma expressão favorita de Jesus. Ele a usou tanto em frases com o sentido de mandamentos, como no caso do jovem rico, quanto em parábolas como a do tesouro escondido e a da pérola. Na primeira dessas histórias, o homem que acha o tesouro vende tudo o que tem e compra o campo em que ele se encontra (Mt 13:44). Na segunda, o negociante vende todos os seus bens para adquirir a pérola preciosa (Mt 13:46). Se a possibilidade existe de o mandamento de Jesus ao jovem ser interpretado literalmente, o mesmo não se pode afirmar das palavras das duas parábolas.
Isso mostra que o propósito de Jesus, ao ordenar que seus discípulos vendessem tudo o que tinham, ia além do despojamento literal de bens materiais e da redução à pobreza. Como as parábolas do tesouro e da pérola indicam, a venda de bens não se confunde com o despojamento da matéria. Ela representa o despojamento de si, daquilo que 1ª de João 2:16 denomina a soberba da vida, ou seja, o orgulho que se confunde com o viver do homem sem Deus.
O mandamento de Jesus ao jovem não deve ser entendido em dissonância com a frase “vende tudo o que tem”, inserida nas duas parábolas. Jesus não quis dizer que o rico devia vender literalmente tudo e dar aos pobres. Nem os Doze o haviam feito. Na resposta à provocação sempre espontânea e pronta de Pedro, ele disse que os discípulos haviam renunciado a "irmãos, irmãs, pai, mãe e filhos"; só ao final acrescentou a renúncia aos campos (às propriedades). Sabemos que os seguidores mais próximos de Jesus tinham uma bolsa comum, da qual retiravam o sustento. No entanto, nem deles Jesus afirmou que haviam deixado mais do que campos. Tampouco disse que os campos deixados tinham sido vendidos ou que o produto da venda tinha sido entregue aos pobres. Portanto, nem mesmo os Doze venderam tudo o que tinham e deram aos pobres. Não é preciso lembrar que, nos capítulos 2 e 4 de Atos, nada além de campos e casas foi vendido, pelos primeiros discípulos, e que o produto da venda não foi doado aos pobres, mas lançado no fundo comum da igreja em Jerusalém.
Portanto, se os Doze e os outros discípulos não venderam tudo o que tinham, como Jesus pode tê-lo exigido daquele jovem rico? Não, o sentido das ternas palavras do Mestre ao discípulo que, de joelhos, lhe perguntou “Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?” (Mc 10:17) não foi tal exigência. Aquele que, ao responder a pergunta, amou o jovem, não pretendia que ele vendesse literalmente tudo. Jesus queria que o jovem vendesse a si mesmo, que ele deixasse de enxergar só a si, o que envolvia os bens materiais, mas não se limitava a eles.
A confiança nas riquezas é uma das formas que o homem tem de enxergar só a si, de se colocar no centro do mundo, o que é de todos o maior erro humano: o único que o impede de entrar no reino de Deus. Necessário é ao homem deixar o centro do mundo. Deixar de ser rico e fazer-se pobre.
“Jó discutiu durante 40 capítulos para tentar provar que mantinha íntegra a sua justiça. Quão difícil é ao homem rico em retidão despojar-se dela! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que o rico em justiça entrar no reino de Deus.”
Não raro, o tesouro de um homem é a sua justiça, a sua ética, numa palavra: a sua retidão. Jó foi tão justo que até Deus disse a Satanás: “Viste o meu servo Jó?” (Jó 2:3). A retidão é a honra do caráter. O homem que não é reto cobre-se de desonra. Por isso, quando o destino o destitui de tudo, quando o faz nu como Jó, que foi despojado dos sete filhos e três filhas, das sete mil ovelhas, dos três mil camelos, das quinhentas juntas de bois, das quinhentas jumentas e da “muitíssima gente” ao seu serviço (Jó 1:2-3), o homem ainda costuma abraçar-se àquela honra, àquela vestimenta do caráter, que é a retidão pessoal. Jó discutiu durante 40 capítulos para tentar provar que mantinha íntegra a sua justiça. Só ao cabo dessa discussão, ele foi destituído da sua justiça própria. Quão difícil é ao homem rico em retidão despojar-se dela! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que o rico em justiça entrar no reino de Deus.
Por isso, Jesus pôs todos os mandamentos do mundo nas costas do jovem que amou: “Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; a ninguém defraudarás; honra a teu pai e a tua mãe” (Mc 10:19). E, como se não bastasse, ainda disse: “Vai vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres” (Mc 10:21). Em dois versículos, Jesus apresentou todos os 40 capítulos de Jó àquele triste homem. Seu objetivo não era que ele guardasse aquilo, assim como não pretendia que ele vendesse literalmente tudo o que possuía. Jesus desejava, antes, que o jovem se despojasse da justiça própria que impede o entrar no reino de Deus.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Amarrar o Valente
Quando Jesus expulsou o demônio mudo de um homem, escribas provenientes de Jerusalém afirmaram que ele estava possuído por Belzebu e expelia demônios por meio deste (Mc 3:22). De modo impressionante, Jesus refutou essa acusação sem investir contra o pano de fundo teológico
da época, que considerava Belzebu um líder do mal distinto de Satã. Pelo
contrário, ele afirmou que, se expulsava demônios por Belzebu, então
Satanás combatia o próprio Satanás: Lúcifer digladiava com um grande demônio.
Na mitologia cananeia e filisteia, Belzebu era considerado a segunda ou terceira maior autoridade dos infernos. Um maioral dos demônios. Por isso, a afirmação dos escribas implicava que o reino do mal estava dividido. Mas a resposta de Jesus, diametralmente contrária à afirmação dos eruditos da época, significava que estes estavam errados, pois a divisão das forças do mal que preconizavam não era verdadeira.
Por um lado, com a sua resposta, Jesus confirmou a crença farisaica na existência de espíritos maus e mesmo de um reino do mal. Claro que não devemos pensar nesse reino como algo tão estruturado e perfeito quanto o de Deus. Longe disso. Porém, ainda assim, o mal não deixa de ser um reino, com líderes, principados, potestades e maiorais.
O Novo Testamento revela que o reino de Deus subjuga e conquista o do mal, assim como os romanos conquistaram a Síria, a Judeia e o Egito, entre muitos outros territórios. Isso se dá na medida em que os espíritos malignos são imobilizados por Cristo e seus seguidores movidos pelo Espírito Santo.
Infelizmente, nos nossos dias, tornou-se moda não crer no mal. Os que não aceitam a inexistência do mal como moda tomam-na como convenção científica. O resultado é a crença de que todo mal é humano. Não há mal sobre-humano. Esse é um dos fundamentos específicos e diferenciadores da cultura contemporânea.
O Novo Testamento revela algo diferente dessa moda e dessa convenção. Revela que ao reino de Deus opõe-se o do mal. Desvela outrossim que a vinda do reino de Deus subjuga as forças das trevas, como Jesus exprimiu na parábola: “Quando o valente [homem forte] bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, outro mais valente [forte] do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava, e lhe divide os despojos” (Lc 11:21-22).
A parábola está associada aos versos seguintes: “Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E tendo voltado, a encontra varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem se torna pior do que o primeiro” (Lc 11:24-26).
Ao contrário do que pode parecer a um primeiro exame, o texto do espírito imundo é também uma parábola. Era comum Jesus pronunciar histórias consecutivas sobre um mesmo tema. É o que se passa aqui. Se a história do espírito imundo não fosse parábola, não deveria conter o solilóquio (próprio desse tipo de texto alegórico): “não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí”. De modo que, a uma parábola, se segue outra.
Vejamos, então, o que cada história traz e como elas se conectam. Na que é contada a princípio, um homem forte é amarrado por outro ainda mais forte que ele. Santo Agostinho identificou esse amarrar com o aprisionamento de Satanás, durante o reino milenar (Ap 20:2). A interpretação contém uma verdade profunda, porém não devemos ir ao ponto de aproximar ou fundir textos simbólicos tão distantes quanto a parábola do valente e as profecias de Apocalipse 20. O acorrentamento de Satanás, em Apocalipse, não é idêntico ao amarrar do valente, nos Evangelhos, pois este se passa agora, e o reino milenar ainda não é chegado. Quando chegar, o aprisionamento do Diabo será muito mais pleno, completo e irrestrito do que é hoje. Portanto, as imobilizações do mal na parábola do valente e em Apocalipse são acontecimentos distintos.
A segunda parábola ajuda-nos a entender isso. Ao ser expelido do homem, o espírito vaga por lugares áridos, até deparar-se com a ocasião de voltar à casa de onde saiu. Então, ele a acha varrida e adornada. As práticas de varrer e adornar não eram muito comuns em residências palestinas do primeiro século, cuja imensa maioria era rústica e dotada de piso muito irregular. Só por motivos especiais, como o retratado no texto da dracma perdida, uma residência era varrida. Tampouco era costume judeu adornar muito as casas. Isso leva a crer que a casa a que Jesus se referiu era mais sofisticada que uma residência. Era um edifício público ou mesmo um palácio.
Sob esse ponto de vista, a volta do espírito imundo à sua casa significa o retorno das forças do mal não a um indivíduo, mas a grandes coletividades, até mesmo a nações (no caso, Israel), que elas haviam possuído e de que tinham sido expulsas, por ocasião do advento do reino de Deus. Essa conclusão torna-se clara na versão de Mateus que, após afirmar que o último estado do homem veio a ser pior que o primeiro, conclui: “Assim há de acontecer também a esta geração perversa” (Mt 12:45). A casa não é um indivíduo; é a geração.
Assim conjugadas, as parábolas do homem forte e do espírito imundo formam um retrato da História espiritual da humanidade, da vinda de Jesus Cristo até hoje. Essa História é muito diferente da História social geralmente narrada nos livros. De acordo com ela, muitos povos abraçaram o evangelho, conheceram a verdade e foram libertados da escravidão às forças do mal, mas estas voltaram a possuí-los, e o último estado deles veio a ser pior que o primeiro. Esse é o testemunho bíblico.
“Nada disso é muito aceito hoje em dia. Uma orquestração se formou contra a História espiritual dos Evangelhos, o que é mau. Porém, o pior é que, a muitos dos que não creem em tais realidades, será dado um sinal diferente do de Jonas.”
A História espiritual implícita nas parábolas do valente e do espírito imundo mostra a alternância de períodos de maior luz e de prevalência das trevas, na trajetória dos povos. Quando João e Jesus começaram a pregar, subitamente, a luz dissipou as trevas (Jo 1:4-5). Porém, estas logo tornaram a prevalecer (Jo 3:19). Com a expansão do evangelho entre os gentios, de novo a escuridão recuou, em muitos lugares. Quando Graciano renunciou ao título de Sumo Pontífice das religiões pagãs, no fim do século IV, ela sofreu um revés poucas vezes visto. Mesmo quando essa condição especial se perdeu, a casa de muitos povos ainda permaneceu vazia, como Mateus acrescenta: “chegando, [o espírito imundo] acha-a desocupada, varrida e adornada” (Mt 12:44). No entanto, as trevas sempre refluíram, sempre voltaram a ocupar e governar o mundo. Este jaz no maligno (1 Jo 5:19) não por ser mau, mas por ter sido dominado por forças do mal.
Nada disso é muito aceito hoje em dia. Uma orquestração se formou contra a História espiritual dos Evangelhos, o que é mau. Porém, o pior é que, a muitos dos que não creem em tais realidades, será dado um sinal diferente do de Jonas.
Na mitologia cananeia e filisteia, Belzebu era considerado a segunda ou terceira maior autoridade dos infernos. Um maioral dos demônios. Por isso, a afirmação dos escribas implicava que o reino do mal estava dividido. Mas a resposta de Jesus, diametralmente contrária à afirmação dos eruditos da época, significava que estes estavam errados, pois a divisão das forças do mal que preconizavam não era verdadeira.
Por um lado, com a sua resposta, Jesus confirmou a crença farisaica na existência de espíritos maus e mesmo de um reino do mal. Claro que não devemos pensar nesse reino como algo tão estruturado e perfeito quanto o de Deus. Longe disso. Porém, ainda assim, o mal não deixa de ser um reino, com líderes, principados, potestades e maiorais.
O Novo Testamento revela que o reino de Deus subjuga e conquista o do mal, assim como os romanos conquistaram a Síria, a Judeia e o Egito, entre muitos outros territórios. Isso se dá na medida em que os espíritos malignos são imobilizados por Cristo e seus seguidores movidos pelo Espírito Santo.
Infelizmente, nos nossos dias, tornou-se moda não crer no mal. Os que não aceitam a inexistência do mal como moda tomam-na como convenção científica. O resultado é a crença de que todo mal é humano. Não há mal sobre-humano. Esse é um dos fundamentos específicos e diferenciadores da cultura contemporânea.
O Novo Testamento revela algo diferente dessa moda e dessa convenção. Revela que ao reino de Deus opõe-se o do mal. Desvela outrossim que a vinda do reino de Deus subjuga as forças das trevas, como Jesus exprimiu na parábola: “Quando o valente [homem forte] bem armado, guarda a sua própria casa, ficam em segurança todos os seus bens. Sobrevindo, porém, outro mais valente [forte] do que ele, vence-o, tira-lhe a armadura em que confiava, e lhe divide os despojos” (Lc 11:21-22).
A parábola está associada aos versos seguintes: “Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí. E tendo voltado, a encontra varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali; e o último estado daquele homem se torna pior do que o primeiro” (Lc 11:24-26).
Ao contrário do que pode parecer a um primeiro exame, o texto do espírito imundo é também uma parábola. Era comum Jesus pronunciar histórias consecutivas sobre um mesmo tema. É o que se passa aqui. Se a história do espírito imundo não fosse parábola, não deveria conter o solilóquio (próprio desse tipo de texto alegórico): “não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí”. De modo que, a uma parábola, se segue outra.
Vejamos, então, o que cada história traz e como elas se conectam. Na que é contada a princípio, um homem forte é amarrado por outro ainda mais forte que ele. Santo Agostinho identificou esse amarrar com o aprisionamento de Satanás, durante o reino milenar (Ap 20:2). A interpretação contém uma verdade profunda, porém não devemos ir ao ponto de aproximar ou fundir textos simbólicos tão distantes quanto a parábola do valente e as profecias de Apocalipse 20. O acorrentamento de Satanás, em Apocalipse, não é idêntico ao amarrar do valente, nos Evangelhos, pois este se passa agora, e o reino milenar ainda não é chegado. Quando chegar, o aprisionamento do Diabo será muito mais pleno, completo e irrestrito do que é hoje. Portanto, as imobilizações do mal na parábola do valente e em Apocalipse são acontecimentos distintos.
A segunda parábola ajuda-nos a entender isso. Ao ser expelido do homem, o espírito vaga por lugares áridos, até deparar-se com a ocasião de voltar à casa de onde saiu. Então, ele a acha varrida e adornada. As práticas de varrer e adornar não eram muito comuns em residências palestinas do primeiro século, cuja imensa maioria era rústica e dotada de piso muito irregular. Só por motivos especiais, como o retratado no texto da dracma perdida, uma residência era varrida. Tampouco era costume judeu adornar muito as casas. Isso leva a crer que a casa a que Jesus se referiu era mais sofisticada que uma residência. Era um edifício público ou mesmo um palácio.
Sob esse ponto de vista, a volta do espírito imundo à sua casa significa o retorno das forças do mal não a um indivíduo, mas a grandes coletividades, até mesmo a nações (no caso, Israel), que elas haviam possuído e de que tinham sido expulsas, por ocasião do advento do reino de Deus. Essa conclusão torna-se clara na versão de Mateus que, após afirmar que o último estado do homem veio a ser pior que o primeiro, conclui: “Assim há de acontecer também a esta geração perversa” (Mt 12:45). A casa não é um indivíduo; é a geração.
Assim conjugadas, as parábolas do homem forte e do espírito imundo formam um retrato da História espiritual da humanidade, da vinda de Jesus Cristo até hoje. Essa História é muito diferente da História social geralmente narrada nos livros. De acordo com ela, muitos povos abraçaram o evangelho, conheceram a verdade e foram libertados da escravidão às forças do mal, mas estas voltaram a possuí-los, e o último estado deles veio a ser pior que o primeiro. Esse é o testemunho bíblico.
“Nada disso é muito aceito hoje em dia. Uma orquestração se formou contra a História espiritual dos Evangelhos, o que é mau. Porém, o pior é que, a muitos dos que não creem em tais realidades, será dado um sinal diferente do de Jonas.”
A História espiritual implícita nas parábolas do valente e do espírito imundo mostra a alternância de períodos de maior luz e de prevalência das trevas, na trajetória dos povos. Quando João e Jesus começaram a pregar, subitamente, a luz dissipou as trevas (Jo 1:4-5). Porém, estas logo tornaram a prevalecer (Jo 3:19). Com a expansão do evangelho entre os gentios, de novo a escuridão recuou, em muitos lugares. Quando Graciano renunciou ao título de Sumo Pontífice das religiões pagãs, no fim do século IV, ela sofreu um revés poucas vezes visto. Mesmo quando essa condição especial se perdeu, a casa de muitos povos ainda permaneceu vazia, como Mateus acrescenta: “chegando, [o espírito imundo] acha-a desocupada, varrida e adornada” (Mt 12:44). No entanto, as trevas sempre refluíram, sempre voltaram a ocupar e governar o mundo. Este jaz no maligno (1 Jo 5:19) não por ser mau, mas por ter sido dominado por forças do mal.
Nada disso é muito aceito hoje em dia. Uma orquestração se formou contra a História espiritual dos Evangelhos, o que é mau. Porém, o pior é que, a muitos dos que não creem em tais realidades, será dado um sinal diferente do de Jonas.
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
O Servo Inútil
Muitas passagens bíblicas afirmam que somos servos (em grego, douloi: escravos) de Deus. Mas só em Lucas 17:7-10, o estatuto dessa servidão é proclamado. Só esse texto expõe à luz do meio-dia em que consiste ser servo de Deus: “Qual de vós, tendo um servo ocupado na lavoura ou em guardar o gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem já e põe-te à mesa? E que antes não lhe diga: Prepara-me a ceia, cinge-te, e serve-me, enquanto eu como e bebo, depois comerás tu e beberás. Porventura terá de agradecer ao servo por ter este feito o que lhe havia ordenado? Assim também vós, depois de fazerdes tudo quanto vos for ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.”
As parábolas de Lucas contêm solilóquios. A do filho pródigo é o clássico exemplo. O anti-heroi não abandona, apenas, a velha vida. Antes de o fazer, ele cogita: “Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai”. Nessa e em outras parábolas, a comunicação da personagem consigo mesma despe a sua alma, mostra quem realmente ela é. O mesmo se dá no texto em exame, com a só diferença de que, aqui, o monólogo surge ao final, quando Jesus exorta: “Dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer”.
Não exagera quem reconhece, nesse tanto de solilóquio, nesse dizer de si para si, o centro da parábola e da própria vida de fé. Ter fé é dizer-se essa frase. É dizê-la do fundo de si e para si mesmo. É até mesmo pregá-la, mas pregá-la para si, com a verve com que Antônio pregou aos peixes: “Aos homens deu Deus a razão sem o uso; aos peixes, o uso sem a razão”. É convocar-se ao arrependimento e arrepender-se. É comparecer livremente ao tribunal da consciência, nele erguer-se e confessar a própria inutilidade. Mas só vale confessá-la de modo sentido. Com os olhos baixos e a alma desnuda. Sem esse fundo reconhecimento, pode haver serviço a Deus, mas não há reino de Deus.
O monólogo de Lucas 17:10 é o que constitui o servo de Deus. Sem o dizer íntimo, o dizer de si para si, o servo-por-fora é apenas um falso servo. Alguém pronto para o passo da traição. Ele só se torna um servo verdadeiro, quando se faz servo-também-por-dentro. Ecoando essa lição, Paulo disse a Filemon que o escravo Onésimo antes lhe fora inútil (Fm 11). Pode-se distinguir nessas palavras o aroma de Lucas 17:10. Onésimo fora escravo de Filemon, portanto lhe fora inútil. Esse o conceito bíblico de servidão.
Lutero foi homem colérico. Historiadores católicos tentaram, de todas as formas, retratá-lo como pecador contumaz. Só não é possível negar que Lutero tenha alcançado sensação profunda da própria miséria e da acabada inutilidade humana. Num texto famoso, ele resumiu nossa condição nas palavras: “Somos mendigos: esta é a verdade”. É preciso desconhecer totalmente a condição humana para negar tal veredito.
No entanto, o mundo está cheio de pessoas que pensam servir a Deus, sem se pensarem inúteis. Quantos sabem tudo sobre tudo! Quantos estavam ao lado de Deus, quando ele lançou os fundamentos da terra, quando lhe pôs medidas e estendeu sobre ela o cordel, quando as bases do mundo foram esquadrinhadas, e as estrelas da alva cantavam de júbilo (Jó 38:4-7). Quantos têm respostas prontas sobre esses e todos os outros mistérios. Sobre o passado remoto e a eternidade futura. Sobre Gênesis e Apocalipse. Sobre tudo o que é preciso para consertar os outros e a própria igreja de Deus. Só não sabem uma coisa: que são totalmente inúteis.
“A criação consistiu em formar tudo o que existe e dizer 'É bom'; a nova criação consiste em o homem, coroa da criação, pronunciar o bom solilóquio.”
E o mais espantoso é que, não raro, esse enxame de presunçosos não está disposto a mover uma palha para buscar a sabedoria. Eles não querem ir para o campo. Muito menos voltar exaustos, preparar a ceia e servir a mesa. Claro que, assim, permanecem infinitamente longe da condição necessária para proclamarem “somos inúteis”. A parábola nem os exorta a dizê-lo, mas a irem para o campo, derramarem suor, conhecerem o que é fadiga e só então se reconhecerem miseráveis, pobres, cegos e nus.
Uma coisa é alguém nada fazer e dizer-se inútil; outra muito diferente é tudo fazer, completar uma obra extenuante, talvez esplendorosa, e dizer sobre ela: “Senhor, sou servo inútil, pois fiz apenas o que devia fazer”. Essa é a obra-prima do Espírito de Deus no homem. A criação consistiu em formar tudo o que existe e dizer “É bom”; a nova criação consiste em o homem, coroa da criação, pronunciar o bom solilóquio.
As parábolas de Lucas contêm solilóquios. A do filho pródigo é o clássico exemplo. O anti-heroi não abandona, apenas, a velha vida. Antes de o fazer, ele cogita: “Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai”. Nessa e em outras parábolas, a comunicação da personagem consigo mesma despe a sua alma, mostra quem realmente ela é. O mesmo se dá no texto em exame, com a só diferença de que, aqui, o monólogo surge ao final, quando Jesus exorta: “Dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer”.
Não exagera quem reconhece, nesse tanto de solilóquio, nesse dizer de si para si, o centro da parábola e da própria vida de fé. Ter fé é dizer-se essa frase. É dizê-la do fundo de si e para si mesmo. É até mesmo pregá-la, mas pregá-la para si, com a verve com que Antônio pregou aos peixes: “Aos homens deu Deus a razão sem o uso; aos peixes, o uso sem a razão”. É convocar-se ao arrependimento e arrepender-se. É comparecer livremente ao tribunal da consciência, nele erguer-se e confessar a própria inutilidade. Mas só vale confessá-la de modo sentido. Com os olhos baixos e a alma desnuda. Sem esse fundo reconhecimento, pode haver serviço a Deus, mas não há reino de Deus.
O monólogo de Lucas 17:10 é o que constitui o servo de Deus. Sem o dizer íntimo, o dizer de si para si, o servo-por-fora é apenas um falso servo. Alguém pronto para o passo da traição. Ele só se torna um servo verdadeiro, quando se faz servo-também-por-dentro. Ecoando essa lição, Paulo disse a Filemon que o escravo Onésimo antes lhe fora inútil (Fm 11). Pode-se distinguir nessas palavras o aroma de Lucas 17:10. Onésimo fora escravo de Filemon, portanto lhe fora inútil. Esse o conceito bíblico de servidão.
Lutero foi homem colérico. Historiadores católicos tentaram, de todas as formas, retratá-lo como pecador contumaz. Só não é possível negar que Lutero tenha alcançado sensação profunda da própria miséria e da acabada inutilidade humana. Num texto famoso, ele resumiu nossa condição nas palavras: “Somos mendigos: esta é a verdade”. É preciso desconhecer totalmente a condição humana para negar tal veredito.
No entanto, o mundo está cheio de pessoas que pensam servir a Deus, sem se pensarem inúteis. Quantos sabem tudo sobre tudo! Quantos estavam ao lado de Deus, quando ele lançou os fundamentos da terra, quando lhe pôs medidas e estendeu sobre ela o cordel, quando as bases do mundo foram esquadrinhadas, e as estrelas da alva cantavam de júbilo (Jó 38:4-7). Quantos têm respostas prontas sobre esses e todos os outros mistérios. Sobre o passado remoto e a eternidade futura. Sobre Gênesis e Apocalipse. Sobre tudo o que é preciso para consertar os outros e a própria igreja de Deus. Só não sabem uma coisa: que são totalmente inúteis.
“A criação consistiu em formar tudo o que existe e dizer 'É bom'; a nova criação consiste em o homem, coroa da criação, pronunciar o bom solilóquio.”
E o mais espantoso é que, não raro, esse enxame de presunçosos não está disposto a mover uma palha para buscar a sabedoria. Eles não querem ir para o campo. Muito menos voltar exaustos, preparar a ceia e servir a mesa. Claro que, assim, permanecem infinitamente longe da condição necessária para proclamarem “somos inúteis”. A parábola nem os exorta a dizê-lo, mas a irem para o campo, derramarem suor, conhecerem o que é fadiga e só então se reconhecerem miseráveis, pobres, cegos e nus.
Uma coisa é alguém nada fazer e dizer-se inútil; outra muito diferente é tudo fazer, completar uma obra extenuante, talvez esplendorosa, e dizer sobre ela: “Senhor, sou servo inútil, pois fiz apenas o que devia fazer”. Essa é a obra-prima do Espírito de Deus no homem. A criação consistiu em formar tudo o que existe e dizer “É bom”; a nova criação consiste em o homem, coroa da criação, pronunciar o bom solilóquio.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Evidence for Creation: A Wonderful Find
The verb bara (create) is used only to beings that God formed the first time. With this meaning, the term appears in Genesis 2:4: "This [the story of the six days] is the genesis of heaven and earth when they were created [bara]."
Clearly, the verse refers to the days of Genesis 1 as the creation of heaven and earth. In other words, it makes them a detailed explanation of verse 1:1: "In the beginning God created the heavens and the earth". I want to show that this sense of the days of creation, when compared to scientific data, allows us to make a truly wonderful find.
On the first day, God said "Let there be light. And there was light" (Gen 1:3). The light of the first first day was much weaker than that of the fourth. If the six days describe the original creation, we can compare the first one with the state of the Earth when it was created. The physicist Fred Hoyle describes that state as follows: "Such was the situation in the first few hundred million years of Earth’s history [...] a period of tremendous devastation, during which the surface of the planet was hit by a rain of objects that, due to the greater gravity of Earth, must have been more destructive than the intense bombardment which simultaneously produced the deeply carved landscape of the Moon "(Hoyle, Fred. The intelligent universe - a new perspective of creation and evolution. Lisbon: Presence, 1983. pp. 70-71).
Another physicist, Robert Jastrow, describes the end of the first billion years of Earth as follows: "The earth is a billion years old. There's a chill in the air, because the sun is a star young and relatively weak, producing only half of the radiating heat and light that will produce later "(Jastrow, Robert. Until the sun goes out. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. p. 29). If the Earth was bathed with only half the light that exists today, when it was one billion years old, because the sun was too young, an even smaller amount of light radiation existed when she came into being. And if the planet was constantly bombarded by celestial bodies, we have to agree that the dust thus raised caused the brightness on its surface to decrease even more. Does this scenario agree with the dim light of Genesis 1:3? If the six days synthetize God’s original creation, we can conclude that the first of them does so with admirable precision.
Let’s proceed to the second day, when God made the firmament (atmosphere) between the waters below (the ocean) and above (clouds). Robert Jastrow says: "Once the land was formed, the radioactive atoms contained in the planet started to crumble, one by one. By releasing their small power loads, they heated the rocks inside [...] seven hundred million years after [...] the molten rocks burst through the earth's crust, a volcano erupted, and a stream of lava was poured. Surprisingly, this lava was the source of the atmosphere and oceans of the earth" (pp. idem. 29-30). A third scientist, Hubert Reeves, thus reports the formation of the seas: "When the planet received a vast and dense atmosphere, the water condensed. It rained as it will never happen again. It rained the waters of all the oceans" (Reeves, Hubert. A bit of blue - the cosmic evolution. New York: Random House, 1986. p. 91).
In these descriptions, we see that the atmosphere and the ocean were formed after 700 million years of the Earth spinning in space. This milestone is the beginning of the second day of Genesis, in which the seas and the atmosphere were made. Once more there is clear coincidence between the biblical account of origins and the sequence painfully discovered by science.
The period following the formation of the atmosphere and ocean is described by the scientist as follows: "A shallow sea covers the surface of the planet. Its waters are sterile; there, life will bloom later, but has not yet emerged" (Jastrow, Robert. Op. cit. p. 31). If the soil emerged on the third day, it is because it had been flooded, as the text above informs. At that time, no living creature had been formed. Again, the Genesis account proves wonderfully compatible with science.
Jastrow continues: "The earth has made its first billion years, in the second day of life [metaphor used to facilitate the understanding of evolution], the planet stirs restlessly [...] The intensity of the movement increases, the depths are devastated by convulsions, and the top of the first continents rises above sea level "(idem. p. 35). A billion years refers to the period that followed the formation of the atmosphere and seas, that is, to the third day of Genesis, when the land emerged from the waters. Are we not before another amazing convergence between the Bible and science?
We could stop our analysis at this point, since the structural formation of the planet before the emergence of living beings is complete. If we did, we would have the formidable challenge of explaining the agreement of the biblical text with scientific discoveries made millennia after its writing. Of course, the challenge would prove insurmountable, no matter what conclusion we came to about the formation of living beings.
However, let us go on. Perhaps our eyes are fooling us... Or a spell like those of Jannes and Jambres has paralyzed us. Still on the third day, Genesis narrates the creation of terrestrial plants. Scientific data show that the first fossil records of terrestrial plants are between 500 and 470 million years old (Nature, 30/11/2000). The first large trees called Archaeopteris appeared 370 million years ago (Nature, 22/04/1999). This period may well correspond to the second part of the third day (yom), if each day (yom) is taken as an era of indefinite duration.
On the fourth day, the creation of lights is reported. On this point, the ever-useful narrative of Jastrow asserts: "Rocks a thousand miles bellow the planet’s surface, partially melted and transformed by intense heat and pressure, began to find their way upwards. Molten material reached the surface, volcanoes erupted [...] These changes occurred within and on the surface of the earth, three hundred and fifty million years ago. During the hundred million years prior to that period, the interior of the globe rested in quiet "(Jastrow, Robert. Op. cit. p. 40).
The intense volcanism mentioned in the text appeared soon after the onset of early plants, and raised a thick layer of gas in many parts of the world. These gases prevented the lights (sun, moon and stars) from being seen in the sky. Thus the work of the fourth day coincided with the end of volcanism, and the purification of the atmosphere 350 million years ago. Another wonderful agreement between the Biblical and scientific discourses can be seen.
The fifth day is not applicable to the original creation of the Earth, since the items in it were created (bara) and blessed by God. We must then jump to the sixth day, when God formed reptiles, wild beasts and domestic animals. In the Bible, reptiles are creeping and wingless beings, endowed or not with legs. Such biblical reptiles appeared abundantly in the fossil record between 350 and 250 million years ago. That means after the volcanism of the fourth day.
The first four-legged animals, with complicated names (thecodonts and therapsids), date from the same time. About them, Wikipedia elaborates: "Thecodonts first appeared in the Permian, and flourished until the end of the Triassic period," "The therapsids arose in the Permian period." The same encyclopedia places the Permian between 299 and 251 million years ago. Therefore, the first four-legged animals appeared, at the exact point of Earth's history where the biblical sequence locates them.
The lines above summarize the result of applying the six days to the original creation, in accordance with Genesis 2:4. The comparison with scientific findings shows that the days wonderfully reconstitute the exact sequence in which the structural items and the living beings originated on Earth. Jannes and Jambres would not have done better, even though they had used the best Egyptian secrets.
Before the intellectual landscape thus glanced, is it still possible to consider the seven days a mere account of the restoration of the Earth, after the devastation which made it chaotic and void? Is it still possible to think that the first chapter of Genesis is a mere piece of human craft, and not a divine revelation to man? That it is not an irrefutable evidence of creation?
Clearly, the verse refers to the days of Genesis 1 as the creation of heaven and earth. In other words, it makes them a detailed explanation of verse 1:1: "In the beginning God created the heavens and the earth". I want to show that this sense of the days of creation, when compared to scientific data, allows us to make a truly wonderful find.
On the first day, God said "Let there be light. And there was light" (Gen 1:3). The light of the first first day was much weaker than that of the fourth. If the six days describe the original creation, we can compare the first one with the state of the Earth when it was created. The physicist Fred Hoyle describes that state as follows: "Such was the situation in the first few hundred million years of Earth’s history [...] a period of tremendous devastation, during which the surface of the planet was hit by a rain of objects that, due to the greater gravity of Earth, must have been more destructive than the intense bombardment which simultaneously produced the deeply carved landscape of the Moon "(Hoyle, Fred. The intelligent universe - a new perspective of creation and evolution. Lisbon: Presence, 1983. pp. 70-71).
Another physicist, Robert Jastrow, describes the end of the first billion years of Earth as follows: "The earth is a billion years old. There's a chill in the air, because the sun is a star young and relatively weak, producing only half of the radiating heat and light that will produce later "(Jastrow, Robert. Until the sun goes out. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. p. 29). If the Earth was bathed with only half the light that exists today, when it was one billion years old, because the sun was too young, an even smaller amount of light radiation existed when she came into being. And if the planet was constantly bombarded by celestial bodies, we have to agree that the dust thus raised caused the brightness on its surface to decrease even more. Does this scenario agree with the dim light of Genesis 1:3? If the six days synthetize God’s original creation, we can conclude that the first of them does so with admirable precision.
Let’s proceed to the second day, when God made the firmament (atmosphere) between the waters below (the ocean) and above (clouds). Robert Jastrow says: "Once the land was formed, the radioactive atoms contained in the planet started to crumble, one by one. By releasing their small power loads, they heated the rocks inside [...] seven hundred million years after [...] the molten rocks burst through the earth's crust, a volcano erupted, and a stream of lava was poured. Surprisingly, this lava was the source of the atmosphere and oceans of the earth" (pp. idem. 29-30). A third scientist, Hubert Reeves, thus reports the formation of the seas: "When the planet received a vast and dense atmosphere, the water condensed. It rained as it will never happen again. It rained the waters of all the oceans" (Reeves, Hubert. A bit of blue - the cosmic evolution. New York: Random House, 1986. p. 91).
In these descriptions, we see that the atmosphere and the ocean were formed after 700 million years of the Earth spinning in space. This milestone is the beginning of the second day of Genesis, in which the seas and the atmosphere were made. Once more there is clear coincidence between the biblical account of origins and the sequence painfully discovered by science.
The period following the formation of the atmosphere and ocean is described by the scientist as follows: "A shallow sea covers the surface of the planet. Its waters are sterile; there, life will bloom later, but has not yet emerged" (Jastrow, Robert. Op. cit. p. 31). If the soil emerged on the third day, it is because it had been flooded, as the text above informs. At that time, no living creature had been formed. Again, the Genesis account proves wonderfully compatible with science.
Jastrow continues: "The earth has made its first billion years, in the second day of life [metaphor used to facilitate the understanding of evolution], the planet stirs restlessly [...] The intensity of the movement increases, the depths are devastated by convulsions, and the top of the first continents rises above sea level "(idem. p. 35). A billion years refers to the period that followed the formation of the atmosphere and seas, that is, to the third day of Genesis, when the land emerged from the waters. Are we not before another amazing convergence between the Bible and science?
We could stop our analysis at this point, since the structural formation of the planet before the emergence of living beings is complete. If we did, we would have the formidable challenge of explaining the agreement of the biblical text with scientific discoveries made millennia after its writing. Of course, the challenge would prove insurmountable, no matter what conclusion we came to about the formation of living beings.
However, let us go on. Perhaps our eyes are fooling us... Or a spell like those of Jannes and Jambres has paralyzed us. Still on the third day, Genesis narrates the creation of terrestrial plants. Scientific data show that the first fossil records of terrestrial plants are between 500 and 470 million years old (Nature, 30/11/2000). The first large trees called Archaeopteris appeared 370 million years ago (Nature, 22/04/1999). This period may well correspond to the second part of the third day (yom), if each day (yom) is taken as an era of indefinite duration.
On the fourth day, the creation of lights is reported. On this point, the ever-useful narrative of Jastrow asserts: "Rocks a thousand miles bellow the planet’s surface, partially melted and transformed by intense heat and pressure, began to find their way upwards. Molten material reached the surface, volcanoes erupted [...] These changes occurred within and on the surface of the earth, three hundred and fifty million years ago. During the hundred million years prior to that period, the interior of the globe rested in quiet "(Jastrow, Robert. Op. cit. p. 40).
The intense volcanism mentioned in the text appeared soon after the onset of early plants, and raised a thick layer of gas in many parts of the world. These gases prevented the lights (sun, moon and stars) from being seen in the sky. Thus the work of the fourth day coincided with the end of volcanism, and the purification of the atmosphere 350 million years ago. Another wonderful agreement between the Biblical and scientific discourses can be seen.
The fifth day is not applicable to the original creation of the Earth, since the items in it were created (bara) and blessed by God. We must then jump to the sixth day, when God formed reptiles, wild beasts and domestic animals. In the Bible, reptiles are creeping and wingless beings, endowed or not with legs. Such biblical reptiles appeared abundantly in the fossil record between 350 and 250 million years ago. That means after the volcanism of the fourth day.
The first four-legged animals, with complicated names (thecodonts and therapsids), date from the same time. About them, Wikipedia elaborates: "Thecodonts first appeared in the Permian, and flourished until the end of the Triassic period," "The therapsids arose in the Permian period." The same encyclopedia places the Permian between 299 and 251 million years ago. Therefore, the first four-legged animals appeared, at the exact point of Earth's history where the biblical sequence locates them.
The lines above summarize the result of applying the six days to the original creation, in accordance with Genesis 2:4. The comparison with scientific findings shows that the days wonderfully reconstitute the exact sequence in which the structural items and the living beings originated on Earth. Jannes and Jambres would not have done better, even though they had used the best Egyptian secrets.
Before the intellectual landscape thus glanced, is it still possible to consider the seven days a mere account of the restoration of the Earth, after the devastation which made it chaotic and void? Is it still possible to think that the first chapter of Genesis is a mere piece of human craft, and not a divine revelation to man? That it is not an irrefutable evidence of creation?
domingo, 15 de janeiro de 2012
O Juiz Iníquo
Assim como a parábola da figueira se segue ao discurso sobre Jerusalém sitiada, no capítulo 21, versos 7 a 28 de Lucas, a história do juiz iníquo vem logo depois do texto sobre a segunda vinda de Cristo, em 17:20-37. Esse dado é importante para entendermos que a parábola do juiz não se refere somente à oração, mas à oração escatológica.
Jesus afirmou que “os dias do Filho do homem” seriam como os de Noé e Sodoma, antes do julgamento de Deus desabar sobre ela (Lc 17:26-32). Os dois episódios formam o pano de fundo da parábola do juiz. Nos dias de Noé, as pessoas não apenas “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento” (Lc 17:27). Se isso fosse tudo a ocorrer, o juízo divino não teria arrasado aquela civilização. Semelhantemente, quando Ló residia em Sodoma, os habitantes locais não apenas “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc 17:28). Por trás desses atos legítimos, ocultavam-se pecados terríveis, que os homens de então praticavam e que selaram a sua condenação.
Para se ter ideia da gravidade das violações ocorridas antes do Dilúvio, basta lembrar que os filhos de Deus uniram-se com as filhas dos homens que mais lhes agradaram (Gn 6:1-2). Dois autores do século XIX (G. H. Pember e G. H. Lang) mostraram, com bons argumentos, que os filhos de Deus daquela época eram seres angélicos. Portanto, as uniões ilegítimas deles com as filhas dos homens serviram para interligar o mundo humano e a esfera angélica. A separação instituída por Deus, entre essas duas ordens da sua criação, foi totalmente desrespeitada. Esse foi o pecado que inaugurou o caos anterior ao Dilúvio.
A mesma tendência à anomia e à mais aguda desordem manifestou-se em Sodoma, cujos habitantes pretenderam abusar dos anjos que Ló recebera em sua casa (Gn 19:1-5). Portanto, não estamos a falar de pecados comuns, mas de violações gravíssimas, de verdadeiras subversões da ordem instituída por Deus para a vida humana e angélica. Foi esse tipo de pecado que Jesus predisse que aconteceria, de novo, “nos dias do Filho do homem”, inclusive antes da sua segunda vinda.
A parábola do juiz iníquo coloca os atos do adversário da mulher enviuvada, em paralelo com os pecados da época de Noé e dos sodomitas. A viúva roga ao juiz que lhe faça justiça contra essa laia, contra essa “raça” ímpia. Devemos interpretar seus rogos insistentes e às vezes desesperados como clamores por sobrevivência. A mulher ergue sua voz, como Noé ergueu a sua quando a violência encheu a terra, em seus dias (Gn 6:11), como Ló insistiu com os anjos para que entrassem na sua casa e como os israelitas clamaram a Deus, sob a cruel opressão de Faraó. Esses clamores mudaram a história, nas suas respectivas épocas. Jesus assegurou-nos que o da viúva a mudará ainda hoje.
Ele usou a figura do juiz iníquo, não porque Deus seja mau, mas porque os juízes romanos da sua época o eram. Essa era a figura que estava à disposição. Ela calha perfeitamente para ilustrar o que mais estarrece os crentes na face da Terra: a injusta prosperidade dos ímpios. Não é incomum homens maus, com o perfil do adversário da viúva, levarem vida regalada, terem poder sobre os justos, comandarem instituições públicas e o próprio mundo. Não é incomum eles fazerem tudo isso, enquanto nutrem as mais pérfidas intenções para com os justos. O paralelo com as épocas de Noé e Sodoma mostra que isso se dá, porque o adversário da frágil viúva vive em promiscuidade com espíritos maus, anjos caídos e demônios, que o influenciam e impelem.
“Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16): a da viúva é a súplica por excelência, a oração exemplar, paradigmática, o rogo incendiado, que faz Deus erguer diques na História.
A esse terrível estado de coisas, Jesus ensinou-nos a opor a oração da viúva. A oração é o antídoto para a prosperidade dos ímpios. É instrutivo como a parábola afirma que as constantes súplicas da mulher infelicitada forçam o juiz a realizar o que não pretende. Mais uma vez, a lição ministrada não deve ser extraída literalmente. Não se trata de que Deus não deseje livrar o seu povo das garras do adversário, mas de que ele não o pretende fazer, no momento em que a oração o desperta. No entanto, paradoxalmente, é isso que ele faz.
Deus não antecipa a vinda de Cristo, para socorrer os seus. Ele os socorre antes daquela vinda, para que não sejam consumidos pelo adversário que ruge como leão. Porém, uma ressalva há ser feita: a parábola ensina que Deus só intervém, após a viúva derramar suas súplicas. “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16): a da viúva é a súplica por excelência, a oração exemplar, paradigmática, o rogo incendiado, que faz Deus erguer diques na História.
Jesus afirmou que “os dias do Filho do homem” seriam como os de Noé e Sodoma, antes do julgamento de Deus desabar sobre ela (Lc 17:26-32). Os dois episódios formam o pano de fundo da parábola do juiz. Nos dias de Noé, as pessoas não apenas “comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento” (Lc 17:27). Se isso fosse tudo a ocorrer, o juízo divino não teria arrasado aquela civilização. Semelhantemente, quando Ló residia em Sodoma, os habitantes locais não apenas “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc 17:28). Por trás desses atos legítimos, ocultavam-se pecados terríveis, que os homens de então praticavam e que selaram a sua condenação.
Para se ter ideia da gravidade das violações ocorridas antes do Dilúvio, basta lembrar que os filhos de Deus uniram-se com as filhas dos homens que mais lhes agradaram (Gn 6:1-2). Dois autores do século XIX (G. H. Pember e G. H. Lang) mostraram, com bons argumentos, que os filhos de Deus daquela época eram seres angélicos. Portanto, as uniões ilegítimas deles com as filhas dos homens serviram para interligar o mundo humano e a esfera angélica. A separação instituída por Deus, entre essas duas ordens da sua criação, foi totalmente desrespeitada. Esse foi o pecado que inaugurou o caos anterior ao Dilúvio.
A mesma tendência à anomia e à mais aguda desordem manifestou-se em Sodoma, cujos habitantes pretenderam abusar dos anjos que Ló recebera em sua casa (Gn 19:1-5). Portanto, não estamos a falar de pecados comuns, mas de violações gravíssimas, de verdadeiras subversões da ordem instituída por Deus para a vida humana e angélica. Foi esse tipo de pecado que Jesus predisse que aconteceria, de novo, “nos dias do Filho do homem”, inclusive antes da sua segunda vinda.
A parábola do juiz iníquo coloca os atos do adversário da mulher enviuvada, em paralelo com os pecados da época de Noé e dos sodomitas. A viúva roga ao juiz que lhe faça justiça contra essa laia, contra essa “raça” ímpia. Devemos interpretar seus rogos insistentes e às vezes desesperados como clamores por sobrevivência. A mulher ergue sua voz, como Noé ergueu a sua quando a violência encheu a terra, em seus dias (Gn 6:11), como Ló insistiu com os anjos para que entrassem na sua casa e como os israelitas clamaram a Deus, sob a cruel opressão de Faraó. Esses clamores mudaram a história, nas suas respectivas épocas. Jesus assegurou-nos que o da viúva a mudará ainda hoje.
Ele usou a figura do juiz iníquo, não porque Deus seja mau, mas porque os juízes romanos da sua época o eram. Essa era a figura que estava à disposição. Ela calha perfeitamente para ilustrar o que mais estarrece os crentes na face da Terra: a injusta prosperidade dos ímpios. Não é incomum homens maus, com o perfil do adversário da viúva, levarem vida regalada, terem poder sobre os justos, comandarem instituições públicas e o próprio mundo. Não é incomum eles fazerem tudo isso, enquanto nutrem as mais pérfidas intenções para com os justos. O paralelo com as épocas de Noé e Sodoma mostra que isso se dá, porque o adversário da frágil viúva vive em promiscuidade com espíritos maus, anjos caídos e demônios, que o influenciam e impelem.
“Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16): a da viúva é a súplica por excelência, a oração exemplar, paradigmática, o rogo incendiado, que faz Deus erguer diques na História.
A esse terrível estado de coisas, Jesus ensinou-nos a opor a oração da viúva. A oração é o antídoto para a prosperidade dos ímpios. É instrutivo como a parábola afirma que as constantes súplicas da mulher infelicitada forçam o juiz a realizar o que não pretende. Mais uma vez, a lição ministrada não deve ser extraída literalmente. Não se trata de que Deus não deseje livrar o seu povo das garras do adversário, mas de que ele não o pretende fazer, no momento em que a oração o desperta. No entanto, paradoxalmente, é isso que ele faz.
Deus não antecipa a vinda de Cristo, para socorrer os seus. Ele os socorre antes daquela vinda, para que não sejam consumidos pelo adversário que ruge como leão. Porém, uma ressalva há ser feita: a parábola ensina que Deus só intervém, após a viúva derramar suas súplicas. “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5:16): a da viúva é a súplica por excelência, a oração exemplar, paradigmática, o rogo incendiado, que faz Deus erguer diques na História.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Evidências da Criação (6): Um Achado Maravilhoso
Vimos que o verbo bara (criar) é usado só para os seres que Deus formou pela primeira vez. Com esse significado, o termo aparece em Gênesis 2:4: “Esta [a história dos seis dias] é a gênese dos céus e da terra, quando foram criados [bara]”.
Claramente, o versículo se refere aos dias de Gênesis 1 como a criação dos céus e da terra, portanto como o detalhamento do que está afirmado concisamente no verso “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1). Desejo mostrar que esse sentido dos dias da criação, quando comparado aos dados científicos, nos permite realizar um achado verdadeiramente maravilhoso.
No primeiro dia, Deus disse: “Haja luz. E houve luz” (Gn 1:3). A luz do primeiro dia era muito mais fraca que a que surgiu com os luzeiros. Se os dias descrevem a criação original, podemos comparar o primeiro deles ao estado da Terra, logo que foi criada. O físico Fred Hoyle descreve esse estado da seguinte maneira: “É este o quadro correspondente às primeiras centenas de milhões de anos da história da Terra [...] um período de formidável devastação, durante o qual a superfície da Terra foi atingida por uma chuva de objetos que, devido à maior gravidade da Terra, deve ter sido mais destrutiva do que o intenso bombardeamento que simultaneamente produzia a paisagem marcada da Lua” (HOYLE, Fred. O universo inteligente – uma nova perspectiva da criação e da evolução. Lisboa: Presença, 1983. pp. 70-71).
Outro físico, Robert Jastrow, descreve o final do primeiro bilhão de anos da Terra nos seguintes termos: “A terra está com um bilhão de anos de idade. Há uma friagem no ar, pois o sol é um astro jovem e relativamente fraco, irradiando apenas a metade do calor e da luz que irá produzir mais tarde” (JASTROW, Robert. Até que o sol se apague. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. p. 29).
Se com um bilhão de anos, a Terra era banhada por metade da luz existente hoje, pois o sol era jovem demais, uma quantidade ainda menor de radiação luminosa existia quando ela se formou. E se o planeta era bombardeado constantemente por corpos celestes, temos de convir que a poeira erguida diminuía ainda mais a luminosidade. Esse cenário não é assaz convergente com o da luz tênue de Gênesis 1:3? Se os seis dias registram os atos criadores de Deus, pode-se concluir que o primeiro o faz com admirável precisão.
Avancemos, porém, ao segundo dia, quando Deus fez o firmamento (a atmosfera), entre as águas de baixo (o oceano) e as de cima (as nuvens). É ainda Robert Jastrow quem diz: “Assim que a terra se formou, os átomos radioativos contidos no planeta começaram a desintegrar-se, um a um. Ao liberar suas pequenas cargas de energia, aqueceram as rochas internas [...] setecentos milhões de anos depois [...] lá em cima, nos pontos fracos, a rocha fundida irrompeu pela crosta terrestre, um vulcão entrou em erupção na superfície e uma torrente de lava foi derramada. Surpreendentemente, essa lava foi a fonte da atmosfera e dos oceanos da terra” (idem. pp. 29-30). Um terceiro cientista, Hubert Reeves, assim relata a formação dos mares: “Quando o planeta se reveste de vasta e densa atmosfera, a água se condensa. Chove como nunca mais choverá. Chovem todos os oceanos” (REEVES, Hubert. Um pouco mais de azul – a evolução cósmica. São Paulo: Martins Fontes, 1986. p. 91).
Por essas descrições se vê que a atmosfera e o oceano foram formados, após 700 milhões de anos de existência da Terra a girar pelo espaço. Esse marco corresponde ao início do segundo dia de Gênesis, no qual os mares e a atmosfera foram constituídos. Portanto, mais uma vez, há manifesta coincidência entre o relato bíblico e a sequência de origens penosamente descoberta pela ciência.
O período seguinte ao da formação da atmosfera e do oceano é descrito nos seguintes termos pelo cientista: “Um mar raso cobre a superfície do planeta. Suas águas são estéreis; nelas, a vida brotará mais tarde, embora ainda não tenha surgido” (JASTROW, Robert. Ob. cit. p. 31). Se a terra emergiu das águas, no terceiro dia, é porque havia estado inundada, como o texto citado esclarece. Nessa época, nenhum ser vivente havia sido formado. De novo, a descrição de Gênesis se mostra maravilhosamente compatível com a da ciência.
Jastrow prossegue: “A terra já deixou seu primeiro bilhão de anos para trás; hoje, no segundo dia de vida [metáfora usada por ele para facilitar o entendimento da evolução], o planeta adormecido remexe-se incansavelmente [...] A intensidade do movimento aumenta; logo as profundezas são devastadas por convulsões, e o topo dos primeiros continentes ergue-se acima do nível do mar” (idem. p. 35). Um bilhão de anos nos remete ao período que se seguiu à formação da atmosfera e dos mares. Portanto, ao terceiro dia de Gênesis, quando a terra emergiu das águas. Não estamos, de novo, diante de uma convergência espantosa entre a Bíblia e a ciência?
Poderíamos parar a análise neste ponto, posto que a formação estrutural do planeta, antes do surgimento dos seres vivos, está concluída. Se o fizéssemos, já teríamos o desafio formidável de explicar a concordância do texto analisado com descobertas científicas realizadas milênios depois da sua redação. Claro que o desafio seria insuperável, independentemente do que viéssemos a concluir sobre a formação dos seres vivos.
Porém, prossigamos. Talvez nossos olhos estejam a iludir-nos... Talvez um feitiço, como os de Janes e Jambres, nos tenha paralisado. Ainda no terceiro dia, Gênesis narra a criação dos vegetais terrestres. Os dados científicos mostram que as primeiras plantas terrestres do registro fóssil têm entre 500 e 470 milhões de anos (Revista Nature, 30/11/2000). As primeiras árvores de grande porte, chamadas archaeopteris, são de 370 milhões de anos atrás (Revista Nature, 22/04/1999). Esse período pode perfeitamente corresponder à segunda parte do terceiro dia (yom), se cada dia (yom) for tomado como uma era de duração indefinida.
No quarto dia, é narrada a criação dos luzeiros. Sobre esse ponto, a sempre útil narrativa de Jastrow assevera: “Rochas a mil quilômetros abaixo da superfície do planeta, parcialmente derretidas e transformadas por calor e pressão intensa, começaram a abrir caminho para cima. Material derretido atingiu a superfície; vulcões entraram em erupção [...] Essas mudanças ocorreram, no interior e na superfície da terra, há trezentos e cinqüenta milhões de anos. Durante os cem milhões de anos anteriores àquele período, o interior da terra repousava em calma” (JASTROW, Robert. Ob. cit. p. 40).
O intenso vulcanismo a que Jastrow se refere coincidiu com a colisão de um meteorito com a Terra, há 360 milhões de anos. A colisão resultou numa gigantesca cratera descoberta em 2013 na bacia de East Warburton, no sul da Austrália, que tem 10 a 20 km de diâmetro. De acordo com Andrew Glikson, professor convidado da Universidade Nacional da Austrália, "o que realmente impressiona é a extensão da zona de impacto, de no mínimo 200 km (de diâmetro), o que torna a terceira maior superfície no mundo impactada por um corpo celeste”. Glikson concluiu que a queda desse asteroide, há 360 milhões de anos, provocou um "impacto regional e mundial" (GLIKSON, Andrew. Uol News. 20/02/2013, 19h32). Não é preciso acrescentar que esse evento cataclísmico ajusta-se com precisão aos fatos do final do terceiro dia da criação. Portanto, a obra do quarto dia consistiu no desanuviamento da atmosfera terrestre, após a colisão do meteorito e o surto de vulcanismo descritos.
O quinto dia não se aplica à criação original da Terra, pois os itens nele originados foram criados pela primeira vez e abençoados por Deus. Devemos, então, saltar para o sexto dia, quando foram formados os répteis, os animais selvagens e os domésticos. Na Bíblia, répteis são seres rastejantes, sem asas e dotados ou não de patas.
Os répteis bíblicos surgiram abundantemente, no registro fóssil, entre 350 e 250 milhões de anos. Portanto, após o fim do vulcanismo do quarto dia. Os primeiros animais quadrúpedes, de nome complicado (tecodontes e terapsidas), datam da mesma época. Sobre eles, a Wikipedia discorre: “Os tecodontes [...] apareceram pela primeira vez no Permiano e floresceram até ao fim do período Triássico”; “Os terapsídeos surgiram no período Permiano”. A enciclopédia situa o Permiano, entre 299 e 251 milhões de anos atrás. Portanto, também os primeiros animais não rastejantes surgiram, no ponto exato da História da Terra em que a sequência bíblica os localiza.
As linhas acima resumem o resultado da aplicação dos seis dias à criação original. A comparação com as descobertas científicas mostra que os dias reconstituem, de modo maravilhoso, a exata sequência de origens dos itens estruturais e dos seres vivos da Terra. Janes e Jambres não teriam feito melhor, ainda que tivessem tentado revelar as origens com base nos mais bem guardados segredos egípcios.
Ante tamanha convergência, será possível pensar que os sete dias descrevem apenas a recriação e não a criação original de Deus? Mais do que isso: será possível pensar que o capítulo 1 de Gênesis é um simples relato humano e não uma revelação divina? Ou que ele não constitui uma irrefutável evidência da criação?
Claramente, o versículo se refere aos dias de Gênesis 1 como a criação dos céus e da terra, portanto como o detalhamento do que está afirmado concisamente no verso “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1). Desejo mostrar que esse sentido dos dias da criação, quando comparado aos dados científicos, nos permite realizar um achado verdadeiramente maravilhoso.
No primeiro dia, Deus disse: “Haja luz. E houve luz” (Gn 1:3). A luz do primeiro dia era muito mais fraca que a que surgiu com os luzeiros. Se os dias descrevem a criação original, podemos comparar o primeiro deles ao estado da Terra, logo que foi criada. O físico Fred Hoyle descreve esse estado da seguinte maneira: “É este o quadro correspondente às primeiras centenas de milhões de anos da história da Terra [...] um período de formidável devastação, durante o qual a superfície da Terra foi atingida por uma chuva de objetos que, devido à maior gravidade da Terra, deve ter sido mais destrutiva do que o intenso bombardeamento que simultaneamente produzia a paisagem marcada da Lua” (HOYLE, Fred. O universo inteligente – uma nova perspectiva da criação e da evolução. Lisboa: Presença, 1983. pp. 70-71).
Outro físico, Robert Jastrow, descreve o final do primeiro bilhão de anos da Terra nos seguintes termos: “A terra está com um bilhão de anos de idade. Há uma friagem no ar, pois o sol é um astro jovem e relativamente fraco, irradiando apenas a metade do calor e da luz que irá produzir mais tarde” (JASTROW, Robert. Até que o sol se apague. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980. p. 29).
Se com um bilhão de anos, a Terra era banhada por metade da luz existente hoje, pois o sol era jovem demais, uma quantidade ainda menor de radiação luminosa existia quando ela se formou. E se o planeta era bombardeado constantemente por corpos celestes, temos de convir que a poeira erguida diminuía ainda mais a luminosidade. Esse cenário não é assaz convergente com o da luz tênue de Gênesis 1:3? Se os seis dias registram os atos criadores de Deus, pode-se concluir que o primeiro o faz com admirável precisão.
Avancemos, porém, ao segundo dia, quando Deus fez o firmamento (a atmosfera), entre as águas de baixo (o oceano) e as de cima (as nuvens). É ainda Robert Jastrow quem diz: “Assim que a terra se formou, os átomos radioativos contidos no planeta começaram a desintegrar-se, um a um. Ao liberar suas pequenas cargas de energia, aqueceram as rochas internas [...] setecentos milhões de anos depois [...] lá em cima, nos pontos fracos, a rocha fundida irrompeu pela crosta terrestre, um vulcão entrou em erupção na superfície e uma torrente de lava foi derramada. Surpreendentemente, essa lava foi a fonte da atmosfera e dos oceanos da terra” (idem. pp. 29-30). Um terceiro cientista, Hubert Reeves, assim relata a formação dos mares: “Quando o planeta se reveste de vasta e densa atmosfera, a água se condensa. Chove como nunca mais choverá. Chovem todos os oceanos” (REEVES, Hubert. Um pouco mais de azul – a evolução cósmica. São Paulo: Martins Fontes, 1986. p. 91).
Por essas descrições se vê que a atmosfera e o oceano foram formados, após 700 milhões de anos de existência da Terra a girar pelo espaço. Esse marco corresponde ao início do segundo dia de Gênesis, no qual os mares e a atmosfera foram constituídos. Portanto, mais uma vez, há manifesta coincidência entre o relato bíblico e a sequência de origens penosamente descoberta pela ciência.
O período seguinte ao da formação da atmosfera e do oceano é descrito nos seguintes termos pelo cientista: “Um mar raso cobre a superfície do planeta. Suas águas são estéreis; nelas, a vida brotará mais tarde, embora ainda não tenha surgido” (JASTROW, Robert. Ob. cit. p. 31). Se a terra emergiu das águas, no terceiro dia, é porque havia estado inundada, como o texto citado esclarece. Nessa época, nenhum ser vivente havia sido formado. De novo, a descrição de Gênesis se mostra maravilhosamente compatível com a da ciência.
Jastrow prossegue: “A terra já deixou seu primeiro bilhão de anos para trás; hoje, no segundo dia de vida [metáfora usada por ele para facilitar o entendimento da evolução], o planeta adormecido remexe-se incansavelmente [...] A intensidade do movimento aumenta; logo as profundezas são devastadas por convulsões, e o topo dos primeiros continentes ergue-se acima do nível do mar” (idem. p. 35). Um bilhão de anos nos remete ao período que se seguiu à formação da atmosfera e dos mares. Portanto, ao terceiro dia de Gênesis, quando a terra emergiu das águas. Não estamos, de novo, diante de uma convergência espantosa entre a Bíblia e a ciência?
Poderíamos parar a análise neste ponto, posto que a formação estrutural do planeta, antes do surgimento dos seres vivos, está concluída. Se o fizéssemos, já teríamos o desafio formidável de explicar a concordância do texto analisado com descobertas científicas realizadas milênios depois da sua redação. Claro que o desafio seria insuperável, independentemente do que viéssemos a concluir sobre a formação dos seres vivos.
Porém, prossigamos. Talvez nossos olhos estejam a iludir-nos... Talvez um feitiço, como os de Janes e Jambres, nos tenha paralisado. Ainda no terceiro dia, Gênesis narra a criação dos vegetais terrestres. Os dados científicos mostram que as primeiras plantas terrestres do registro fóssil têm entre 500 e 470 milhões de anos (Revista Nature, 30/11/2000). As primeiras árvores de grande porte, chamadas archaeopteris, são de 370 milhões de anos atrás (Revista Nature, 22/04/1999). Esse período pode perfeitamente corresponder à segunda parte do terceiro dia (yom), se cada dia (yom) for tomado como uma era de duração indefinida.
No quarto dia, é narrada a criação dos luzeiros. Sobre esse ponto, a sempre útil narrativa de Jastrow assevera: “Rochas a mil quilômetros abaixo da superfície do planeta, parcialmente derretidas e transformadas por calor e pressão intensa, começaram a abrir caminho para cima. Material derretido atingiu a superfície; vulcões entraram em erupção [...] Essas mudanças ocorreram, no interior e na superfície da terra, há trezentos e cinqüenta milhões de anos. Durante os cem milhões de anos anteriores àquele período, o interior da terra repousava em calma” (JASTROW, Robert. Ob. cit. p. 40).
O intenso vulcanismo a que Jastrow se refere coincidiu com a colisão de um meteorito com a Terra, há 360 milhões de anos. A colisão resultou numa gigantesca cratera descoberta em 2013 na bacia de East Warburton, no sul da Austrália, que tem 10 a 20 km de diâmetro. De acordo com Andrew Glikson, professor convidado da Universidade Nacional da Austrália, "o que realmente impressiona é a extensão da zona de impacto, de no mínimo 200 km (de diâmetro), o que torna a terceira maior superfície no mundo impactada por um corpo celeste”. Glikson concluiu que a queda desse asteroide, há 360 milhões de anos, provocou um "impacto regional e mundial" (GLIKSON, Andrew. Uol News. 20/02/2013, 19h32). Não é preciso acrescentar que esse evento cataclísmico ajusta-se com precisão aos fatos do final do terceiro dia da criação. Portanto, a obra do quarto dia consistiu no desanuviamento da atmosfera terrestre, após a colisão do meteorito e o surto de vulcanismo descritos.
O quinto dia não se aplica à criação original da Terra, pois os itens nele originados foram criados pela primeira vez e abençoados por Deus. Devemos, então, saltar para o sexto dia, quando foram formados os répteis, os animais selvagens e os domésticos. Na Bíblia, répteis são seres rastejantes, sem asas e dotados ou não de patas.
Os répteis bíblicos surgiram abundantemente, no registro fóssil, entre 350 e 250 milhões de anos. Portanto, após o fim do vulcanismo do quarto dia. Os primeiros animais quadrúpedes, de nome complicado (tecodontes e terapsidas), datam da mesma época. Sobre eles, a Wikipedia discorre: “Os tecodontes [...] apareceram pela primeira vez no Permiano e floresceram até ao fim do período Triássico”; “Os terapsídeos surgiram no período Permiano”. A enciclopédia situa o Permiano, entre 299 e 251 milhões de anos atrás. Portanto, também os primeiros animais não rastejantes surgiram, no ponto exato da História da Terra em que a sequência bíblica os localiza.
As linhas acima resumem o resultado da aplicação dos seis dias à criação original. A comparação com as descobertas científicas mostra que os dias reconstituem, de modo maravilhoso, a exata sequência de origens dos itens estruturais e dos seres vivos da Terra. Janes e Jambres não teriam feito melhor, ainda que tivessem tentado revelar as origens com base nos mais bem guardados segredos egípcios.
Ante tamanha convergência, será possível pensar que os sete dias descrevem apenas a recriação e não a criação original de Deus? Mais do que isso: será possível pensar que o capítulo 1 de Gênesis é um simples relato humano e não uma revelação divina? Ou que ele não constitui uma irrefutável evidência da criação?
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Evidências da Criação (2): Três Interpretações de Gênesis
Na primeira postagem desta série, vimos que um paradigma ou modelo interpretativo da criação foi elaborado, pelos pais da igreja cristã, e aceito por séculos a fio. Esse paradigma emergiu da desconfiança para com a interpretação literal dos textos que descreviam o Universo como um semicírculo dividido em camadas, que repousavam sobre colunas. Porém, embora relativizasse o sentido literal desses versículos, o paradigma patrístico interpretava literalmente os capítulos 1 e 2 de Gênesis.
Com o desenvolvimento da Teoria da Evolução, por Charles Darwin, eruditos e intérpretes das Escrituras, como G. H. Pember, promoveram a primeira grande releitura de Gênesis 1, com base em novas evidências científicas. Dessa releitura emergiu um segundo modelo interpretativo, que não abandonou a exegese do Período Patrístico, mas lhe acrescentou um ou outro dado novo, assim como o intervalo entre Gênesis 1:1 e 1:2 ou a interpretação dos seis dias como eras. Porém, o conhecimento de um número cada vez maior de fatos sobre as origens tem provocado um desgaste tão grande desse segundo modelo quanto do primeiro.
Não é possível, nos limites desta série de postagens, apresentar o desgaste em detalhes. Vou-me limitar a mostrar como ele se manifesta na interpretação de Gênesis 1 apresentada por Pember. A quantidade de vezes que esse autor menciona os fósseis, no clássico As eras mais primitivas da Terra, mostra como a sua releitura de Gênesis 1 foi motivada pelo desenvolvimento das ciências naturais. Nas suas próprias palavras, “Vemos, então, que Deus criou os céus e a terra no princípio, de um modo lindo e perfeito [...] Conforme os resíduos de fósseis claramente mostram, não houve apenas doença e morte [nesse período] – companheiros inseparáveis do pecado então predominante entre as criaturas vivas da terra – mas até mesmo ferocidade e matança” (ob. cit. São Paulo: Editora dos Clássicos, 2002. Tomo 1, pp. 59-60). Se os fósseis mencionados são de plantas e animais mortos, a morte e até mesmo a violência já exerciam o seu império na criação primitiva, o que Pember aceitou e explicou muito bem por meio do intervalo.
Porém, em quase todos os outros pontos, a interpretação que ele nos transmitiu reafirma o modelo patrístico. Vejamos por quê. Para Pember, antes da queda, “o espírito que Deus soprara dentro de [Adão e Eva] guardava total poder e vigor [...] e brilhando pela forma física, projetava uma auréola lustrosa ao redor de ambos” (idem. p. 152). Essa é uma nítida reafirmação da ideia patrística de que os corpos de Adão e Eva eram etéreos e distintos dos nossos. Ao referir-se à tentação de Eva pela serpente, o autor inglês afirmou: “A serpente se aproximou e dirigiu-se a ela. O fato de ela não se ter assustado parece indicar a existência de uma comunicação inteligente entre o homem e as criaturas inferiores antes da queda” (idem. p. 140). Aqui, o texto de Pember admite a interpretação literal da comunicação da serpente com Eva. Dessa comunicação sobreveio o pecado, “o feito fatal, que, aproximadamente seis mil anos não foram suficientes para obliterar” (idem. p. 146). As palavras seis mil anos deixam claro que os acontecimentos do Jardim do Éden devem ser situados nesse tempo. Sobre o Dilúvio, ele declarou: “O mundo tremeu com os rápidos pingos de chuva que caíam, os primeiros que eles já tinham contemplado” (idem. p. 217). Neste ponto, é reafirmada a interpretação literal de Gênesis 2:5-6, que dizem que o Senhor ainda não fizera chover sobre a terra.
Por esses exemplos se vê que G. H. Pember aderiu fortemente ao modelo antigo de interpretação literal de Gênesis. A esse quadro, por si já bastante problemático, ele ainda acrescentou dificuldades novas. Por exemplo, o cataclisma que destruiu o planeta, resultando no quadro de Gênesis 1:2, foi descrito da seguinte maneira: “A terra arruinada [...] foi inundada pelas águas do oceano; seu sol havia-se extinguido, as estrelas não eram mais vistas, suas nuvens e atmosfera, não tendo força de atração para mantê-las em suspensão, haviam descido” (idem. p. 101). Pember comparou esse acontecimento com o Dilúvio de Noé, quando “a arca flutuava sobre as águas, e a terra foi mais uma vez, quase como havia sido antes dos seis dias de restauração, coberta, até o pico mais elevado, pelo oceano” (idem. p. 217). Contra essa descrição do cataclisma universal, milita o fato de não haver o menor indício de inundações totais da Terra, nos últimos três bilhões de anos, muito menos há seis mil. Há ainda a passagem de As eras mais primitivas que afirma que o cataclisma levou a Terra a "um estado de completa desolação, ficando totalmente sem vida. Não apenas seus lugares frutíferos se tornaram um deserto, e todas as suas cidades foram destruídas" (idem. p. 59). Nesse trecho de sua famosa obra, Pember supôs a existência de verdadeiras cidades, quando o cataclisma desabou sobre a Terra.
Portanto, analisada amplamente, a teoria de Pember (como as da maioria dos outros autores que acrescentaram algum tipo de remendo à interpretação literal antiga) está longe de cumprir o que ele pretendeu ao escrevê-la (1876). As afirmações do livro de Pember não explicam um bom número de fatos e se chocam com outros ainda mais numerosos. Necessário é, portanto, buscar um terceiro modelo interpretativo de Gênesis 1. Mais do que isso: para que o novo modelo alcance o que se propõe, é preciso fazê-lo negar amplamente, não apenas num ponto ou outro, a interpretação literal. Isso não significa negar que o relato bíblico formule afirmações sobre a História Natural. É exatamente isso que ele faz, como mostrarei nesta série. Todavia, é bom lembrar que a Bíblia o faz num quadro geral de seis dias com tardes e manhãs metafóricas.
Essa primeira metáfora, que emoldura o capítulo 1 de Gênesis, cria um importante precedente para a interpretação alegórica de ainda outros textos sobre a criação. Por que não entendermos Gênesis 2 nos termos propostos por Orígenes de Alexandria, no século III: “O jardim e a maneira como se diz que Deus o plantou ‘no Éden, no Oriente’, e que em seguida fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal [...] tudo isto pode, sem inconveniência, ser interpretado em sentido figurado” (ALEXANDRIA, Orígenes de. Contra Celso. São Paulo: Paulus, 2004. p. 318)?
Mesmo assim, a contribuição de Pember à exegese de Gênesis 1 é inestimável. Sua teoria do intervalo permanece atual e válida, embora possa (e a meu ver deva) ser compatibilizada com a interpretação dos seis dias como eras. Porém, ao harmonizarmos as teorias, é útil apararmos os excessos da exegese literal, que Pember herdou do modelo patrístico de interpretação. Não estamos mais no século III ou IV, nem no século de Pember, para reincidirmos em tal erro. Estamos no século XXI e é nele que Deus quer que estejamos. Ou será que a exegese literal da criação se ajusta ao século em que vivemos?
Com o desenvolvimento da Teoria da Evolução, por Charles Darwin, eruditos e intérpretes das Escrituras, como G. H. Pember, promoveram a primeira grande releitura de Gênesis 1, com base em novas evidências científicas. Dessa releitura emergiu um segundo modelo interpretativo, que não abandonou a exegese do Período Patrístico, mas lhe acrescentou um ou outro dado novo, assim como o intervalo entre Gênesis 1:1 e 1:2 ou a interpretação dos seis dias como eras. Porém, o conhecimento de um número cada vez maior de fatos sobre as origens tem provocado um desgaste tão grande desse segundo modelo quanto do primeiro.
Não é possível, nos limites desta série de postagens, apresentar o desgaste em detalhes. Vou-me limitar a mostrar como ele se manifesta na interpretação de Gênesis 1 apresentada por Pember. A quantidade de vezes que esse autor menciona os fósseis, no clássico As eras mais primitivas da Terra, mostra como a sua releitura de Gênesis 1 foi motivada pelo desenvolvimento das ciências naturais. Nas suas próprias palavras, “Vemos, então, que Deus criou os céus e a terra no princípio, de um modo lindo e perfeito [...] Conforme os resíduos de fósseis claramente mostram, não houve apenas doença e morte [nesse período] – companheiros inseparáveis do pecado então predominante entre as criaturas vivas da terra – mas até mesmo ferocidade e matança” (ob. cit. São Paulo: Editora dos Clássicos, 2002. Tomo 1, pp. 59-60). Se os fósseis mencionados são de plantas e animais mortos, a morte e até mesmo a violência já exerciam o seu império na criação primitiva, o que Pember aceitou e explicou muito bem por meio do intervalo.
Porém, em quase todos os outros pontos, a interpretação que ele nos transmitiu reafirma o modelo patrístico. Vejamos por quê. Para Pember, antes da queda, “o espírito que Deus soprara dentro de [Adão e Eva] guardava total poder e vigor [...] e brilhando pela forma física, projetava uma auréola lustrosa ao redor de ambos” (idem. p. 152). Essa é uma nítida reafirmação da ideia patrística de que os corpos de Adão e Eva eram etéreos e distintos dos nossos. Ao referir-se à tentação de Eva pela serpente, o autor inglês afirmou: “A serpente se aproximou e dirigiu-se a ela. O fato de ela não se ter assustado parece indicar a existência de uma comunicação inteligente entre o homem e as criaturas inferiores antes da queda” (idem. p. 140). Aqui, o texto de Pember admite a interpretação literal da comunicação da serpente com Eva. Dessa comunicação sobreveio o pecado, “o feito fatal, que, aproximadamente seis mil anos não foram suficientes para obliterar” (idem. p. 146). As palavras seis mil anos deixam claro que os acontecimentos do Jardim do Éden devem ser situados nesse tempo. Sobre o Dilúvio, ele declarou: “O mundo tremeu com os rápidos pingos de chuva que caíam, os primeiros que eles já tinham contemplado” (idem. p. 217). Neste ponto, é reafirmada a interpretação literal de Gênesis 2:5-6, que dizem que o Senhor ainda não fizera chover sobre a terra.
Por esses exemplos se vê que G. H. Pember aderiu fortemente ao modelo antigo de interpretação literal de Gênesis. A esse quadro, por si já bastante problemático, ele ainda acrescentou dificuldades novas. Por exemplo, o cataclisma que destruiu o planeta, resultando no quadro de Gênesis 1:2, foi descrito da seguinte maneira: “A terra arruinada [...] foi inundada pelas águas do oceano; seu sol havia-se extinguido, as estrelas não eram mais vistas, suas nuvens e atmosfera, não tendo força de atração para mantê-las em suspensão, haviam descido” (idem. p. 101). Pember comparou esse acontecimento com o Dilúvio de Noé, quando “a arca flutuava sobre as águas, e a terra foi mais uma vez, quase como havia sido antes dos seis dias de restauração, coberta, até o pico mais elevado, pelo oceano” (idem. p. 217). Contra essa descrição do cataclisma universal, milita o fato de não haver o menor indício de inundações totais da Terra, nos últimos três bilhões de anos, muito menos há seis mil. Há ainda a passagem de As eras mais primitivas que afirma que o cataclisma levou a Terra a "um estado de completa desolação, ficando totalmente sem vida. Não apenas seus lugares frutíferos se tornaram um deserto, e todas as suas cidades foram destruídas" (idem. p. 59). Nesse trecho de sua famosa obra, Pember supôs a existência de verdadeiras cidades, quando o cataclisma desabou sobre a Terra.
Portanto, analisada amplamente, a teoria de Pember (como as da maioria dos outros autores que acrescentaram algum tipo de remendo à interpretação literal antiga) está longe de cumprir o que ele pretendeu ao escrevê-la (1876). As afirmações do livro de Pember não explicam um bom número de fatos e se chocam com outros ainda mais numerosos. Necessário é, portanto, buscar um terceiro modelo interpretativo de Gênesis 1. Mais do que isso: para que o novo modelo alcance o que se propõe, é preciso fazê-lo negar amplamente, não apenas num ponto ou outro, a interpretação literal. Isso não significa negar que o relato bíblico formule afirmações sobre a História Natural. É exatamente isso que ele faz, como mostrarei nesta série. Todavia, é bom lembrar que a Bíblia o faz num quadro geral de seis dias com tardes e manhãs metafóricas.
Essa primeira metáfora, que emoldura o capítulo 1 de Gênesis, cria um importante precedente para a interpretação alegórica de ainda outros textos sobre a criação. Por que não entendermos Gênesis 2 nos termos propostos por Orígenes de Alexandria, no século III: “O jardim e a maneira como se diz que Deus o plantou ‘no Éden, no Oriente’, e que em seguida fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal [...] tudo isto pode, sem inconveniência, ser interpretado em sentido figurado” (ALEXANDRIA, Orígenes de. Contra Celso. São Paulo: Paulus, 2004. p. 318)?
Mesmo assim, a contribuição de Pember à exegese de Gênesis 1 é inestimável. Sua teoria do intervalo permanece atual e válida, embora possa (e a meu ver deva) ser compatibilizada com a interpretação dos seis dias como eras. Porém, ao harmonizarmos as teorias, é útil apararmos os excessos da exegese literal, que Pember herdou do modelo patrístico de interpretação. Não estamos mais no século III ou IV, nem no século de Pember, para reincidirmos em tal erro. Estamos no século XXI e é nele que Deus quer que estejamos. Ou será que a exegese literal da criação se ajusta ao século em que vivemos?
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